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Benfica

Não vale a pena esconder a cara, Seferovic. Toda a gente viu o que se passou

O Benfica empatou em casa com uma adversário que vinha de quatro derrotas seguidas. Algo vai mal na Luz. Pode ser tático, técnico, físico, estratégico, um problema de Recursos Humanos, ou tudo junto, a que se junta ainda um surto de covid-19, que atenua mas não desculpabiliza. Isto não é jogar para arrasar

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Não havendo apenas uma mas 10 condicionantes - o número de jogadores infectados, dois centrais, dois laterais titulares, dois laterais suplentes, os dois principais guarda-redes, um médio ofensivo e um extremo - esta análise pecaria sempre por excesso ou por defeito.

Se o Benfica ganhasse, os escolhidos seriam marinheiros intrépidos num mar revolto a ultrapassar a tempestade chamada covid-19; se o Benfica não ganhasse, os escolhidos seriam simples marujos desajeitados num mar plácido impotentes para superar os ilhéus do Nacional.

Como ficou empatado e o Benfica jogou o suficiente para ganhar ao Nacional, fico sem saber bem o que dizer disto. Por um lado, os encarnados remataram mais (11 contra 7) e remataram mais à baliza (3-2), tiveram mais bola (63% - 37%), mais passes (543 - 324) e mais cantos (7-3). Por outro lado, foi precisamente num canto que Róchez fez o empate no segundo minuto da segunda-parte, provavelmente na única oportunidade que o Nacional criou - teve mérito, pois foi uma jogada estudada, uma das marcas desta formação insular.

A verdade do Benfica - Nacional anda ali no meio, entre a atrofia encarnada e a eficácia dos madeirenses.

Os golos

Na primeira-parte, sobretudo nos quinze, vinte minutos iniciais, a equipa de Jorge Jesus jogou de forma competente e dinâmica, apesar de todas as contrariedades. Logo no arranque, Chiquinho marcou um golo numa bonita jogada de João Ferreira que o VAR anularia por fora-de-jogo de 19 centímetros do jovem defesa; dois minutos depois, Chiquinho cabeceou após um cruzamento de Pizzi.

Confortável e aparentemente segura de si, a equipa da Luz partiu então para alguns momentos de boa construção, com razoável intensidade, cercando a defesa do Nacional que manteve o discernimento suficiente para não ceder à pressão. Todavia, todas as boas intenções de Cervi, Chiquinho e de Pizzi acabariam por falecer nos pés de Darwin e de Seferovic durante esta fase que, percebeu-se, seria passageira .

[Um parêntesis. Os dois avançados passam por uma crise existencial absurda, quase cómica, tantas são as más decisões tomadas e os falhanços ao longo do jogo: o uruguaio procurou o sentido da vida entre a linha e a profundidade e, entre picardias com Pedrão, acabou substituído; o suíço não conseguiu encostar para o 2-1 aos 87 minutos numa jogada notável de Taarabt, que entraria na segunda-parte.]

Retomando a timeline: o Benfica foi perdendo fulgor, paciência, e permitiu um remate quase frontal a Gorré (32’) que foi à figura de Miles Svilar cuja resposta imediata foi pedir calma à equipa. Calma, pois, porque mesmo desfalcada a equipa de Jorge Jesus tinha atletas com ginga para bater um clube que trazia quatro derrotas seguidas na bagagem.

Um desses atletas é o intermitente Rafa que, logo a seguir ao aviso de Gorré, disparou para a baliza de Daniel Guimarães para espevitar os ânimos dos colegas que estavam a entrar naquele rame-rame sonâmbulo que prenuncia o fracasso. Portanto, até chegar o intervalo, o Benfica manteve-se por cima, a controlar as operações, ainda que sem causar problemas a exigir cortes dramáticos e defesas espectaculares ao adversário. Estava assim, q.b., e q.b. poderia chegar para somar três pontos em circunstâncias complicadas.

A apatia

Só que na segunda-parte aconteceu aquele golo que Jorge Jesus atribuiu à inexperiência: João Ferreira deixou-se antecipar pela entrada de Róchez nas suas costas, que lhe chamou um bombom.

A seguir, o Benfica não foi novamente capaz de reagir. Tinha tempo para isso - aliás, metade de um jogo para isso -, mas nada feito. Uma vez mais, a equipa ficou sem ideias, estática, imóvel, abúlica, adjetivos usados em demasiadas ocasiões por diferentes analistas para ser uma mera coincidência

Jorge Jesus ainda tentou mexer com as sensibilidades e com o ritmo, trocando Darwin por Gonçalo, Rafa por Pedrinho e enfim Chiquinho por Taarabt, mas só este último trouxe para a mesa algo de diferente. Numa jogada vertical, das poucas que se viram na Luz, o marroquino deixou para trás um rival e ofereceu um golo a Seferovic que desmanchou atabalhoadamente o embrulho e perdeu-se assim o 2-1 a três minutos do fim.

Depois, nem quando a tradição manda cruzar lá para dentro, para uma confusão de corpos que se acotovelam à procura de um ressalto redentor, o Benfica foi eficaz. Quando Rui Costa apitou, os jogadores baixaram a cabeça e os braços, meteram as mãos nos joelhos e seguiram vazios.

Algo vai mal na Luz. Pode ser tático, técnico, físico, estratégico, um problema de Recursos Humanos, ou tudo junto, a que se junta ainda um surto de covid-19. Mas isto não é jogar para arrasar.