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Lá como cá

Tal como na Luz, o Benfica viu-se a perder por dois golos em Glasgow com o Rangers, antes de reagir e conseguir o empate. Mas mais que nova recuperação, o que fica são os 75 minutos em que mais uma vez os encarnados mostram uma qualidade de jogo bem abaixo daquilo que o plantel de Jesus tem obrigação de dar

Lídia Paralta Gomes

Ian MacNicol/Getty

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Se na Pedreira, não fosse Vardy marcar já bem para lá da hora, cá se pagava o que lá o Leicester tinha feito, em Glasgow foi como se fosse 5 de novembro outra vez, numa espécie de Dia da Marmota europeu: lá como cá, o Rangers esteve a ganhar por dois golos até aos últimos 15 minutos de jogo, com o Benfica a jogar pouco. E lá como cá, o Benfica, mesmo a jogar pouco, ainda chegou ao empate, com o banco a dar uma ajudinha.

Um empate (2-2) em Ibrox, frente a um Rangers renascido com Steven Gerard, não será um resultado catastrófico, é certo. Mas mais do que na reação do Benfica nos dois jogos, em que evitou a derrota com um forcing final, talvez fosse mais avisado focar-nos na parte que será mais preocupante neste momento para os adeptos encarnados: em ambos os jogos - e na verdade já há várias semanas - o Benfica jogou muito pouco.

Se os 15 minutos finais em Glasgow foram aceitáveis e o aceitável deu para chegar ao empate, os 75 minutos que se antecederam terão sido, afirmo com alguma propriedade, dos piores que o Benfica fez desde o regresso de Jorge Jesus à Luz. Até aos 75 minutos, o Benfica pareceu sempre uma equipa sem andamento, estranhamente cansada, sem soluções para a organização férrea do Rangers, uma equipa coesa, mas sem estrelas ou grande magia.

Mesmo com muitos jogadores importantes de fora, o talento que existe no plantel do Benfica deveria ser mais do que suficiente para desbloquear a muralha escocesa, que até ao autogolo de Tavernier aos 78’, que reduziu para 2-1, controlou tranquilamente sem bola, não permitindo qualquer oportunidade de golo ao Benfica, tentando, depois, a sua sorte em ataques rápidos, ainda que o primeiro golo da equipa da casa, logo aos 7’, até tenha surgido numa jogada de ataque em construção. Uma boa jogada pela esquerda, com poucos toques e processos simples, que acabou em confusão na área encarnada: após o cruzamento de Barisic, Roofe cabeceou para a defesa de Helton Leite, na recarga Tavernier rematou à barra e só à terceira, perante a passividade da defesa, Arfield conseguiu fazer com que a bola entrasse na baliza do Benfica.

Da 1.ª parte pouco mais há a dizer. Depois de um início em que Everton Cebolinha ainda se mostrou, foi o deserto, com o Benfica a não conseguir sequer aproximar-se da área do Rangers, fora um lance de Rafa perto do intervalo, que a defesa escocesa resolveu com facilidade.

Alan Harvey - SNS Group/Getty

O Benfica arrancou o 2.º tempo com um remate perigoso de Waldschmidt já dentro da área mas voltou a instalar-se o marasmo, o andamento penoso e lento, a falta de criatividade. Sem conseguir entrar em zonas mais interiores, pelas alas também não apareciam soluções, enquanto o Rangers se tornava mais agressivo com bola. Aos 69’, um ataque rápido, mais uma vez pela esquerda, mais uma vez simples e sem burocracias, terminou com um grande golo de Roofe, num remate de meia-distância, forte e colocado.

Com 2-0, o Benfica parecia de rastos.

Mas a entrada de Pizzi e Gonçalo Ramos acabaria por trazer qualquer coisa a mais do que o Benfica havia mostrado até então - não muito mais, entenda-se, mas esta equipa do Rangers, por muito organizada que seja, também abana à primeira aceleração.

Aos 78’, num lance confuso na área dos escoceses, Seferovic falhou redondamente o remate em frente à baliza, mas estava lá Gonçalo Ramos para a emenda. McGregor ainda defendeu, mas a bola acabaria por entrar com a ajuda de Tavernier. E depois de Morelos quase voltar a engordar a vantagem do Rangers, surgiu, finalmente, uma jogada com mel do ataque do Benfica, com Pizzi e Rafa a combinarem e a fazerem finalmente com que o corredor central do Rangers se desmoronasse. Já na área, Gonçalo Ramos serviu de distribuidor com um pormenor delicioso de calcanhar, para Rafa e Pizzi terminarem o serviço que haviam começado.

E em menos de nada, o Benfica chegava a um empate que, pelo que havia feito até então, não merecia. Lá como cá, valeu a Jorge Jesus o efeito dos homens que saltaram do banco (Darwin em Lisboa, Ramos e Pizzi em Glasgow) mas a uma equipa destas não se pede apenas que reacione ou que sofra até ao fim, frente a equipas sem a mesma qualidade individual ou talento.

No meio disto tudo, pode falar-se de crise? É que se não contarmos com a vitória pífia frente ao Paredes para a Taça de Portugal do último sábado, já são quatro jogos sem ganhar para o Benfica, em qualquer um deles com exibições desapontantes e apenas alguns fogachos daquilo que Jorge Jesus prometeu em termos de qualidade de jogo.

Sim, é possível que se possa falar de crise.