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O Fama e a glória esperam por vós a seguir à tempestade, disse Jesus

Diante do Famalicão, os encarnados marcaram cedo, muito cedo, e não sofreram golos, somaram três pontos e chegaram ao triunfo. No final, Jorge Jesus, que regressou ao banco duas semanas depois, garantiu que a tempestade covid-19 pode já ter passado; mas também é provável que o Benfica tenha perdido o barco

Pedro Candeias

Nico Otamendi e Darwin Ñunez, autores dos dois golos do Benfica, ambos marcados antes do minuto dez

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Noutra noite qualquer, sair ao intervalo a ganhar por 2-0, com os golos marcados antes dos primeiros dez minutos, com o dobro da posse de bola e o quádruplo dos remates à baliza, tudo isto junto seria classificado com um sólido Bom + e a seguinte anotação: a equipa teve controlo territorial e uma eficácia considerável.

Numa noite como esta, este resultado parcial sustentado pelos números atrás descritos, mesmo diante de um adversário frágil, é considerado Excelente, porque o Benfica não vive os seus melhores dias. Dispenso-me recordar os factos subjacentes a este status quo: toda a gente sabe quais são, têm a ver com o dinheiro investido e os consequentes resultados esperados versus a realidade de uma distância histórica para o líder no final da primeira volta.

Bom, mas comecemos então a escrever sobre Benfica - Famalicão, a equipa agora treinada por Silas, outro ex-pupilo de Jorge Jesus que regressou ao banco dos encarnados, após a covid-19.

Sem fama

O treinador da Luz deixou Pizzi de fora e apostou no mais clássico e puro dos 4x4x2, com um médio de contenção (Weigl) e outro de transição (Taarabt), dois extremos (Everton e o renascido Cervi), dois pontas de lança (Darwin e Seferovic) – e nenhum futebolista português, pelo que podem engavetar de vez o paradigma da formação.

Já Silas apostou num 5x2x2x1, com três centrais e dois laterais subidos, e a coisa correu-lhe francamente mal logo no início.

Ao terceiro minuto, Taarabt tabelou com Everton que driblou três adversários e cruzou para Darwin para o 1-0. Antes de celebrar, o uruguaio olhou para o fiscal de linha, incrédulo por ter quebrado o enguiço do fora-de-jogo à não-sei-quantésima vez; depois, sorriu enfim e fez um L com o polegar e o indicador, como um simples ângulo recto, embora tudo nele seja bastante complexo, um ângulo obtuso.

É como um piloto no modo visão de túnel, completamente alheado do que o rodeia e com apenas um objetivo: marcar golos. No caso dele são poucos, é verdade, e ele próprio estará a ainda pensar como falhou aquele encosto aos 82’. Mas o rapaz compensa com outras estatísticas - as muitas assistências - que o seguram no lugar apesar de somar más decisões dentro de campo como Nicolas Cage na sua carreira: por cada bom desempenho, um overacting medonho num filme não menos pavoroso. Vale a Darwin que o supporting cast dá pelo nome de Seferovic.

Mas já perdemos demasiado tempo com Darwin e corremos o sério risco de não ver o segundo golo, nascido de um remate poderoso de Taarabt que Luiz Júnior defendeu para o lado onde estava Otamendi que chutou, pleno de convicção, para o 2-0, dentro da área. Se acham estranha esta sequências de acontecimentos - o que estaria Otamendi a fazer ali - é porque o lance começou num livre indireto; segundo Hélder Conduto, da BTV, foi a primeira vez que o SLB marcou assim na presente época. Também foi o primeiro golo de Otamendi pelo Benfica.

Num ápice, o Benfica adiantou-se e o Famalicão pareceu indefeso perante o volume ofensivo da formação da casa. Jesus punha os extremos perto dos avançados centro e todos eles junto dos cinco defesas, e ainda lhes acrescentava os laterais lá à frente; encostando os famalicenses lá atrás e, mesmo assim, mantendo superioridade numérica no meio-campo, era mais provável acontecer o 3-0 do que os minhotos assustarem Vlachodimos.

Portanto, Silas mexeu.

Tirou Herrera e pôs Alexandre Guedes, a defesa passou a estar a quatro, reajustou-se o meio e o ataque, e o Famalicão melhorou quase instantaneamente, com o talentoso Gil Dias a assumir o protagonismo: aos 25’, um remate ao poste, um sinal de vida; por sinal, o único sinal de vida.

Desse momento em diante, a contenda equilibrou-se um bocadinho, embora tenham pertencido ao Benfica as melhores chances de criar perigo, uma delas flagrante, por Weigl, que sozinho não fez o que Otamendi fizera no arranque do jogo. Ao nível dos destaques individuais, e antes de passarmos à segunda-parte, destaque para Otamendi (estreia a marcar), Taarabt, menos errático do que em ocasiões anteriores, e para Cervi, que colecionou faltas sofridas em função da intensidade que deu ao seu jogo.

Com fama

Depois do intervalo, sucedeu o que tem normalmente sucedido esta época ao Benfica, com a óbvia vantagem de não ter sofrido um golo. Quer isto dizer que a equipa se tornou mais macia e permissiva, libertando o adversário de amarras imaginárias, insuflando-lhe a confiança que se traduziu em, pelo menos, nove remates à baliza de Vlachodimos; os encarnados, no mesmo período, fizeram cinco, terminando os 90’ com 13.

Não aconteceu de imediato, foi aos poucos, sobretudo a partir dos 60 minutos e novamente com Gil Dias em destaque num remate defendido por Vlachodimos (63’); instantes depois, o jovem mas rodado futebolista português ensaiou outro disparo, que saiu ao lado, e Ugarte (71’) encerrou uma sequência de três lances perigosos sem resposta do Benfica.

Daí até ao final, e com as mudanças efetuadas por Silas, o Famalicão continuou a procurar o merecido golo que não surgiu, por manifesto desacerto ou alguma ansiedade. E estávamos nisto, com os minhotos por cima do jogo e os lisboetas cansados e desconfiados - Jesus atribuiria isto à covid-19, numa flash interview épica, com referências epidemiológicas - quando Darwin foi servido numa bandeja de prata por Seferovic e escangalhou o serviço de louça mais requintado dos pontas de lança. O uruguaio falhou um encosto que poderia ter encerrado o encontro, dando, aos 82’, um último fôlego ao Famalicão: Anderson Oliveira rematou à figura de Vlachodimos e, sobretudo, Lukovic obrigou o grego a uma defesa, digamos, de categoria aos 89’. Quatro minutos depois, o Benfica regressou cinco jogos depois aos triunfos na Liga.

A tal tempestade até pode já ter passado, mas também é possível que o Benfica tenha perdido o barco.