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Eleições Benfica. Noronha & Rui Gomes da Silva: contra comissões, a favor da transparência, mas também êxtases, trips psicadélicas, truismos

As candidaturas de Noronha Lopes e Gomes da Silva apresentam propostas importantes para o reforço da transparência e da democraticidade do clube, para um modelo de governação mais moderno e em que haja um maior escrutínio por parte dos sócios. A questão é que os sócios só olham para o futebol e olhando para as propostas dos dois candidatos percebe-se que, além de umas ideias vagas e de outras megalómanas

Bruno Vieira Amaral

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A vida de alguém que se candidata contra um presidente que está no lugar há dezassete anos não é fácil. Diga-se o que se disser parece sempre que se é do contra. E nestas circunstâncias ser do contra há de ser sempre um bocadinho ser contra o Benfica. É preciso criticar com um bisturi afiado e preciso em vez de recorrer à tática do bulldozer de arrasar tudo o que foi feito.

O diagnóstico que a candidatura de Noronha Lopes faz do estado atual do Benfica procura esse equilíbrio entre o reconhecimento do trabalho feito e a crítica certeira. Nem tudo está mal, mas, para aquilo que investe, o Benfica devia ter melhores resultados, ou seja, devia ser hegemónico em todas as competições e todas as modalidades. “Os passos para assegurar a hegemonia desportiva não assentam em exercícios vazios de retórica”, lê-se no programa que, duas linhas antes, presenteia o sócio com este belo naco de retórica: “A Glória não se anuncia. A Glória não se adia. A Glória constrói-se diariamente.” Se o diagnóstico parece correto, a proposta de cura anda entre a homeopatia e o poder do pensamento positivo.

Para quem ainda não sabe, o lema da candidatura de Noronha Lopes é “A Glória é Agora.” E a glória aparentemente passa por “vencer todas as competições em que participarmos.” Não é vencer regularmente, não é vencer na maioria das vezes, é vencer todas as competições. Vitória é palavra que aparece oito vezes no programa eleitoral de Noronha Lopes: é preciso uma cultura de vitória em todos os campos e, em particular, no Seixal, porque o negócio do Benfica “são as vitórias”. E parece que há uma maneira de conseguir vitórias em catadupa que não envolve a eliminação física dos adversários. É a “mística”.

Noronha Lopes não quer retórica nem promessas vagas, mas não se escusa de sacar da mística que, segundo a filosofia noronhiana, não é nem “uma abstração, nem um ato de fé. Pelo contrário, é a concretização material do benfiquismo, o cruzamento do passado – do exemplo de todos os que honraram o manto sagrado – com a chama imensa que os adeptos levam para onde quer que as nossas camisolas disputem uma competição.”

Nesta altura, o sócio já se encontra a boiar num caldo Knorr de mística com mantos sagrados, chamas imensas e sonhos (“temos de sonhar”, “materializar a ambição desportiva que é o sonho de todos os sócios”), mas o parágrafo termina num êxtase retórico e estilístico do mais elevado quilate: “Só assim seremos capazes de apresentar equipas ambiciosas, mas movidas a benfiquismo. Só assim cumpriremos o nosso destino de vencer. Só assim a glória será agora.” Amém! Se eu fosse sócio, estaria disposto a votar em Noronha Lopes só para ver uma equipa movida a benfiquismo. Mais: uma equipa em que os jogadores fossem injetados com benfiquismo, respirassem benfiquismo e até recebessem parte dos ordenados em benfiquismo.

O que é sensacional é o candidato ter reunido uma extensa equipa de “intelectuais”, zurzir na retórica vazia da atual direção e, logo de seguida, entrar nesta trip psicadélica de sensações extracorpóreas. Uma pessoa fica na dúvida se Noronha Lopes quer conquistar títulos ou distribuir LSD à entrada do Estádio da Luz.

Enquanto Noronha Lopes apresenta três pilares para o seu projeto, Rui Gomes da Silva não se fica atrás e declara ter cinco. Para não variar, o futebol profissional é o primeiro e mais importante (e o único que, na verdade, interessa). Para Gomes da Silva – bem como para os críticos desta direção e para qualquer adepto que não ache muita piada a levar cinco batatas do Basileia – os resultados europeus do Benfica deveriam ser muito melhores.

O candidato recusa “liminarmente” que a ideia de que o Benfica tem “de estar sempre na elite do futebol europeu e mundial” seja uma utopia (sim, pode ser apenas um distúrbio passageiro). Com Gomes da Silva, o Benfica, que agora nem sequer tem sucesso na fase de grupos, tornar-se-ia um peso-pesado da Champions, a chegar às fases decisivas todos os anos.

Como? Ninguém sabe.

Talvez porque o Benfica é o Glorioso e o Glorioso tem de estar sempre na elite e pronto. O problema de quem critica a falta de resultados sem desmontar a estratégia que lhes deu origem é que a única coisa que normalmente faz é “prometer” resultados. Olhando para os últimos anos do futebol europeu, a promessa de que o Benfica estará sempre na elite parece-se escandalosamente com os “sonhos de adepto” desvalorizados pela candidatura de Luís Filipe Vieira.

