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Vou a casa e levo o Pedrinho

Jorge Jesus nasceu, literalmente, numa casa da Amadora, a Taça de Portugal fê-lo regressar ao campo do clube da sua casa e o Benfica goleou (0-4) o Estrela sem acelerar ou ser imprevisível por aí além, mas tendo no brasileiro uma fonte de técnica e critério: fez duas assistências e foi quem mais desequilibrador em espaços curtos no jogo

Diogo Pombo

Gualter Fatia/Getty

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Jorge é caseiro e não hospitalário, nasceu em casa, teve de vir uma parteira de Algés ajudá-lo a vir ao mundo, Jorge é caseiro porque foi em casa que deu o primeiro berro de uma vida de rouquidão nas cordas vocais, os irmãos também nasceram em casa e são caseiros como ele, nado entre paredes na Amadora, lá estava a Celcat que pagava em escudos ao pai futebolista, o Virgolino soldador que ali assentou para ficar perto da fazedora de cabos elétricos.

Era sua a casa onde Jorge nasceu, Jorge é tão caseiro que na naturalidade no cartão de cidadão ter-se-ia que ler 'casa', não 'Amadora', isso são as ruas onde jogava à bola com pedras e farrapos até chegar à relva do Estrela, onde o Sporting deixou 750 escudos para o levar na versão de jogador, está tudo nesta reportagem do jornal "A Bola" entretanto até foi treinador desse grande e antes treinou o Clube de Futebol que faliu, se refundou como Clube Desportivo e agora fundiu-se para ser o Club Football, mas é o Estrela da Amadora.

Estar na III Divisão e a Taça de Portugal fazer o Estrela receber o Benfica é especial por mil e uma coisas próprias da história futebolística nacional, mais especial ficou por incluir o regresso a casa de Jorge Jesus, nesta sua mais impávida e serena versão, ele diz que mudou e qualquer pessoa é mutável, mas os berros não sumiram e ouvem-se com o vazio do estádio, às tantas vergasta Pedrinho, grita ao melhor do Benfica na primeira parte por “estar sempre no chão”.

O brasileiro cai na relva algumas vezes, quase todas por ser derrubado, rasteirado ou tocado, mas é de pé e com bola que agita coisas e desequilibra, é quem mais mexe com a organização coesa do Estrela que só sofreu golos em três dos 15 jogos feitos esta época e é um passe de Pedrinho que lança Gonçalo Ramos para o miúdo cruzar e Seferovic ver o seu golo rebatizado por uma grande defesa de Filipe Leão - o ressalto vai para Chiquinho, 0-1.

Antes, o ouvidor de boas Pedrinho tem uma bola na área que desperdiça com estrondo e Seferovic protagoniza outras duas, são oportunidades em casa da equipa que lhes é incomparável na qualidade e capacidade, mas está em casa, treinada por quem tem “a convicção de que as equipas não podem ter medo de jogar contra as outras” e o Estrela é tão matreiro quanto ousado, vertical e esperto.

Porque da sua compacidade a defender, sempre com os jogadores muito próximos, a equipa era logo capaz de circular a bola rápido assim que a roubava, prontamente a ligar triangulações simples e sobretudo pela direita - lateral e extremo com médio interior -, o lado guardado por Nuno Tavares que o Estrela identificou como o mais débil e por onde avançou para Sérgio Conceição (filho do homónimo técnico do FC Porto) e Murillo rematarem em cima da área.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O treinador da frase do medo é o da casa, Rui Santos, o da equipa que obrigou Helton Leite a ir outra vez à relva desviar o perigo de um remate rasteiro, na área, de Paollo Madeira, outro tipo a ecoar o passado mas pela ressonância do nome, falando em nomes chega-se ao de Jorge Jesus, ele em casa e o seu Benfica previsível e com velocidade assim-assim até se meter o intervalo.

Daí para a frente fez diferente, se à partida era diferenciada em tudo fez por sê-lo também no campo, já em quase tudo: passou a acelerar a troca de passes, a ser mais madrugador nos momentos de pressão e a ter mais gente a atacar espaços sem bola. E à direita o Benfica volveu, muitas vezes, atraído pelo íman de técnica e boas decisões que ia sendo o Pedrinho das pernas arqueadas, pior que ninguém em campo a esgueirar-se de problemas em espaços curtos

Com Diogo Gonçalves a galopar-lhe pelas costas a cada jogada e a provocar espaço em seu redor, o brasileiro fomentou combinações, por esse lado esse lateral foi lançado para cruzar e Seferovic marcar ao quinto remate no jogo; no sexto, Filipe Leão desviou uma bola batida forte pelo avançado, que Pedrinho resgatou já perto da linha para a picar e o peito de Chiquinho dominar antes do 0-3; depois, do brasileiro foi a receção orientada e a calma à beira da área para lançar Waldschmidt na área e o respetivo 0-4. Esta casa já não era só de um só.

Era do Estrela, que pelo meio marcaria numa bola parada e o VAR lhe anularia o feito, amarrado pelo aumento de rotação e critério até aos 15 minutos derradeiros, quando já conforto do visitante lhe deixou mais espaços para forçar muitos passes na profundidade - e continuará a ser, porque se viu e percebeu as razões para liderar a sua série do Campeonato Nacional de Seniores.

Acabou a ser, durante hora e meia, do Benfica, forçador da sua vontade e superioridade fazendo o quanto baste e conquistando a casa visitada para si, estreando ao mesmo tempo o central Todibo.

E é a casa de Jorge Jesus, a “minha terra”, disse-o no fim, agasalhado e de gola alta e bem precavido para as correntes de ar que em mil novecentos e troca o passo lhe causaram uma inflamação da pleura, o transtorno tanto que viu a mãe a chorar, está contado na tal reportagem do jornal “A Bola e estas são histórias com muita bola dentro, buscadas dentro da casa do treinador.

Jorge é caseiro e regressou à casa onde nasceu com o Benfica que ainda não se sente bem em casa nesta segunda vida com o treinador, mas goleou quem mora dois andares abaixo.

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    Benfica

    Na conferência de imprensa após a vitória (0-4) contra o Estrela da Amadora, o treinador do Benfica deu os parabéns ao clube da sua terra, elogiou a organização do adversário e, depois, criticou os jornalistas quando o questionaram sobre um alegado "puxão de orelhas" a Pedrinho durante o jogo: "essa conversa dos puxões de orelhas está muito em voga no futebol português, deixem-se desses chavões, isso não existe (...) achava que fosse mudando consoante as pessoas que escrevem, mas pelos vistos não"

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    Depois de ter descido de divisão, de ter sido extinto e de ter renascido com outro nome, aí está o novo Estrela, que quer voltar a ser o histórico da Amadora, que batia o pé aos grandes do futebol português e que conquistou uma Taça de Portugal em 1990. O ambiente do estádio José Gomes está renovado, depois da constituição da SAD liderada por André Geraldes, mas o novo Estrela quer voltar ao passado esta quinta-feira, quando receber o Farense (14h30, Canal 11), precisamente a equipa contra quem conquistou a única Taça do palmarés - troféu entretanto roubado das vitrines do clube