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Benfica

Depois da tempestade, vem o marasmo

Retomado o jogo adiado pela intempérie no dia anterior, a primeira parte até pareceu estar a encaminhar o Benfica para a bonança, mas acabaria por empatar (1-1) ao sofrer com o avanço da pressão do Santa Clara, a sua própria desorganização nas perdas de bola e a lentidão a decidir o que fazer, e como o fazer, quando teve de atacar. A equipa de Jorge Jesus fica a quatro pontos do Sporting, líder do campeonato

Diogo Pombo

EDUARDO COSTA/LUSA

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Ontem, Vertonghen parece o miúdo extasiado enquanto lhe desempacotam o brinquedo novo, de telemóvel na mão a filmar-se no abrigo contra o filme do temporal, à porta do balneário; hoje, no mesmo sítio, é todo ele sorrisos com a camisola de aquecimento seca e quente no corpo, à espera dos comparsas para entrar no campo e esquentar os músculos sem chuva.

Ontem, mascarado e encostado a uma parede por vários microfones empunhados na sua direção, Rui Cordeiro explicava as negociatas a decorrer entre clubes, árbitro e Liga para adiar o que nem devia ter começado e reagendá-lo; hoje, sem resguardo sobre a cabeça e com o mesmo casaco malhado, no discurso do presidente do Santa Clara há o “lençol freático”, os “bravos açorianos” e o “contexto da ilha” para dizer, não dizendo, um ‘se tudo correr bem, vai jogar-se o jogo’.

Sem as cataratas dos céus abertas e as ventoinhas ligadas, hoje retomou-se não cerimoniosamente o jogo, com Pizzi a caminhar para o banco de copo de café nas mãos e Pierre Sagna com a bola nas suas, a estacionar-se na linha e a aprontar-se para o lançamento lateral que, ao apito, dá corda aos 4:53 com que se reata este flash mob futebolístico.

Coreografias há poucas, embora claras, nem um par de minutos demora até a tendência de o Santa Clara montar a linha nas coordenadas por onde estiver o médio do Benfica mais recuado e perto do bloco açoriano, tendencialmente é Taarabt, pois Weigl alinha-se muito com os centrais para uma saída a três - mesmo que nem com dois sejam pressionados - e o marroquino toca pouco na bola, sem que isso emperre de sobremaneira a equipa.

Estando o alemão tão recuado, Vertonghen e Ferro (capitão e central à direita com um canhoto ao lado, contexto talvez inédito na carreira do português na equipa principal do Benfica) ousam galgar metros com a bola para, uma vez iscada a atenção de adversários, libertar num dos laterais e a equipa tentar acelerar a jogada por fora do bloco do Santa Clara.

Assim o Benfica chegava à área alheia, na maioria das vezes por Grimaldo, demasiadas vezes com o espanhol sem apoios perto, várias vezes com ele a ter de cruzar a bola cedo, mas alguma vezes com uma diagonal de Darwin a rasgar o espaço à frente do lateral por quem se canalizava a saída.

Não numa delas, porque a bola veio de um chutão, o uruguaio perseguiu-a, ganhou-a à direita e guardou-a para tocar em Waldschmidt, esperto a sair da toca no espaço alargado pela corrida do avançado, para inventar a vez em que o seu passe, a sua postura corporal e o seu gesto de corrida já tinham indicado a Rafa que ali era para tabelar e o deixar liberto na área para assistir Darwin. 0-1 e com uma tabela se ultrapassou uma linha defensiva.

Waldschmidt teve um remate na área, mais tarde, único outro esgar de perigo criado pelo Benfica que se manteve controlador de tudo, ao intervalo já se via o azul a querer esgueirar a bonança entre amontoados nebulosos e até aí o Santa Clara teve umas três chegadas à beira da área contrária, entre as suas tentativas de jogar rápido e direto nos 50 ou 60 metros livres nas costas dos centrais para os obrigar a ajustar a posição de frente para a própria baliza.

EDUARDO COSTA/LUSA

E o encasacado Pizzi retornou com outro copito de deduzível café, com a cafeína sentou-se de novo no banco e, pouco depois, as cabeças de Gilberto e Jean Patric colidiram, o choque violento retirou-os do jogo e continuamos à espera que Liga e Federação Portuguesa de Futebol comecem a testar a substituição adicional para prevenir o risco de concussão cerebral aprovado pelo IFAB a 16 de dezembro.

Depois o jogo teve um Santa Clara de plano reajustado. A perder, avançou o início da sua pressão até aos centrais e arriscou subir as linhas, incomodou o à-vontade passador de Weigl, fez com que o Benfica se precipitasse nos passes e os alongasse, obrigando a um vaivém coletivo a que Taarabt perdeu o passo e o alemão ficou com metros a mais para tapar.

Os açorianos reclamaram mais bola e apanharam-na com tempo e espaço no meio da passiva reorganização do adversário. O 1-1 caiu no entroncamento entre um cruzamento para trás do último homem do Benfica, um pontapé acrobático de Crysan e a cabeça de Fábio Cardoso, o central dos 10 golos feitos em 76 jogos pelo Santa Clara, embalado na direção do vento. Minutos volvidos, um passe de Lincoln quase deixou Carlos Júnior com a bola na cara de Vlachodimos.

Os derradeiros 20 minutos foram, numa coisa, como os anteriores: nem um pingo de água a cair, as nuvens a conterem a bexiga e finita a ser tempestade, mas o seu pós sem a calmaria proverbial. A bonança foi trocada por um lufa-lufa de esforços individuais no Benfica com pouca cola comum (a não ser uma singular aparição de Pizzi) e uma sucessão de investidas do Santa Clara a partirem de segundas bolas, as que o Benfica raramente reclamava com suas linhas espaçadas e jogadores a reagirem tarde.

Parecia uma questão de fazer tudo na correria e na pressa, uma azáfama que, se organizada e recíproca entre jogadores - um a movimentar-se assim porque o outro faz assado, um a explorar este espaço quando outro dá um certo passe - é de salutar, mas se a vontade ofensiva estiver em fogachos individuais com bola, os ataques tornam-se previsíveis.

Houve a jogada de Waldschmidt para o golo de Darwin e, coletivamente, quase mais nada com produto final na baliza. Sofrido o empate, o Benfica colou-se com uma previsibilidade de decisões com bola (dos centrais saía para as alas, dos laterais era devolvida ou posta na área) e arrojo quase nulo para ligar jogadas, combinações ou toca-e-vai. Ontem foi a tempestade, hoje foi o marasmo, para amanhã ou depois ficou a bonança.