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Jesus não queria Luisão no Benfica. Agora, Luisão pode ser a sua salvação

Na quarta-feira, o antigo central foi ao centro e impôs os seus 1,96m e os seus muitos quilos e a sua voz aos jogadores do Benfica, alguns deles ex-colegas. Apontou-lhes o dedo e eles mantiveram-se impassíveis, de cabeça baixa perante o peso simbólico do antigo capitão cuja fúria Rui Costa tentou suavizar sem sucesso - porque Luisão voltaria à carga. Luisão e Jorge Jesus partilham uma longa história que não começou especialmente bem, em 2009, mas o xerife parece o único capaz de sacudir a letargia deste Benfica estranhamente resignado

Pedro Candeias

Octavio Passos

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A julgar pelo que diz, Jorge Jesus terá entrado no estágio final do processo de autoconhecimento que começou quando entrou no Benfica, em 2009. O que é que isso significa? Que se acabaram as bocas do pintas da Amadora cuja carreira foi justamente construída em cima deste tipo de carisma, destravado e nervoso.

O que vemos agora nas conferências de imprensa e durante os jogos é um homem imperturbável, de ombros caídos e com as mãos enfiadas nos bolsos das calças, conformado com aquilo que a vida lhe oferece.

Se a piada não fosse má, diríamos estar perante o anti-Cristo.

Intrigado, um jornalista perguntou-lhe antes da Supertaça se ele estava nostálgico ou tristonho, questionando porque falava tanto do Brasil se já estava no Benfica há meses. Noutros tempos, Jorge Jesus ter-se-ia esquecido de onde estava e disparado sobre o jornalista – segundo o jornal “Record”, acabou por ser um assessor do clube a fazer esse trabalho. Desta vez, J.J. disse apenas discordar daquela opinião e que, simplesmente, tinha mudado.

– Não sou o mesmo de há dez anos.

Não estou certo de que os benfiquistas estejam particularmente satisfeitos com esta mudança e corre a teoria de que a letargia do treinador esteja a contagiar os jogadores. Também há outra teoria, em que se admite que o caminho possa ser exatamente o inverso, deles para ele, e então entramos nos domínios insondáveis da pescadinha de rabo na boca.

[Argumentei a favor da primeira hipótese, deixo um argumento para a segunda: este Benfica está novamente mais próximo do Benfica que Luís Filipe Vieira quis cortar pela raiz ao despachar o treinador da formação e ao contratar não sei quantos futebolistas por não sei quantos milhões. Talvez o problema seja mais profundo e talvez o presidente também faça parte dele.]

Seja qual for o sentido da causa e do efeito, é evidente que, além das ideias, falta nervo ao Benfica. Nos comentários após Supertaça nas TV’s de quarta-feira, houve uma maioria a criticar a “falta de atitude” dos jogadores de Jorge Jesus, tendo como termo de comparação “a garra” dos jogadores de Sérgio Conceição. Como muitos desses talking heads são ex-futebolistas, percebe-se que a determinação é tão importante quanto a tática, porque “dias maus, ao nível técnico” toda a gente pode ter os seus. Competir é inegociável e parece que o Benfica tentou trocar o esforço coletivo pelo fogacho individual.

E isso fez saltar a mola a Luisão.

Luisão e Jorge Jesus partilham uma longa história que não começou especialmente bem. Quando Rui Costa e Luís Filipe Vieira o contrataram ao Braga, em 2009, Jesus impôs uma condição: Luisão tinha de sair do Benfica.

O treinador não gostava do que ouvia nos balneários, onde os futebolistas - sobretudo, os brasileiros - comentavam o estilo do capitão e as churrascadas na casa dele, onde havia picanha e cerveja. Por um lado, J.J. sentia que tinha de afastar Luisão para ser ele o único alfa; por outro, J.J. achava que Luisão era uma má influência, com os seus chopps e encontros na Aroeira.

Rui Costa disse-lhe que não e explicou-lhe a importância de Luisão. Possivelmente, Jorge Jesus desconhecia o outro lado do central brasileiro, que tinha tanto tempo de Benfica quanto o presidente, o que fazia dele um dos protegidos, e que construíra uma reputação implacável junto dos colegas. Quem pisasse o risco, sofria os seus apertos e as suas intimidações, como Sidnei veio a descobrir da pior das formas. Além disso, Luisão não permitia que ego algum se atravessasse à sua frente e desconstruía os grupinhos, reunindo brasileiros, uruguaios, argentinos e portugueses, todos debaixo da sua enorme sombra.

Jesus percebeu a voz de comando e depois reconheceu-lhe a singular inteligência que transformou o Benfica numa equipa defensivamente irrepreensível em determinados contextos. Com o andamento das épocas, o respeito cresceu e a proximidade também, uma quase amizade que nem a ida de J.J. para Alvalade fez tremer. Ficou então implícito entre ambos que voltariam a trabalhar juntos no futuro, e a oportunidade surgiu quando Luís Filipe Vieira resgatou o treinador ao Flamengo.

J.J. fez perguntar o que era de Luisão e fez saber que o queria junto dele e não num cargo institucional, de fato e gravata; ao mesmo tempo, manifestou desconfiança em relação a Tiago Pinto, o diretor-geral para o futebol que considerava demasiado verdinho para aquele emprego. Se lhe dessem a escolher, Jesus preferia o antigo brasileiro ao jovem dirigente – e a 18 de novembro, a Roma anunciou a contratação de Tiago Pinto, abrindo-se, assim, uma vaga que será assumida até ao final da época por Rui Costa, acumulando funções.

Mas além do cargo por preencher, a saída de Tiago Pinto - acontecerá em janeiro - também deixará um lugarzinho em aberto no banco de suplentes. Como o ainda diretor testou positivo à covid-19, foi nessa cadeira que Luisão se sentou na quarta-feira à noite, em Aveiro, durante os 90 minutos. Depois, uma vez consumada a derrota e outra exibição comezinha, Luisão foi ao centro e impôs os seus 1,96m e os seus muitos quilos e a sua voz aos jogadores do Benfica, alguns deles ex-colegas. Apontou-lhes o dedo e eles mantiveram-se impassíveis e de cabeça baixa perante o peso simbólico do antigo capitão cuja fúria Rui Costa tentou suavizar sem sucesso, porque Luisão voltaria à carga.

Jesus desvalorizou este episódio na conferência de imprensa que se seguiu, mas é provável que Luisão seja uma chave para sacudir uma equipa fragmentada pelas múltiplas nacionalidades e pelos jogos de poder que a compõem. Sem uma referência histórica e com uma braçadeira que passa de mão em mão como uma estafeta – e com um treinador que insiste em recordar a toda a gente e até à náusea o que fez no Brasil – ter o xerife de volta poderá repôr alguma ordem entretanto perdida.