Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Benfica

Cabeça de cebola é cabeça goleadora

Os dois golos com que o Benfica ganhou (2-0) ao Gil Vicente vieram da testa de Everton Cebolinha, que vai em três golos seguidos feitos com essa parte do corpo, mas a equipa que Jorge Jesus considera jogar melhor do que toda a gente menos a única equipa que passará o Natal à sua frente tremeu mais contra 10 jogadores, deixou o adversário contra-atacar e mostrou como ainda é bastante falível na transição defensiva

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

Partilhar

Isto de dizer que é treta tudo o resto que se diga do tema sobre o qual dissemos coisas é, isso sim, treta, porque subentende que a razão só pode estar do nosso lado, apenas é válida a nossa opinião e o que se diga em contrário é artimanha. A vida não é bem assim, não o é de todo, apesar de muitos quererem e crerem que assim funcione. E chegamos ao Benfica, segundo do campeonato quando entrou em Barcelos, pois foi do seu treinador que surgiu a seguinte ordem de ideias:

“Só há uma equipa em Portugal que joga melhor do que o Benfica: é quem está em primeiro. Isso é que define quem joga melhor. O resto é conversa da treta. Porque uma coisa é o jogo falado, outra coisa é o jogo jogado e treinado.”

A narrativa de Jorge Jesus é numérica e hierárquica, factualiza o que é qualitativo pela ordem de uma classificação e assim considera o seu Benfica, que visita o Gil Vicente com fato de ditador. A equipa dita a vida da bola, tem os centrais a serem opções de circulação para lá da linha do meio-campo, encosta o adversário a própria área, reduzi-o a defender-se em 35 metros de campo e arrisca coisas em quase todas as jogadas.

Tanto joga com o seu bloco subido, os jogadores próximos e ávido de combinações de passes curtas que, nas bolas perdidas, capaz e de pressionar logo e com muitos, reduzindo o Gil Vicente a tentativas de contra-ataque rápidos cujo sucesso, na prática, só surge quando Leautey cruza e o embalado Vitor Carvalho remata de cabeça para vermos a bola a rasar o poste direito.

Estando os de Barcelos remetidos a defenderem colados a área, os médios colados a linha defensiva, o Benfica forçava jogadas por dentro em Darwin e Seferovic, o uruguaio mais feito para galopar na profundidade, o suíço a existir para pouco mais do que devolver tabelas e a dinâmica entre eles a ver-se apenas em texto. E Everton rematou, Darwin também, Gilberto imitou-os de longe e Pizzi juntou-se as tentativas.

O Benfica desenvolvia jogadas até ao remate, mas para as jogadas que produzia, poucas viviam até a idade da finalização. Custava a equipa progredir no campo pelo centro. Grimaldo e Gilberto acercavam-se dos médios para fomentar o jogo interior ao qual faltava um avançado dentro, mas, por demasiadas vezes, as jogadas culminavam em cruzamentos de Everton ou Pedrinho.

Nos últimos cinco minutos da primeira parte, o central Ygor Nogueiro saltou a duas bolas com Darwin, em ambas esticou um braço contra a cara do uruguaio e o duplo amarelo condenou o Gil Vicente a limitações futuras. E arrelias acrescidas com Taarabt, posto a aquecer durante o intervalo para injetar andamento, verticalidade e arrojo às trocas de bola.

Octavio Passos/Getty

Mas, baldrocas do futebol, a equipa com menos um campo montou duas transições rápidas com final na baliza em uma dezena de minutos, a segunda deu-lhe um canto, que lhe deu outro e esse canto duplicou os remates na baliza. Sempre por Lucas Mineiro. E na ressaca, Laurincy ainda rematou mais uma vez. Três tentativas seguidas para o Gil Vicente, inferior nos números mas superior na exploração dos espaços que a desorganização do adversário deixava.

E, durante esta espreguiçadela gilista, o Benfica marcou quando Pizzi cruzou da direita, Everton cabeceou a bola e uma cabeçada de Rodrigão confirmou o 0-1. Seis minutos passaram e outra jogada acalmou em Pizzi, que tabelou com Seferovic para o suíço pentear a bola com a sola antes de a picar área dentro, onde de novo estava a cabeça do brasileiro. Os últimos

Zero-dois feito, aproveitando-se mais da apatia, da passividade e dos defeitos nas abordagens dos adversários, do que da vantagem numérica e dos espaços que tal causaria, inevitavelmente.

Causou, de facto. Sucederiam-se as jogadas com receções na área, Pizzi e Taarabt a filtrarem passes, a simplicidade de Weigl a iniciar tudo e a as finalizações, porém, a faltarem, porque Darwin pouco se enquadrou para ver baliza e quando o soltaram em corrida preferiu tentar assistir alguém. Do Gil Vicente houve apenas uma ameaça entre os golos do Benfica, quando Vlachodimos salvou a equipa na mesma jogada que mostrou, de novo, o quão falível ainda e a transição defensiva da equipa - que deve começar nos posicionamentos que tem quando em posse de bola.

O Benfica passará o Natal no mesmo segundo lugar que levou a Barcelos, onde teve produção ofensiva para vencer e tornear o seu ainda soluçante jogo interior; a sua falta de capacidade para variar o centro de jogo quando concentra o adversário num corredor do campo; e a reação às bolas perdidas e saídas do adversário quando a primeira pressão é superada.

São problemas e os problemas, como em qualquer outra equipa, a classificação não mostra.