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Isto já é outra coisa? Já parece, pelo menos, qualquer coisa diferente

O Benfica está na final da Taça de Portugal após bater o Estoril por 2-0, numa exibição a espaços vistosa dos encarnados, com grande volume ofensivo, inúmeros lances de perigo, mas já com uma endémica dificuldade em concretizar

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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Não duvido que o período ali algures entre o final de dezembro e meados de fevereiro tenha sido difícil para o Benfica. Vinte e muitos casos são de facto muitos casos de covid-19, recuperar rapidamente não é um dado adquirido, até para jogadores de alta competição, e estar sem equipa técnica durante dias e dias também nunca ajudou ninguém na história do futebol.

Mas também convém não esquecer aquele 3-0 no Bessa. Convém não esquecer as pálidas exibições na Liga Europa e dentro de portas, tudo bastante pré-surto. Convém não varrer para um canto qualquer que houve investimento forte que não está a ter o retorno que se esperava e que não é por se bater muito em mesas e falar muito alto e mandar para o ar umas ameaças veladas sem direito a contraditório que a realidade muda.

A desculpa da covid-19 dá jeito, mas os problemas do Benfica não têm três meses.

Posto isto, chegamos a março, a sombra da covid-19 no balneário do Benfica parece já longe e os encarnados parecem, de facto, nas últimas semanas, uma equipa mais capaz. Não direi outro Benfica, porque esta equipa tem matéria prima para outras andanças, mas pelo menos um Benfica com mais peito, mais à imagem daquilo que Jesus nos habituou.

Frente ao Estoril, numa eliminatória quase resolvida, um jogo praticamente sem pressão, já com o Jamor à vista, Jesus tinha uma extraordinária oportunidade para fazer construir um qualquer capital de confiança que a sua equipa bem precisa. E isso foi, a espaços, conseguido: o Benfica entrou bem, intenso, pressionante, baixou um pouco o ritmo algures após os primeiros 20 minutos, para na 2.ª parte voltar a carregar, com constantes aproximações à área da equipa da 2.ª Liga, com lances de perigo uns atrás dos outros, com Chiquinho e Pedrinho a mostrarem-se ao treinador, a darem qualidade ao jogo entrelinhas.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Problema: olhamos para o marcador e o Benfica venceu por 2-0. E venceu por 2-0 com um golo de Gonçalo Ramos já perto do intervalo, que nasceu de um erro clamoroso da defesa do Estoril e outro a segundos dos 90’, em contra-ataque, num 5 para 2 após mais um erro do adversário, que Waldschmidt aproveitou.

O volume ofensivo do Benfica, frente a um Estoril que entrou em campo sem alguns dos melhores jogadores, talvez com a cabeça mais na subida do que numa improvável recuperação, foi volume de goleada, mas o Benfica tem um problema de eficácia e finalização.

Talvez esse problema possa vir a ser diluído à medida que o volume de jogos esmorece. Mas agora será tarde para os maiores objetivos dos encarnados. Resta a final a Taça, pelo segundo ano consecutivo, agora frente ao SC Braga e talvez a ideia que daqui para a frente este Benfica poderá ser outro Benfica. Ainda não é outra coisa, e por outra coisa leia-se uma equipa “a arrasar” e a “jogar o triplo”, longe disso, muito longe disso, mas já parece pelo menos algo diferente, menos arrastado, mais intenso, com mais pulmão.