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Hermes criou o fogo, a corrida e o boxe - e também o primeiro penálti para o Benfica

O Benfica - Marítimo acabou com um único golo, marcado por Luca Waldschmidt, na conversão de uma grande penalidade na primeira-parte, num final de tarde de desconfinamento em que Seferovic não saiu do plano das boas intenções. Foi o quinto triunfo consecutivo, desta vez diante de um adversário que leva uma vitoria nos últimos 11 jogos, que vai no seu terceiro treinador esta época e que está rés-vés Campo de Ourique na II Liga.

Pedro Candeias

Gualter Fatia

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Consta que Hermes tem asinhas nos pés, que é responsável por guiar os mortos para o submundo, que inventou o fogo, a corrida, o boxe e a lira, que serve de carteiro para recados dos deuses - e que ele, também um deus grego, filho de Zeus e de uma ninfa, é até um dos mais populares, capaz de cruzar mundos terrenos e divinos com assinalável agilidade.

Com esta agenda bastante preenchida, que respeitosamente espreitámos para este arranque mitológico, Hermes ainda arranjou um tempinho na agenda para criar um penálti no Benfica - Marítimo. Como foi o primeiro para o clube da Luz na Liga 2020-21, foi histórico e merece a seguinte descrição: no minuto 20, Rafa recolhe a bola com o pé direito na grande área dos madeirenses e Hermes atinge a sola do extremo benfiquista no preciso instante em que a chuteira deste contacta com a mais-que-tudo. Foi uma falta inquestionável que Luca Waldschdmidt converteu num remate indefensável e o jogo ficou 1-0 até final.

Até então, o Benfica - Marítimo não fora particularmente bem jogado; na verdade, depois disto, o resto da primeira-parte não seria muito melhor, se exceptuarmos a jogada de Seferovic com Rafa (que o suíço desperdiçou, logo a seguir ao penálti) e a corrida de Waldschmit (que Amir travou, aos 34’).

Ou seja: o Benfica teve e circulou a bola, mas sem velocidade e com um fraquíssimo ataque posicional perante um adversário que se defendeu bem, com cinco jogadores, mas inofensivo no ataque.

Aliás, o primeiro lance perigoso do Marítimo nasceu aos 40’ num livre batido por Hermes, com Zainadine a procurar um encosto de Andreas Karo que desperdiçou a oportunidade com a coxa. A estratégia de Júlio Velázquez passaria muito por isto: obrigar o Benfica a jogar por fora e transformar cada livre numa chance para incomodar Helton.

Por outro lado: a rever, neste instante, a atitude de Taarabt que nem um pulinho esboçou para tentar impedir o central moçambicano.

Mas, bom, não se pede trabalho braçal a quem colhe flores - no plano ofensivo, Taarabt até foi dos mais entretidos entre os encarnados, com os seus bonitos pormenores e o esbracejar a pedir desmarcações que pouco ou raramente aconteciam. Ele e Rafa pareciam os únicos realmente interessados em resgatar a exibição comatosa dos encarnados.

Contabilizando ocasiões, o Benfica somou algumas que justificavam uma vantagem mais confortável. Mas era o que havia, e Jorge Jesus não estava a gostar nem um bocadinho do que via: os gritos e os berros e as chamadas de atenção constantes eram avisos estridentes lá para dentro.

Alguma coisa teria de mudar.

E mudou, sem bem que não no reinício, porque o reinício prometeu: Waldschmidt cabeceou para um corte de Andreas e Seferovic foi igualmente travado pelo poderoso defesa quando lançado em profundidade; instantes depois, aconteceu o falhanço espetacular de Nicolas Otamendi, após um livre estudado, e logo a seguir vieram os 60 segundos mais incríveis do Benfica - Marítimo, pontuados por uma defesa de Helton a remate à queima-roupa de Winck - e por uma estirada de hóquei em patins de Emir a (mais uma) tentativa falhada de Seferovic que estava num daqueles dias. E um “daqueles dias” significa que o rácio oportunidades criadas por outros / falhadas pelo suíço seria implacável para a reputação do 14.

Então, saiu o cronicamente deprimido Everton para entrar Cervi, o argentino cuja ética para o trabalho seria estudada por Max Weber, pois é irrepreensível e inesgotável, e por vezes é apenas de trabalhar que uma equipa precisa. Visivelmente desequilibrada - as combinações Rafa - Waldschdmit - Diogo Gonçalves eram superiores às de Grimaldo - Everton - Seferovic - Jesus procurou dar velocidade e verticalidade à esquerda. Não sucedeu uma coisa nem outra; pelo contrário, as alterações de Júlio Velázquez (Irmer e Tagueu saíram; entraram Pelágio e Correa) funcionaram melhor do que as de Jesus, e o Marítimo passou a ter um pouco mais de bola e de critério, algo que o treinador dos encarnados atribuiria à intranquilidade dos seus jogadores.

Com o encontro a modos que perigoso para os seus objetivos, o amadorense trocou Seferovic por Darwin, Taarabt (saiu a coxear) por Vertonghen e Waldschmidt por Chiquinho, por razões diferentes: o primeiro, já se explicou atrás porquê; o segundo e o terceiro para tentar trancar as portas da baliza de Helton e dar frescura ao ataque.

Resultou mais ou menos: Correa podia ter empatado já nos descontos, mas saiu ao lado, e Chiquinho poderia ter avolumado o resultado numa boa jogada de Rafa, mas não conseguiu vergar Amir. Foram os suspiros finais do jogo: Luís Godinho apitou pela última vez e o Benfica ganhou pela quinta vez consecutiva na Liga. Fê-lo diante de um adversário que leva um triunfo nos últimos 11 jogos, que vai no seu terceiro treinador esta época e que está rés-vés Campo de Ourique na II Liga.