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Benfica. Mas conseguiriam eles fazê-lo numa noite chuvosa na Luz? Darwin, sim

Os encarnados empataram com o Rangers (3-3), no limite, com uma assistência e um golo de Darwin na segunda-parte permitiu ao Benfica recuperar a dignidade e sacudir a derrota pesada no Bessa dos ombros. Às cavalitas deste poderoso uruguaio

Pedro Candeias

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Há anos, um investigador de Yale chamado Shane Frederick certificou os testes de reflexão cognitiva (cognitive reflection test ou CRT, no original) enquanto estudava o raciocínio humano; digamos que os CRT surgiram como outra forma de testar a inteligência humana.

Assim, os testados eram convidados a resolver um problema de solução enganadoramente fácil. Um exemplo: clube do seu coração acabou de ultrapassar o que está em segundo lugar, então em que lugar ficou? Intuitivamente, muitos respondem “primeiro lugar”, mas a resposta certa é segundo.

Pois que este enunciado não serve para o Benfica - Rangers, porque estavam ambos em primeiro do grupo na Liga Europa; o que nos interessa aqui é a intuição.

Quando Connor Goldson (minuto 2) e Diogo Gonçalves (minuto 24) se apanharam em frente às respectivas balizas e com uma bola perto do pé, intuíram despachá-la para fora só por causa das coisas - e em ambos os lances correu mal.

E se o equívoco de Goldson entreabriu boas perspectivas ao Benfica, o de Gonçalves escancarou as do Rangers, até porque um poucochinho antes Otamendi fora expulso porque instintivamente travou Kent com recursos ilegais. Vendo-se atrás no marcador, com menos um futebolista em campo e com as pernas a falharem como tinham falhando no Bessa… pois.

O Benfica foi-se abaixo, com Jardel a entrar para o posto de Pizzi, um meio-campo inexistente e laterais demasiado permeáveis contra um conjunto de rapazes de uma equipa da Escócia que é valente, agressiva e rápida, e tenta ser certinha - mas que tem o rasgo e a imaginação de um quadrado.

Com a chuva impiedosa a cair, parecia até que o défice físico se acentuava, com consequências imediatas na gestão dos duelos físicos, no aperto necessário à saída de bola dos escoceses e, sobretudo, na capacidade de ir buscar adversários em corrida quando a subida linha defensiva se apanhava traída.

Os jogadores estavam visivelmente desgastados, desorientados, a estratégia de Jesus afogava e ficava a dúvida: sim, eles tinham talento, mas seriam eles capazes de o fazer numa noite chuvosa na Luz?*

Bem, mais ou menos, porque o plano C para o plano B do plano A - convém recordar que J.J. promoveu alterações para fazer descansar jogadores - foi colocar Gilberto e Grimaldo para os postos de Diogo Gonçalves e de Nuno Tavares não funcionou. E o lateral brasileiro ficou bastante mal visto no 3-1 do Rangers, por Morales, que podia ter derrubado definitivamente o Benfica.

Enter: Darwin, por Seferovic, para emparelhar com Rafa Silva nos contra-ataques que o encarnados iriam tentar explorar. E enter Waldschmidt, pelo apagado Everton, para se juntar aos outros dois. Afinal de contas, num jogo 10 contra 11, a única chance de Jesus seria aproveitar algum optimismo excessivo do Rangers de Gerrard. Que não parece feito para gerir vantagens ou recuos estratégicos, mas para carregar como um bulldozer movido a haggis.

E, de repente, aconteceu: Darwin desmarcou-se em profundidade, fintou um jogador na linha de fundo, aguentou a carga e cruzou para o golo de Rafa e chama acendeu numa noite fria mas já sem chuva. E, depois, mesmo mesmo a fechar o encontro, um passe vertical de Waldschmidt teve a correspondência certa de Darwin, que arrancou no momento certo, escapando finalmente ao fora de jogo, e fez o empate.

Em dois momentos, o CRT de Darwin foi certeiro. E em 15 minutos, o Benfica recuperou a dignidade e sacudiu a derrota pesada do Bessa dos ombros.


*Uma adaptação conveniente à famosa frase do comentador inglês Andy Gray: “Could they do it on a rainy night on Stoke?"