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Benfica: para quê fazer o que seria natural?

Perante uma linha defensiva calamitosa do Spartak de Rui Vitória, a abrir autoestradas entre centrais e laterais, o Benfica foi sempre crescendo no jogo e levou de Moscovo uma vitória rechonchuda (0-2) para o segundo encontro da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Jesus não fez o que disse que seria natural fazer, Rafa e Gilberto marcaram e João Mário ordenou todas as posses de bola com o seu critério

Diogo Pombo

MAXIM SHIPENKOV/LUSA

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A espécie humana é barra a atirar-se para fora do que lhe é natural, por mais que Charles Darwin tivesse posto os neurónios a matutarem, esses circuitos nervosos no cérebro de quem teorizou sobre a evolução não terá contado que, um dia, as pessoas furassem fusos horários em autocarros com asas, que houvesse um tipo capaz de aguentar mais de 18 minutos em apneia subaquática, ou que um treinador de futebol contasse cinco semanas a trabalhar uma coisa e, ao primeiro jogo a sério, fizesse outra.

O evolucionismo aplicado a Jorge Jesus fê-lo ignorar o expectável, mas dizendo o seu contrário, disse ser “natural” que o Benfica mantivesse “a referência desta pré-temporada” durante a qual “praticamente” não trabalhou “com uma estrutura de três centrais” e fez a equipa assentar num trio de jogadores na última linha. É o prosaico dizer uma coisa e fazer outra em Moscovo, onde Veríssimo, Otamendi e Vertonghen começam o jogo e servem de prova para o que é mais provável ter acontecido - o velho bluff com que meio mundo continuará a tentar enganar outro meio.

O treinador do Benfica prefere o artifício do engano, na primeira das barreiras para chegar à Liga dos Campeões monta a equipa como a engenhou na segunda metade da época anterior e, durante os primeiros 10 minutos da empreitada enganadora, a pressão forte dos russos em cada jogador que recebe de costas para a baliza e a agressividade nas segundas bolas emperram as tentativas do Benfica em construir com calma, pela relva e buscando o critério que inunda as botas de Weigl e João Mário. Mas é temporário.

Enganados ou não, os jogadores do Spartak são um aglomerado de desorganização defensiva sempre e quando a equipa de Jorge Jesus os convida para um lado do campo, atrai a sua pressão e faz a bola desaguar rápido para o corredor oposto. É raro não o conseguir e frequente é que, depois de acelerada a jogada, o Benfica entre pelo quintal russo adentro e fique com gente na área e de frente para a baliza, a poder decidir o que fazer.

Seja com Seferovic a vagar a vizinhança com os centrais e a zarpar para o espaço entre o brasileiro Ayrton - uma moto aceleradora de ataques, mas desconcentrado a defender - e Samuel Gigot, para Rafa ocupar esse buraco, ou com o português a fazer curtas diagonais para as costas da última linha russa, o Benfica é o verão que pega em faca e corta a manteiga.

Só que as facilidades nutrem o desaproveitamento. Pizzi remata com mira torta um par de cruzamentos rasteiros e atrasados (6’ e 17’) e Diogo Gonçalves, à espera nas costas do lateral, cabeceia a bola (9’) picada por Rafa que as mãos do guarda-redes Maksimenko desvia. Depois é o frenético Rafa, destinatário de qualquer mirada da equipa na profundidade, a concluir uma saída limpa de trás e, na área, prender um adversário à relva e quase marcar, de trivela (27’).

São oportunidades que partilham a flagrância, mas outras jogadas houve em que faltou apenas o último passe, a derradeira decisão. Até lá, a competência do Benfica com bola triturava a organização de papel do Spartak, cuja última linha se esburacava ao mínimo contra-movimento (um jogador a recuar a posição para receber, com outro a sprintar nas costas).

MAXIM SHIPENKOV/LUSA

Mas, ao intervalo, os golos eram um luxo não visto e tão pouco se avistava um Benfica sem incómodos - porque, se as suas jogadas terminassem ainda a 30 ou 40 metros da baliza, a reação à perda de bola era vagarosa. Os russos conseguiram encontrar Jordan Larsson na área, que não viu o passe possível para o segundo poste e preferiu um cruzamento tenso que Vlachodimos intercetou (8’), recolheram uma segunda bola à entrada da área (cortada para lá por Grimaldo) e Umyarov disparou uma tentativa que retirou do grego a defesa do jogo

Este Benfica do artifício, do treinador dizente de uma equipa supostamente não trabalhada, na pré-época, na estrutura que adota para jogar em Moscovo, continuaria a beneficiar da sua ignorância ao que lhe seria natural: tendo os três centrais, beneficia sobretudo a atacar devido à mansa pressão dos atacantes do Spartak. E, superado o primeiro obstáculo e fazendo os restantes caírem que nem dominós, na última linha do Spartak também continuou a encontrar o desatino.

Nem em ataques com mais idade, com maior paciência e a pedirem aos mais afins de tabelas, do toca-e-vai e de pés de lã para decidirem em espaços curtos, que encavalitavam o bloco do Spartak na própria área, a equipa treinada por Rui Vitória arranjava forma de fechar espaços entre os seus. Quando Pizzi, Rafa e João Mário se uniram numa conspiração na área, o triângulo de passes acabou com o médio a isolar o extremo para o português fuzilar (51’) o teto da baliza. Zero-um e o Benfica, por fim, cobrava os avisos dados.

O muito tempo que restava só evidenciou a incapacidade do Spartak em evitar o que há muito parecia apenas adiável. Cada intenção do Benfica em passar a bola na rua entre central e lateral era uma obra que a tornava numa avenida. Nunca a linha defensiva russa se manteve compacta quando se ajustava às trocas de passe alheias e, com os minutos, Rafa acumulava metros corridos com a bola à sua bagagem, Pizzi recebia devoluções de tabelas nesses sítios e até o hesitante Gilberto se desmarcou para lá quando entrou.

O brasileiro faria o zero-dois (74’) na autoestrada entre Gigot e Ayrston, onde correu atrás do passe de Lucas Veríssimo e rematou à vontade já dentro da área. Antes, Gonçalo Ramos quase desviou uma bola vinda da cabeça de Weigl, num canto (70’). Depois, um dos já típicos pontapés em arco de Everton sacou do guarda-redes uma parada salvadora (90’+3). Durante tudo que foi jogo, houve a pausa e a cabeça erguida de João Mário em todas as posses de bola, a ser o binóculo paciente que depois via a melhor solução para deixar alguém do Benfica em condições para melhorar a jogada.

O Benfica leva uma vitória rechonchuda, dadora de conforto para o segundo jogo em Lisboa, onde parece que terá sempre jogadores e equipa para ser superior ao Spartak de Rui Vitória, calamitoso a defender e parco a atacar em Moscovo - ter as corridas de Ayrton, o pé esquerdo de Bakaev e o relógio de Umyarov a meio-campo. Fazendo o que lhe seria natural ou não, havendo outro bluff artificioso de Jesus, a equipa joga mais do que do que os russos.