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O fim da tempestade no Benfica foi epidemiologicamente exagerado

Portanto, OK, o surto da covid-19 foi ruim, mas além da pandemia há o pandemónio em que os encarnados se encontram há meses - uma confusão que os triunfos com o Famalicão e com o Estoril disfarçara e que o empate de hoje com o Moreirense destapou novamente. À 19.ª jornada, o Benfica soma a pior pontuação desde 2008-09, época que precedeu a primeira vida de Jesus na Luz

Pedro Candeias

Octavio Passos

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À épica flash interview a seguir ao triunfo com o Famalicão, Jorge Jesus juntou-lhe mais duas intervenções daquelas em que falou de futebol e de tudo o que anda à sua volta, explicando o como, quando e porquê e o depois da covid-19 como que a dizer que estava de volta - e atirando que se o tinham achado demasiado passivo em determinadas circunstâncias, amigos, “vocês sabem lá o que é sofrer”.

Obviamente, não se discutem aqui as sequelas pesadas da covid-19, que o deixou a ele e a muitos jogadores fora do Seixal durante dias e dias com consequências desportivas naturais. Mas, por outro lado, convém relembrar que antes de a tempestade se começar a formar no horizonte, já o Benfica perdera com o PAOK (apuramento falhado da Champions), Boavista, Braga e FC Porto (Supertaça), e empatara com o Santa Clara.

Portanto, OK, a covid-19 foi ruim, mas além da pandemia há o pandemónio em que os encarnados se encontram há meses - uma confusão que os triunfos com o Famalicão e com o Estoril (Taça de Portugal) disfarçara e que o empate de hoje com o Moreirense destapou novamente.

Na especialidade, o jogo foi diferente nos detalhes - os encarnados criaram oportunidades suficientes para ganhar com alguns pormenores coletivos interessantes e momentos realmente intensos.

Na generalidade, foi semelhante aos outros - o Benfica voltou a começar melhor que o adversário, marcou, deixou-se empatar num erro individual, tremeu, descontrolou-se e partiu-se. Se é justo reconhecer que podia ter feito o segundo também o é dizer que o Moreirense teve as suas chances na segunda-parte.

A nuance

O Benfica entrou em Moreira de Cónegos com uma nuance individual: Helton Leite foi pela primeira vez titular na baliza. Como Vlachodimos fora titular com o Famalicão e de então para cá nada de significativo foi comunicado a propósito da condição do jogador (ao contrário de Gilberto, sobre o qual fomos informados ter acusado fadiga muscular), podemos inferir que Jorge Jesus pode estar inclinado a trocar de guarda-redes; no início da época, aliás, o técnico pedira um guardião por considerar Vlachodimos excelente entre os postes, mas pouco assertivo em cruzamentos.

De resto, o onze do Benfica era normal e modelo também era o normal, com Weigl a descer um pouco, os laterais a subirem e a abrirem na linha, os extremos por dentro a procurarem movimentos de ruptura, os pontas de lança em jogo posicional, descaindo ou tabelando.

Enfim, o jogo do costume que, executado em velocidade e com as costas devidamente protegidas, é um cabo dos trabalhos para qualquer adversário.

Ora, isto resultou especialmente bem durante grande parte da primeira-parte: ao minuto 5, Darwin rematou para defesa de Positano; aos 21’ Rafa falhou espetacularmente após um bom passe vertical de Otamendi; aos 25’, Taarabt ultrapassou Fábio Pacheco com um trinado de anca, fez um passe profundo para Seferovic que chutou na passada para o 1-0; e aos 29’. Darwin disparou em arco e a bola não saiu assim tão distante do poste à esquerda do guarda-redes do Moreirense.

Aparentemente, o Benfica à Jorge Jesus estava de volta, com algumas tabelas à entrada da área - e sobretudo a explosão e as fintas curtas de Rafa - a provocarem desequilíbrios na estrutura super-defensiva a cinco de Vasco Seabra.

Só que, aos 40’, quase do nada, Walterson chegou à linha de fundo da baliza de Helton e fez um cueca maldosa a Grimaldo que correspondeu com uma falta disparatada: penálti escusado que Yan Matheus converteu. Dali até final da primeira-pare, somaram-se dois remates inconsequentes de Taarabt.

O desequilíbrio
Regressado do intervalo, o Benfica quis despachar rapidamente o expediente, por Rafa e a seguir num slalom alpino de Diogo Gonçalves, cuja assistência para Everton foi bem cortada por Ferraresi para canto; segundos depois, o extremo transformado em lateral rematou e Pasinato defendeu; e minutos depois, o mesmo defesa adaptado chutou contra Abdoulaye.

Nesta sequência, nada fazia crer, portanto, que ao Benfica faltaria o arsenal adequado para se chegar à frente do marcador novamente.

Mas, uma vez mais, algo se passou: na sequência de um penálti revertido pelo VAR por suposta falta sobre Weigl, o alemão viu um cartão amarelo e foi substituído por Pizzi. É possível que Jorge Jesus tenha imaginado duas coisas: primeiro, evitar uma expulsão, pois o alemão teria de travar mais duelos individuais à medida que o jogo avançasse; segundo, tornar o Benfica mais ofensivo.

Sucede que pôr Taarabt na posição seis é como pôr Hugh Hefner a dirigir um canal religioso presbiteriano: em determinado momento, é inevitável que algo inesperado possa acontecer, e a culpa não é sua, é apenas da natureza das coisas.

No Benfica, esta metáfora resultou num descontrolo pornográfico da equipa no momento da transição defensiva, permitindo finalmente ao Moreirense encontrar soluções que não o acaso para chegar à baliza de Helton; neste particular, Grimaldo também deu uma ajuda voluntária, nomeadamente aos 74’, quando entregou um golo cantado a Rosic.

Jorge Jesus, no afã de procurar novos esquemas, também retirou os extremos Everton e Rafa, colocando Pedrinho e Waldschmidt nos seus respectivos lugares, tendo o alemão reencontrado a cabeça de Darwin num lance superiormente defendido por Pasinato.

Julgo ter sido esta a melhor chance do Benfica poder sair do norte com mais do que um ponto, tenho a certeza de que esta foi a primeira vez que o Moreirense não perdeu em casa contra os encarnados - e o estimável Zerozero.pt não me deixa mentir ao escrever isto: à 19.ª jornada, o clube lisboeta soma pior pontuação desde 2008-09, a época que precedeu a primeira vida de Jesus na Luz.