Os dois candidatos estão de acordo que o futebol de formação é um trunfo do reinado do atual presidente. A aposta é para manter, defendem ambos. O que não é para manter é o número excessivo de contratações de jogadores. Quer Noronha Lopes, quer Gomes da Silva, querem contratar menos e melhor. O primeiro fala de um reforço criterioso do plantel profissional todos os anos com um “número reduzido, mas de elevada qualidade de novos jogadores.” Gomes da Silva promete o mesmo, menos e melhores contratações de atletas, incluindo uma “estrela”, pois o clube deve ter sempre um atleta “com grande visibilidade no mundo do futebol”. (Uma “estrela”, pois. Mas que estrela? Um jogador em final de carreira? Uma jovem promessa em ascensão? O melhor jogador chinês de atualidade?)

A ideia dos dois candidatos é atacar aquilo a que o advogado chama “máquina comissionista” à volta do clube e a dependência de Vieira em relação ao empresário Jorge Mendes para fazer grandes negócios. Mas afirmar que as contratações têm de ser mais criteriosas é um truísmo, uma banalidade. Nenhum candidato vai prometer o contrário. Acontece que, por muito criterioso que se seja, não é possível acertar em todas as contratações e nos bastidores da indústria do futebol e dos negócios não há espaço para lirismos e ingenuidade. Um clube é um entre vários “players” no mercado. Julgar que um presidente do Benfica dá dois berros na sala e impõe regras a jogadores, empresários e outros clubes é não perceber o tabuleiro complexo do futebol moderno.

Gomes da Silva, em particular, insiste em algumas ideias deslocadas e com pouca aderência à realidade, como a de só deixar sair atletas “estratégicos” pelo valor da cláusula de rescisão. A ideia é descabida porque uma cláusula de rescisão é um instrumento que visa dar margem negocial ao clube vendedor. Na maior parte das vezes não corresponde, nem deverá corresponder, ao real valor de mercado do jogador. Uma semelhante política de intransigência conduziria rapidamente ao caos com jogadores insatisfeitos e, em muitos casos, a saírem a custo zero, empresários a privilegiarem outras paragens e as portas dos clubes compradores a fecharem-se quando o Benfica precisasse de vender ativos para equilibrar as contas. Estas ideias pueris de que uma nova direção só vai vender pela cláusula de rescisão e vai comprar menos e melhor e os jogadores estritamente necessários, o que implicaria acertar em todas as contratações, só dá razão à candidatura de Vieira quando fala em candidatos amadores sem conhecimento da realidade futebolística.

Esta candura de adepto leva Gomes da Silva a proclamar: “Queremos criar uma cultura em que os jovens talentos existentes no Seixal olhem para a entrada no plantel principal como o ponto alto das suas carreiras.” Eis outro delírio megalómano em que o espírito do adepto entra no corpo do candidato. Nenhum miúdo ambicioso vai achar que a entrada no plantel principal do Benfica é o ponto alto da sua carreira. É melhor aceitar isto à partida para depois não doer tanto. Estas visões de adepto da bancada são indesculpáveis em quem pretende dirigir um clube como o Benfica porque revelam uma contradição gritante entre as altas esferas da imaginação e o terreno acidentado da realidade. Os miúdos que hoje estão na formação do Benfica sonham, em primeiro lugar, integrar o plantel, mas aposto que nenhum deles se vê a jogar no Benfica até ao fim da carreira. Isto não existe. Como não existe um clube a hostilizar agentes e empresários, a dizer que só vende pela cláusula de rescisão e outras bravatas que revelam uma total ignorância da indústria em que o futebol se tornou.

As candidaturas de Noronha Lopes e Gomes da Silva apresentam propostas importantes para o reforço da transparência e da democraticidade do clube, para um modelo de governação mais moderno e em que haja um maior escrutínio por parte dos sócios. Apesar da obra feita de que Vieira tanto se orgulha, os seus dezassete anos no poder contribuíram para a degradação da democracia no Benfica, para uma confusão pouco saudável entre os interesses do presidente e os interesses do clube e para uma série de decisões obscuras, desde contratações ao envolvimento de personagens sinistras em certos negócios, que só são normais e límpidas para quem está há demasiado tempo na cadeira do poder.

A questão é que os sócios só olham para o futebol e olhando para as propostas dos dois candidatos percebe-se que, além de umas ideias vagas e de outras megalómanas que são o mais próximo que um candidato pode chegar do discurso do “quinze a zero”, não têm conhecimento suficiente da máquina para se sentarem ao volante. E se isso acontecesse, o risco de despiste seria grande. Em vez de esperar na sombra pelas próximas eleições, a oposição deveria aproveitar os próximos quatro anos para ganhar calo no futebol e então enfrentar o delfim de Vieira ou, quem sabe, o próprio Vieira