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Eleições Benfica: É o futebol, estúpido! (um texto surpreendente sobre presidenciais e programas eleitorais)

Bruno Vieira Amaral leu os três programas eleitorais de Luís Filipe Vieira, João Noronha Lopes e Rui Gomes da Silva e extraiu as ideias globais de cada um deles. Esta é a reflexão que fica e que importa ler no dia em que se decide o novo presidente do Benfica

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O adepto é um animal irracional. Grita, berra, insulta, aplaude, salta, urra, chora até cair de alegria ou de desilusão numa poça de cansaço, e então é-lhe pedido, a este inimigo da lógica e da coerência, a este animal ciclotímico, capaz de elevar aos píncaros o jogador a quem segundos antes tinha desejado uma morte lenta e dolorosa na terceira divisão da Indonésia, que vista o fato de sócio, analise com rigor cartesiano as propostas dos candidatos à presidência do seu clube do coração e decida cerebralmente o seu sentido de voto.

Peçam-me a mim para fazer um Cristo nas argolas e as hipóteses de sucesso serão maiores. O reino da bola caprichosa que não quer entrar, dos falhanços sobrenaturais do Bryan Ruiz, dos frangos telepáticos e das defesas do outro mundo é mesmo de outro mundo e é nesse que o adepto se sente à vontade, incoerente e livre como uma criança, a debitar sentenças definitivas em função do resultado do fim-de-semana. Simplesmente não está equipado para converter o eleitoralês dos candidatos numa linguagem compatível com o seu software emocional.

Aposta no râguebi? Alteração dos estatutos? Desporto adaptado? Criação de um comité de história do clube? Comboio Benfica? Revisão da gama de produtos de merchandising? Bustos de homenagem aos campeões europeus? Nada disto dará a vitória aos homens que se candidatam à presidência do Sport Lisboa e Benfica para destronar Luís Filipe Vieira. Nas eleições dos grandes clubes desportivos o que conta é o futebol e só o futebol. O resto é só para compor o projeto.

Não duvido que haja sócios conscienciosos que leram os programas eleitorais ao pormenor, tiraram apontamentos e até seriam capazes de levantar a mão para esclarecer uma dúvida se houvesse alguma sessão pública de esclarecimento e que precisariam de um sábado de reflexão para finalmente depositarem na urna o resultado difícil da sua ponderação. Mas serão no máximo uns três.

Para os restantes, que torcem por Vieira como se este fosse um “6” sérvio preso por arames, um talismã do clube, e de Noronha Lopes e Gomes da Silva dizem o que nem os árbitros ouvem no Estádio da Luz, e vice-versa, fica aqui o resumo possível das propostas dos candidatos sabendo que a cabeça dos sócios pensa com as emoções da bola.

Dito de outra forma, “é o futebol, estúpido.”