Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Luís Filipe Vieira, o homem que não se deixa agarrar

Votaram mais de 38 mil sócios e Luís Filipe Vieira somou 471.660 votos (62,59%); João Noronha Lopes terminou a corrida em segundo com 261.754 votos (34,71%) e Rui Gomes da Silva obteve um resultado desastroso, com 12.341 votos (1,64%), ligeiramente acima da votação em branco (1,16%, correspondentes a 8 mil votos). Mas este triunfo, mais ou menos esperado apesar de algumas expectativas geradas, não pode ser desvalorizado ou visto como uma mera formalidade: Vieira prevaleceu com uma margem confortável. E os outros?

Pedro Candeias

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Partilhar

Luís Filipe Vieira foi reconduzido para o sexto mandato consecutivo à frente do Benfica às duas da madrugada de 29 de outubro, quando faltavam apenas seis horas para se completar um ciclo de 24 de um ato eleitoral histórico, com uma participação recorde num momento singular: aconteceu em plena pandemia, que aconselha ao recato, prudência e distanciamento.

Votaram mais de 38 mil sócios e Luís Filipe Vieira somou 471.660 votos (62,59%); João Noronha Lopes terminou a corrida em segundo com 261.754 votos (34,71%) e Rui Gomes da Silva obteve um resultado desastroso, com 12.341 votos (1,64%), ligeiramente acima da votação em branco (1,16%, correspondentes a 8 mil votos).

No número de votantes, Vieira bateu Noronha Lopes (22.787 contra 14.337) e, discriminando os votantes por antiguidade, superiorizou-se em todos os itens: entre os que tinham um voto (4.900 contra 3.464) e também cinco votos (2.374 contra 2.058), embora a diferença mais expressiva se tenha verificado entre os associados mais antigos, com 20 votos (10.692 contra 6.431) e 50 votos (4.821 contra 2.384); apenas 603 pessoas escolheram Rui Gomes da Silva, o oposicionista original destas eleições presidenciais.

Mas este triunfo, mais ou menos esperado apesar de algumas expectativas geradas, não pode ser desvalorizado ou visto como uma mera formalidade. Mesmo havendo sinais claros de erosão da sua imagem, mesmo com casos de Justiça e mesmo diante do adversário mais formidável que enfrentou nestes 17 anos, Luís Filipe Vieira saiu por cima.

Sim, a distância para um rival direto é a mais curta de sempre em seis sufrágios, mas também nunca Vieira parecera tão frágil aos olhos da crítica e de muitos associados, como as votações denunciam.

Ainda assim, prevaleceu com uma margem confortável e inequívoca, pedindo responsabilidade e exortando o benfiquismo dos derrotados, e criticando a franja da comunicação social que ele e a estrutura entendem não ser imparcial.

O último mandato

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Agora que vai arrancar para os seus últimos quatro anos de Benfica - a jura é dele -, Vieira terá de desencantar meios no meio de uma crise para materializar o slogan que presidiu à sua campanha: o tal “mandato desportivo”, que naturalmente inclui campeonatos nacionais e uma vitória mística e catártica numa taça europeia, para encerrar o seu arco narrativo inegavelmente carregado de títulos.

Depois, há o lado político da questão.

Ao trazer Rui Costa para junto de si, dando-lhe o palco que agora não enjeita, Luís Filipe Vieira sabe que conquistou mais adeptos, mas também sabe ler nas estrelas e nas entrelinhas.

No momento certo, com as condições exatas e uma equipa preparada, Rui Costa pode emancipar-se ao presidente se as coisas estiverem a correr mal, bastando-lhe, para tal, não dar a cara em certos contextos.

Porque o antigo número 10 conhece bem a imprensa, e tem boa imprensa, e para os benfiquistas românticos será sempre visto como o jogador que assinou um salário em branco para voltar “ao seu Benfica”.

Esta madrugada, quando Luís Filipe Vieira leu o discurso de vitória e desceu do púlpito sem direito a contraditório, Rui Costa foi ter com os jornalistas para falar demoradamente com cada um deles, empático, natural e generoso com os candidatos derrotados; falou em nome do Benfica, e não dele. No final, foi elogiado por repórteres, pivôs e comentadores.

Talvez esta seja uma das manifestações do carisma e o carisma não se compra.

Os outros

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Como também não se compra a dignidade do discurso de Rui Gomes da Silva, que assumiu erros e culpas na gestão de uma corrida eleitoral em que fora até o primeiro a largar. Em 2018, a dois anos das eleições, o antigo vice-presidente assumiu vontade em ser concorrente de Luís Filipe Vieira, de quem se tinha afastado irremediavelmente.

Durante este tempo, o advogado aproveitou a presença em espaços televisivos e na blogoesfera para lançar a sua plataforma contra Luís Filipe Vieira, usando palavras como “comissionista”, “betão” e “serventia” para colorir os seus ataques ao presidente. Durante algum tempo, julgou-se que RGS seria o único rival de Vieira, até por omissão de outras candidaturas, mas a tração inicial foi-se perdendo no tempo, com a falta de apoios financeiros e de caras mediáticas do seu lado; e assim ficou esquecido um programa eleitoral com ideias bastantes interessantes para um clube de futebol.

Rui Gomes da Silva mostrou que a exposição televisiva nem sempre se traduz inequivocamente por votos em eleições. O antigo ministro, cuja experiência e notoriedade alcançadas em debates de futebol é difícil de igualar, não resistiu aos avanços da equipa de João Noronha Lopes, profundamente digital, suportada por rostos conhecidos, bons profissionais e 900 voluntários.

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

Dizer que Noronha Lopes foi derrotado por Vieira é elogiá-lo, porque isso significa equipará-los - e ninguém lhe daria 34,71% dos votos à partida, apesar dos endorsments de Pedro Norton, Pedro Adão e Silva, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Ribeiro, Ribeiro e Castro, Bagão Félix, Vítor Paneira, Carlos Mozer ou António Simões.

Com um começo tímido, pouco agressivo e algumas dificuldades em fazer passar as suas mensagens em horário nobre na TV, Noronha Lopes foi crescendo com visitas filmadas às Casas do Benfica e via tags, likes e shares nas redes sociais até ao ponto em que julgou possível chegar ao milagre.

Não chegou.

Por outro lado, perante a intransigência de Vieira em aceitar debates, Noronha Lopes passou ao ataque, desafiando insistentemente o presidente em exercício para uma conversa a dois que nunca aconteceu. Endureceu o discurso - disse que LFV “tinha medo do contraditório” e “que se escondia” - perdendo mais tempo a criticar o que Vieira fazia do que a explicar ao que ia.

A questão é saber para onde vai, porque assegurou que ia andar por aí.