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Um Benfica muito anjinho

Manietado no meio-campo, infeliz a defender, o Benfica foi a casa do Boavista sofrer uma pesada derrota por 3-0, a primeira derrota no campeonato para a equipa de Jorge Jesus, que deixa assim o Sporting na frente da liga. Em casa, os axadrezados, que chegaram à 6.ª jornada sem vitórias, foram sempre a melhor equipa, com Angel Gomes e Elis em destaque

Lídia Paralta Gomes

Quality Sport Images/Getty

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O tempo é relativo menos no campeonato português. Por cá, o tempo é já, ganhar é para ontem, até pode ser mal, com um golo às três pancadas, o que é que isso interessa?, o importante é dar resultados, a permanência é para conseguir logo que possível e para o ano logo se vê.

Trabalhar assim é fácil: a exigência é o pontinho, acaba no um-a-zero ou no um-a-um e não faltam equipas no nosso campeonato que assim se têm aguentado, no esforço e na raça, que são coisas bonitas para se usar ao peito mas agora de repente lembrei-me de uma frase que o Fábio Martins disse na última semana ao meu colega Diogo Pombo: “Há equipas que ganham, mas depois espremes e pronto, ok, ganharam, mas qual jogador se mostrou?”.

O que o Fábio Martins queria dizer é que é importante jogar bem, com identidade e que os jogadores só evoluem assim. Ele sabe, porque há um ano estava no Famalicão e do Famalicão saíram vários jogadores para palcos maiores porque o que se passou ali não foi só uma aleatória série de bons resultados: foi uma ideia. Que por acaso resultou logo e aí é que está a grande anomalia, não no sentido do disforme, mas naquilo que se desvia da norma, do Famalicão.

Porque estas equipas normalmente precisam de tempo. O Boavista chegou à 6.ª jornada sem vitórias, só com três empates e já com muita gente a torcer o nariz ao projeto que trouxe Vasco Seabra para o Bessa. Esta segunda-feira, frente ao Benfica, viu-se que tudo o que Seabra precisava era de tempo, não só porque é um treinador novo numa equipa praticamente cheia de caras novas, mas também porque o Boavista é normalmente sinónimo desse esforço e dessa raça, é um clube feito de atitude e não exatamente de bailado clássico. E isso demora tempo a mudar.

E enquanto já se sussurravam críticas e desejos mal-escondidos de demissão, eis que Vasco Seabra e o seu Boavista arrasam o Benfica no Bessa, não na atitude mas na inteligência, com um 3-0 que até podia ter sido mais gordo, porque mesmo com variações - e nisso a 1.ª parte foi bem melhor que a 2.ª - o Boavista foi sempre a equipa mais perigosa, com mais oportunidades, enquanto os encarnados se viram enjaulados numa teia tática, num bloco compacto que raramente deu borlas ao seu fortíssimo ataque, sem nunca cair na tentação de ficar fechadinho lá atrás.

Quality Sport Images/Getty

Ficar lá atrás é para as equipas que querem o pontinho, não é para equipas que querem ganhar. E mais, ganhar por 3-0 à única equipa que até esta segunda-feira tinha por vitórias todos os jogos do campeonato. E não foi preciso esperar muito tempo para perceber o que o Boavista queria: entrou desde logo pressionante na saída de bola do Benfica, a provocar o erro dos adversários.

O golo anulado ao Benfica logo aos 11’ foi uma espécie de fogacho único dos encarnados, uma grande jogada entre Waldschmidt e Darwin anulada por fora de jogo e que o Boavista não mais permitiu que se repetisse. Pouco depois, apareceria o génio de uma das figuras individuais num Boavista que foi essencialmente um todo bem oleado: aos 18’, Angel Gomes, o miúdo inglês de sangue lusófono, apareceu na área, sambou com quem lhe apareceu à frente e só foi travado pelo pé de Everton Cebolinha. A grande penalidade era clara e foi o mesmo Angel a marcar com classe desde a marca dos 11 metros.

O mesmo Angel Gomes seria a penúltima peça na engrenagem da jogada do 2-0, aos 38 minutos, numa grande jogada coletiva do lado direito do ataque do Boavista, triangulações ao primeiro toque que deixaram primeiro Nuno Tavares perdido e depois os centrais encarnados. Quando a bola chegou ao miolo, estava lá Angel para dar o toque com a força exata, nem mais, nem menos, para Elis aparecer na área para uma excelente finalização.

Era a surpresa no Bessa, num jogo em que o Benfica tinha muito mais bola mas onde raramente conseguiu desfazer-se da organização defensiva do Boavista. Raro momento aos 30 minutos, com Vertonghen a responder de cabeça a um cruzamento de Taarabt. O remate saiu à figura, mas à queima. Leo Jardim respondeu com bons reflexos. Pelo contrário, o jogo cantou sempre de forma diferente nos momentos de posse do Boavista, a variar facilmente o jogo nos três corredores, a criar espaços com a rapidez de raciocínio.

Para a 2.ª parte, Jorge Jesus percebeu onde estavam alguns dos problemas do Benfica: tirou Gabriel, manietado pelo bloco médio do Boavista, Pizzi, perdido em campo, a permitir espaço em barda ao adversário e Everton, desastroso a defender, inócuo a atacar, lançando Weigl, Rafa e Seferovic. A leitura de Jesus não pareceu errada, mas as peças do Benfica nunca se encaixaram e jogadores como Darwin ou Waldschmidt, que haviam estado em plano razoável na 1.ª parte, desapareceram.

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O uruguaio teve nos pés talvez a única grande oportunidade do Benfica para reduzir no início da 2.ª parte, num livre direto que passou junto ao poste. Em jogo corrido, o Benfica foi pouco mais que uma nulidade, caindo que nem anjinho nos puzzles montados por Reisinho ou Paulinho, outros dos elementos do Boavista em excelente plano.

Na 2.ª parte, Angel Gomes, o menino cheio de talento naqueles pés e que começou por ser o verdadeiro cimento entre os sectores dos boavisteiros, quebrou fisicamente e apareceu a máquina locomotiva hondurenha chamada Elis, que tanto em ataque apoiado como em saídas rápidas foi um quebra-cabeças para a defesa do Benfica, num dia de particular angústia.

Aos 55’ assustou Odysseas com um remate lateral e aos 76’ seria fundamental para o 3-0 do escândalo (que só será escândalo para quem não viu o jogo, na verdade), ao participar na combinação rápida com Paulinho, com o brasileiro a encontrar depois Hamache sem qualquer marcação à entrada da área. E dali saiu o remate de pé esquerdo que fechou as contas.

Ainda com 15 minutos para jogar, o Benfica baixou definitivamente os braços com o 3-0, assumindo talvez aquilo que cedo se percebeu: não teve soluções para a estratégia de Vasco Seabra, para o novo desenho tático do Boavista, com três centrais, e Jorge Jesus até se pode desculpar com a quantidade de faltas que os axadrezados cometeram, mas não foi por aí que o Benfica não ganhou este jogo. E não lhe ficava mal assumir que o adversário foi quase sempre superior, fez por ganhar, atacando melhor, secando sem piedade uns encarnados poderosos no ataque, mas que têm muito para trabalhar na linha média. O banho de realidade se calhar não foi em Salónica, foi no Bessa.