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Uma crónica de frouxezas e afrouxamentos

O Benfica ganhou ao Tondela, por 2-0, com golos de Seferovic e de Waldschmidt, ambos a passe de Darwin. Dominou as estatísticas e controlou o jogo, mas ainda não é aquilo que dele se espera depois do investimento e da bravata inicial

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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A palavra frouxo está para o futebol como desafinado está para o canto: é mau e percebe-se porquê. Significa apatia, desânimo, enfim, frouxeza que é o contrário de intensidade e velocidade, adjetivos associados ao desporto de alta competição. Tal como um cantor não gosta de ouvir que desafina, quem anda na bola também não gosta de ouvir que é, vá, mole.

E foi o que António Simões disse de Jorge Jesus e que este rebateu, afirmando que não era o mesmo de antes, sim senhor, mas apenas porque tinha mais rugas que há dez anos. De resto, tudo igual, a mudança é na cara e não no espírito, garantiu o treinador do Benfica.

É perceptível que Jesus está a acusar o toque com as sucessivas que lhe são feitas, justamente pela sucessão de exibições comezinhas dos encarnados. Para quem prometera tanto e investira tanto, jogar bem uma parte e mal outra - e isso aconteceu, várias vezes -, é manifestamente pouco.

Assim, o Tondela era um novo teste a este Benfica, às vezes pressionante, outras aburguesado, em suma, inconstante como não convém para um candidato ao título. E não era um teste fácil: apesar da posição, dos números e da aparente simplicidade de processos, o Tondela tinha marcado três golos no Dragão esta época, no meio de um bate-boca com Sérgio Conceição.

Bom, o Benfica dominou integralmente a primeira-parte, usando a receita de sempre, sem grande criatividade posicional - e também sem grandes oportunidades. Em posse, com Weigl a descer para terceiro central, os laterais a subirem e os extremos a alinharem por dentro e vários lançamentos na linha para Grimaldo cruzar para Darwin, Seferovic ou Pizzi num segundo ressalto. Everton e Rafa cruzaram muitas vezes caminhos, com o português a apostar muito mais no um-contra-um do que o brasileiro, ainda bastante distante daquilo que dele se viu no Grémio.

E, sem bola, a tentar pressionar rapidamente para a roubar, o que nem sempre foi bem feito, pois faltam agressividade e entendimentos no meio-campo, pelo que Otamendi e Verthongen foram safando impecavelmente o esporádico atrevimento do adversário.

Mas o Benfica só arrasou ao nível da posse de bola e do controlo territorial; na prática, os encarnados chutaram três vezes à baliza, tendo um desses remates sido francamente perigoso: Darwin, à meia-volta, chutou para uma defesa vistosa de Agarra Niasse. Se os encarnados andavam, por norma, a competir melhor antes do intervalo do que depois deste, nesta ocasião teriam de alterar a narrativa, sob pena de ver fugir o Sporting, que vencera o Nacional num lamaçal. Já a equipa de Ayestarán, que gosta de defender junto e de atacar pela certa, podia complicar a vida a J.J. se conservasse a frieza e tivesse um bocadinho de sorte num daqueles contra-ataques.

Acabou por não a ter, pois o seu melhor jogador, Mário González, saiu lesionado do campo e instantes depois o Benfica marcou um golo por Seferovic, a quem já tinha sido anulado um remate certeiro antes. Pizzi construiu pelo ar, Darwin assistiu o suiço que fez o seu sétimo golo no campeonato e transportou a equipa para níveis de confiança que perduraram durante uma dezena de minutos. Nesses momentos, o Benfica acelerou, mexeu-se melhor, abriu espaços e criou lances inteligentes e ao primeiro toque que podiam ter resultado em algo que não aconteceu. Mais tarde, nos suspiros derradeiros, os encarnados chegariam ao 2-0, por Waldschmidt, noutra assistência de Darwin, mas antes Vlachodimos fez uma defesa espectacular a um remate de Murillo.

O Benfica ganhou merecidamente por 2-0, não foi frouxo, mas às vezes afrouxa.