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Eleições Benfica. Vieira: homem do povo, com a 4.ª classe e um bigode de outras eras, recuperou o Benfica porque é um Líder e tem uma Visão

O verdadeiro benfiquista, na conceção do atual presidente, prescinde de manifestos, dispensa debates e até vai votar um pouco contrariado, sem um amor particular à democracia. Vota porque é a forma que tem de homenagear o grande líder, o homem que refundou o clube e que, segundo o documento eleitoral, é dono de uma Visão. Não é uma visão, é uma Visão

Bruno Vieira Amaral

Luís Filipe Vieira é presidente do Benfica desde 2003

Tiago Miranda

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Um presidente popular como Luís Filipe Vieira, homem do povo, facto comprovado por juntar à 4ª classe um bigode de outras eras e um desconhecimento fluente de Inglês, sabe com toda a certeza que isto de ler manifestos eleitorais para decidir o sentido de voto é coisa de intelectuais, um hábito das elites. O verdadeiro benfiquista, na conceção do atual presidente, prescinde de manifestos, dispensa debates e até vai votar um pouco contrariado, sem um amor particular à democracia.

Vota porque é a forma que tem de homenagear o grande líder, o homem que refundou o clube e que, segundo o documento eleitoral, é dono de uma Visão. Não é uma visão, é uma Visão. Ter líderes com visão é uma coisa. Ter um líder dotado de uma Visão é outra. É característica de imperadores, de conquistadores, de monarcas, e não de meros presidentes de clubes desportivos.

E é por Luís Filipe Vieira, graças à sua extraordinária Visão, se ver como muito mais do que o presidente temporário de um clube que deve achar ridícula esta necessidade de expor num manifesto as razões óbvias da sua grandeza. Em primeiro lugar porque nem o mais longo dos manifestos poderia fazer justiça à dimensão da sua obra, palavra que surge nove vezes no manifesto: Vieira orgulha-se da “obra feita”, é o único candidato com “obra feita”, com “muita e variada obra feita” que “está à vista”. Em segundo lugar porque um predestinado, um líder nato, não se rebaixa encomendando panegíricos, ainda que com fins eleitorais, a sublinhar tudo o que foi feito. É que dessa forma dá-se a impressão de que a obra não fala por si. Como se constata no manifesto, Vieira e os seus seguidores acham não só que a obra fala por si, mas que fala tão alto que torna supérflua qualquer discussão.

Nesse sentido, este manifesto não é tanto uma exposição lógica das razões para a reeleição de Vieira, mas um murro na mesa, um berro do chefe de família para pôr toda a gente caladinha e em sentido. Sabem quando os filhos começam a argumentar com os pais e as estes não resta alternativa a não ser puxar dos galões e dizer “isto aqui não é uma democracia”? Bem, o manifesto vieirista não chega ao ponto de negar a democracia, mas está escrito a contragosto, como se a necessidade de enumerar os feitos gloriosos do presidente fosse insultuosa. Não andamos longe de uma monarquia de direito divino, o que é curioso num presidente que se gaba, justamente, de receber o seu poder do povo e, mais do que isso, de ser um homem do povo, a encarnação perfeita do benfiquista genuíno em oposição ao “benfiquista das elites”, conceito que para o vierismo é quase uma contradição nos termos, representado nestas eleições pelo sofisticado, bem-falante e instruído Noronha Lopes.

O manifesto esforça-se por ignorar os adversários de Vieira, mas não esquece a franja que eles supostamente representam e essa franja são as elites. “Luís Filipe Vieira nunca se refugiou nas ditas elites do clube, sempre esteve próximo dos sócios, em todos os momentos e em todos os locais”, lê-se a certa altura no manifesto. “Luís Filipe Vieira é do povo e o povo sabe que o Benfica não é das elites. Luís Filipe Vieira sabe que o Benfica é dos Benfiquistas.” Este populismo aplicado ao desporto nada diz sobre a estratégia de Vieira para o clube, pretende apenas reforçar a ideia de que o presidente é indissociável da massa dos adeptos: “Ninguém melhor que Luís Filipe Vieira conhece os sócios do Benfica. Conviveu com eles em todos os momentos, em todos os locais [atente-se na repetição], nas Casas do Benfica, nas manifestações desportivas nacionais e internacionais e nas suas visitas ao estrangeiro.”

Vieira também conhece os anseios, o orgulho e os sonhos dos adeptos, embora acuse os seus concorrentes de apresentarem “projetos irresponsáveis assentes meramente em «sonhos de adepto».” Resumindo, ele conhece os sonhos dos adeptos, mas não os tem em grande consideração.

As infraestruturas

Os frutos do trabalho de Luís Filipe Vieira são inegáveis: a aposta na formação e nas infraestruturas, a estabilidade financeira e o relativo sucesso desportivo da equipa principal de futebol. Porém, nos anos do último mandato, supostamente os que estão em julgamento nestas eleições, não é visível uma evolução clara do clube, quer a nível da estratégia, quer a nível dos resultados. Por isso, é natural que o manifesto eleitoral conduza o olhar dos adeptos para as obras completas de Vieira e tente desviá-lo dos seus últimos esforços e decisões erráticas. No afã de louvar Vieira, o manifesto passa uma esponja sobre as mudanças de treinadores nos últimos anos ao afirmar que “pela experiência acumulada, [LFV] sabe que a estabilidade das equipas técnicas é um fator fundamental para o sucesso desportivo.” Diz também que o presidente “sabe que o futebol não pode ser gerido assente em amadorismo, emoção ou paixão”, isto quando é público que Vieira só manteve um treinador – que viria a despedir pouco tempo depois – por ter visto uma luz no Seixal.

Luís Filipe Vieira sabe, mas o manifesto não o diz nem pode dizer, que este último mandato foi o da estagnação e, em certos aspetos, do retrocesso: a nível desportivo, um Porto financeiramente manietado reaproximou-se do Benfica e os resultados europeus, em vez de melhorarem, foram trágicos. A política de aposta nos jogadores da formação no plantel principal foi interrompida e a contratação de Jorge Jesus, independentemente dos seus inquestionáveis méritos técnicos, está em flagrante contradição com as afirmações do próprio Vieira quando o treinador saiu para o Sporting em 2015.

Perante estes ziguezagues que criaram a perceção no adepto comum da ausência de uma estratégia sólida, os estrategas da candidatura do atual presidente resolveram apostar todas as fichas nos dezassete anos de presidência de Vieira e na ligação deste ao coração popular do clube. Não sendo uma estratégia desesperada, porque é verdade que a folga e os créditos de Vieira ainda são consideráveis e deverão permitir-lhe uma vitória confortável, o manifesto não responde às inquietações de muitos adeptos. Mas talvez um manifesto não sirva para isso. Talvez seja apenas o modo cortês, consagrado pelo tempo, de atirar areia para os olhos dos incautos e dos poucos – intelectuais, elitistas – que se darão ao trabalho de o ler.