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Benfica

A realidade não foi apanhada de surpresa. Nunca pareceu que seria

O primeiro de dois obstáculos no caminho para a Liga dos Campeões foi ultrapassado pelo Benfica que, no Estádio da Luz com gente, voltou a ganhar (2-0) ao frágil e quase inofensivo Spartak de Rui Vitória. Viu-se, mais uma vez, muito de João Mário no ordenamento da bola e o próximo adversário é holandês: o PSV Eindhoven será o adversário no play-off

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Esperar, desta terça-feira, mordomias capazes de espantar seria o diametralmente oposto a, neste momento, estalar os dedos e esperar que aparecesse à nossa frente um maço de notas de quinhentos euros enroladas por um elástico, nem nós dominamos a alquimia da fantasia, nem o Paris Saint-Germain engana quem seja com emojis de ampulhetas a legendarem os vídeos provocatórios do sublime futebolista que vai contratar. Surpreenderia era se, por obra e graça do acaso, fosse de outra forma.

De pasmar também seria se, nem uma semana depois, um mesmo treinador com horas de vídeo, treinos para dar, palestras nas quais falar e conversas para ter com os jogadores, não cuidasse de prevenir a repetição dos erros do jogo anterior. Por alguma razão ouvimos banalidades como a de não existirem jogos iguais e Rui Vitória reforça essa razoabilidade com o zelo que, a surpreender, talvez apenas pelo excesso.

Em Moscovo, o Spartak era a casa das autoestradas de espaço dadas pelas alas, onde o Benfica o machucou insistentemente, mas, na Luz, os russos jogaram durante 45 minutos a precaverem-se contra a projeção que Grimaldo e Diogo Gonçalves voltaram a ter no campo, ainda mais quando terão percebido que Larsson e Bakaev, os extremos, os acompanhavam até bem perto da linha dos quatro defesas. Muitas vezes, esse eixo ficava com seis homens. Eram um alinhamento de receio contra a possível reincidência de um desmantelamento.

Que se conceda o sucesso vindo da não-surpresa: na primeira parte, por apenas uma vez o Benfica teve alguém a correr atrás de uma bola posta nas costas de defesas (tabela de Grimaldo com Rafa) e a acelerar uma tentativa na terra de ninguém conhecida por profundidade. Mas, focando-se tanto em corrigir o que de tão falível teve em Moscovo, o Spartak encurtou a equipa e retirou-lhe duas opções de passe úteis para os momentos em que recuperasse a bola. A cabeça que cada russo levantava nessas alturas só via um dos dois avançados, o que facilitou as reações do Benfica às bolas que acabava de perder.

A bola e a relva foram dois monopólios da equipa de Jorge Jesus, que jogou quase sempre na metade russa do campo, teve quatro remates entre Pizzi e Rafa bloqueados por corpos e gozou de ataques com quatro, cinco fases seguidas a entrarem na área. Excetuando um par de tentativas do pequeno, rápido e barbudo, porém, o Benfica quase nada conseguia ligar pelo centro nos últimos 30 metros, onde, mesmo bombardeando a área com cruzamentos insistentes, era capaz de assustar o encolhido bloco russo.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Também seria assim que Diogo Gonçalves correria atrás de uma bola quase até à beira da linha de fundo, onde adornou o pé a colocar rasteira na área e para trás, no dito mais atarefado dos cruzamentos para quem defende - apanha essa gente em contra pé, obriga-a a ter de virar o corpo. O primeiro remate de Rafa ainda voltou para trás, batendo no corpo de um adversário. O de João Mário também faria ricochete, mas seguiria baliza dentro (58’) para o médio que trocou de margens na 2.ª Circular se estrear a marcar.

Nem com o prejuízo ainda mais avolumado o Spartak perturbou o conforto do Benfica no jogo, surpreendente também seria se o tivesse feito, porque as pouco mais de duas horas de eliminatória já vistas resumiam-se com o retrato desta equipa russa: pouco capaz de ousar no ataque sem destapar a organização defensiva; sem uma estrutura ordeira para os jogadores mais hábeis inventarem bons rodeios com a bola; e sem qualidade per capita para beliscarem muita gente até nestes primórdios da Liga dos Campeões.

Todo um contrário do que, neste contexto, já é o Benfica. Mesmo que só tenha, depois, ameaçado a baliza russa com um remate brusco de Everton, sozinho na área, a equipa controlou o volante da partida até ao fim. Os três centrais a filtrarem sempre a saída de bola (Lucas Veríssimo voltou a ligar-se com os médios ou extremos com passes interiores, Weigl e João Mário a serem o escorredor constante de jogo ao centro e um avançar no campo que com facilidade deixava os alas só com o lateral adversário pela frente.

Haveria tempo, ainda, para o Yaremchuk ter uns minutos, o ucraniano não teve pré-época, tempo para treinar tão pouco, mas no seu perfil grandalhão e musculado há um avançado com tendência para não existir só na área. Ele esquiva-se dos centrais, foge do retângulo e dá-se a tocar na bola e a deixá-la em quem esteja de frente para a baliza. É um tipo com pés leves e assim picou à colherada uma tabela com João Mário, que lhe tentou devolver a bola na área. Um ressalto depois, a sobra foi de Yaremchuk, cuja realidade do remate também teria um ricochete (90’+2). A intervenção do ucraniano seria um auto-golo de Gigot.

O total de 4-0 é surpresa nenhuma, jamais um coletivo que tem agora maior fôlego a respirar por em João Mário estar o entroncamento preferido da bola pareceu, sequer, poder ser ameaçado por um Spartak de Moscovo que ainda pareceu sustido por arames mais típicos de pré-época.