Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Benfica. Seferovic está ilibado de todas as acusações de fuga ao golo - fez dois, ofereceu outros dois, leva 16 e é o goleador da Liga

As circunstâncias estavam mesmo a pedir um título assim e o suíço ofereceu-o com uma exibição extraordinária diante do Paços de Ferreira, derrotado por 5-0 pelo Benfica. Para o resultado robusto, contribuiu a expulsão de Eustáquio que deixou marcas às quais Seferovic chamou de pistas - e depois, figos

Pedro Candeias

Ora então tomem lá disto, parece dizer Seferovic

Quality Sport Images

Partilhar

Então, disse Pepa ao árbitro:
- Estás a estragar o jogo para quê, pá?
É uma boa pergunta, embora o melhor teria sido fazê-la a Eustáquio cujo pisão a Weigl escorregou da canela até ao pé, levou o VAR a intervir e a Hugo Miguel trocar um cartão amarelo pelo vermelho.

O médio do Paços de Ferreira foi expulso pela primeira ver na carreira e na verdade estragou o jogo para o seu treinador que, até então, estava a tentar condicionar a progressão do Benfica com o método dos audazes: pressão alta, roubos de bola em lugares adiantados, jogo apoiado; sem medo, em qualquer lugar e em quaisquer circunstâncias.

A não ser na circunstância de ficar a jogar com menos um futebolista diante de um adversário que lhe entra em casa cinco triunfos seguidos e 590 minutos sem sofrer golos.

Tudo ficou mais fácil para o Benfica após o disparate de Eustáquio? Sim, mas também é justo reconhecer que, antes desse momento, se percebeu que o ciclotímico Seferovic tinha os cristais alinhados para cabo dos trabalhos do desalinhado Marcelo e que em noites assim, tudo parece possível para o suíço. Até marcar dois golos extraordinários e completamente diferentes entre si, e ainda assistir colegas para outros dois (mas já lá vamos).

Recuperando a ideia anterior, é claro que o jogo mudou, ajeitando-se mesmo de feição a Jorge Jesus, pois o orgulhoso Paços de Ferreira não desistiu de jogar com as suas ideias, mesmo diminuído, e o Benfica em transição aproveitou para acelerar para um triunfo fácil que contrariou todos os prognósticos.

Todos os que não preveem uma expulsão aos 22, obviamente.

Seguiram-se três jogadas perigosas: numa, Waldschmidt rematou para uma defesa de Jordi; noutra, Rafa chutou para outra defesa de Jordi; e depois aconteceu o golo de Diogo Gonçalves, na sequência de uma recuperação de bola perdida por Luiz Carlos, que preferiu jogar apoiado numa fase precoce de construção.

Feito o 1-0, o Benfica libertou-se definitivamente com Seferovic e Rafa e Waldschmidt a quebrarem os adversários com constantes movimentos verticais. O 2-0 parecia uma inevitabilidade que foi adiada, à primeira, quando Seferovic serviu o Waldschmidt que, com a baliza escancarada, rematou para outra defesa de Jordi - o brasileiro transformar-se-ia, com o tempo, num dos melhores em campo; à segunda, Seferovic fez um passe preciso, rasteiro e em profundidade, para a correria de Rafa, que ultrapassou o guarda-redes e marcou. Minutos depois, Seferovic faria o 3-0, picando subtilmente a bola sobre Jordi, servido por Taarabt que antes bailou diante de um pacense.

Ao intervalo, estava achado o desfecho. Faltava saber por quantos.

Resumindo a segunda-parte: ficou 5-0, mas o Benfica poderia ter saído da capital do móvel com um T6+1 completamente mobilado e de chave na mão, não fosse Jordi ter fechado a porta um par de vezes. Num remate cruzado de Everton (substituiu Rafa Silva), lá estava Jordi, tal como esteve no livre de Grimaldo: em ambas as ocasiões, intransponível.


E o Benfica continuou a carregar ao som dos berros de Jorge Jesus, com acelerações e movimentos de rotura que foram deixando marcas no chão a que Seferovic chamou de pistas. E depois, figos. O suíço fez o 4-0, numa rotação vistosa a passe de Everton, e deu o 5-0 a Darwin, na sequência de uma receção de peito orientada - o uruguaio chorou e foi paternalmente confortado pelo helvético.

Não havia nada que o Paços pudesse fazer. E não havendo exibições perfeitas, a de Seferovic em Paços de Ferreira não estará longe disso, pelo que o o avançado terá dobrado o seu tipping point e entrado provavelmente naquilo a que os atletas de alta competição definem como "zona": um estado de espírito marcado pela autoconfiança, em que tudo parece sair bem.

Pela segunda vez consecutiva na sua vida no Benfica, foi visto como dispensável e uma escolha apenas razoável, longe dos méritos de quem foi contratado por 20 milhões de euros (RDT) e 24 milhões de euros (Darwin). E agora Haris Seferovic é o melhor marcador da Liga, com 16 golos em 23 jogos, 16 deles a titular.