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O Benfica tem 45 problemas mas o Boavista não é um deles

Esta semana, o Benfica apresentou 45 argumentos para justificar o atraso na Liga: à covid-19 e os árbitros (anteriormente enunciados), juntam-se entre outros a derrota do Sporting com o Lask, as poucas férias dos jogadores, o sucesso do Santos na Libertadores e a não-suspensão de Palhinha; há igualmente uma referência ao filho de Sérgio Conceição. Obviamente, o Boavista não consta nessa lista: no jogo desta noite, os axadrezados foram traídos pela expulsão de Chidozie e remeteram-se à defesa, sem oportunidades de atacar a baliza de Helton. Os golos do encontro foram de Seferovic, ambos a passe de Diogo Gonçalves

Pedro Candeias

Este é Seferovic a lamentar um falhanço. Terminaria o jogo com dois golos e tem agora 12 na Liga

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Foi esta semana ̶p̶r̶o̶p̶a̶g̶a̶n̶d̶a̶ notícia um trabalho exemplar de investigação no jornal “O Benfica” em que se especificaram todas as razões para o atraso do clube na Liga. Do ponto de vista de quem a escreveu, do ponto de vista de quem a editou e do ponto de vista de quem a publicou, há então 45 motivos que parecem ilibar a instituição Sport Lisboa e Benfica e os seus responsáveis de praticamente tudo e de um par de botas: à covid-19 e os árbitros (anteriormente enunciados), juntam-se entre outros a derrota do Sporting com o Lask, as poucas férias dos jogadores, o sucesso do Santos na Libertadores e a não-suspensão de Palhinha; há igualmente uma referência ao filho de Sérgio Conceição.

Há aqui duas grelhas de análise, a primeira relacionada com a extensão do argumentário, porque sugere uma conspiração global e arbitrária contra o Benfica; a segunda prende-se com o timing deste spin, porque os encarnados andavam a dar sinais de retoma competitiva, o que se passara é passado e provavelmente seria mais interessante olhar para os próximos adversários.

Desde logo, o Boavista, que tinha derrotado sem mácula o Benfica há quatro meses, a que se seguiu, na altura, um segundo desaire com o SC Braga. De lá para cá, muitas coisas mudaram: nos lisboetas, que foram perdendo gás e trocando peças pelo caminho; e nos portuenses, que prosseguiram a sua via sacra e mudando para Jesualdo Ferreira, velha raposa que há tempos fez uma gracinha no Dragão. Como? Defendendo muito, com cinco homens e em bloco baixo, partindo em contra-ataque, apostando em Elis.

Suspeito que para este final de tarde a estratégia era praticamente a mesma, não fosse a expulsão de Chidozie logo no arranque ter condicionado o professor - e, por arrasto, todo o jogo. Porque como faltavam ainda 85 minutos, o Benfica não precisava de entrar em ansiedades desnecessárias para encontrar o golo; a lei do mais forte acabaria por prevalecer, apesar das dificuldades evidentes de Seferovic em marcar em lances de ponta-de-lança de elite. Sim, o suíço fê-lo por duas vezes e até viu outro ser-lhe anulado por fora-de-jogo, mas perdeu algumas oportunidades durante o jogo. Não deixa de ser paradoxal que Seferovic tenha 16 golos esta temporada, 12 deles na Liga, na qual é o segundo goleador; por outro lado, este foi o seu segundo bis consecutivo, algo que jamais lhe acontecera na vida.

E antes de deixarmos o números para trás, deixo-lhe este: no final da primeira-parte, o Boavista tinha um remate e o Benfica, onze, um deles de Seferovic após um slalom bastante elegante de Diogo Gonçalves que cruzou para o encosto do 14 ao minuto 42 - o suíço ainda chutou a bola com raiva lá para dentro, trincando a língua, evidentemente frustrado pela sua exibição até então.

Para trás, ficou o domínio natural dos encarnados, que procuraram em cruzamentos de Grimaldo ou de Diogo Gonçalves, e movimentos e remates de Waldschmidt (um jogo entretido) e de Taarabt, materializar em golos a superioridade numérica em campo.

A segunda-parte começou com uma insistência de Waldschmidt e duas arrancadas de Diogo Gonçalves, tendo a segunda resultado num cruzamento para a cabeça do suíço que, enfim, acertou no momento do salto e no movimento da cabeça. Com o 2-0 garantido - e perante um adversário fragilizado pela classificação e pela expulsão -, Jorge Jesus procedeu às primeiras substituições, tendo em conta que na semana seguinte se joga o assalto à vaga da Champions, diante do Braga. Saíram Taarabt e Waldschmidt, entraram Pizzi e Darwin, e a seguir Weigl trocou com Gabriel, e a formação de Jorge Jesus manteve a mesma ideia: em caso de dúvida, pôr a bola em Diogo Gonçalves para massacrar Mangas, o lateral contrário, que acabaria o encontro desgastado.

Com os minutos a passarem e a precariedade do Boavista a aumentar, os encarnados como que afrouxaram, como admitira Jorge Jesus na flash interview. Porém, ainda houve momentos para se perceber que Lucas Veríssimo é um tipo diferenciado a defender e a atacar pelos ares: foi dele o cabeceamento ao poste que resultou, depois, no golo anulado a Seferovic, por fora de jogo; e também foi dele outro tiro de cabeça para defesa do elástico e concentrado Léo Jardim.

Bom, e agora? Agora, durante 24 horas, o Benfica está coladinho ao FC Porto (os mesmos 48 pontos) que joga no domingo com o competente Paços de Ferreira.