Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Benfica

Ver um jogo diferente quando o jogo não difere muito

O Benfica demorou quase 84 minutos a marcar um golo em Barcelos, insistindo na redundância de ir tentando entrar na área quase sempre por fora e com cruzamentos. Acabaria por vencer (0-2) o Gil Vicente com a esperteza de Lucas Veríssimo e uma bomba de Grimaldo

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA/Getty

Partilhar

Taarabt está parado, o que não é sinónimo de estar inerte, um tipo imóvel pode não se mexer e encontrar-se no lugar certo em simultâneo. São dois estados de sítio e o marroquino repete-se a ele próprio em questão de segundos, na mesma jogada, a primeira ligada pelo Benfica que tarde quase 10 minutos a colar intenções que o levem até à outra área. E consegue essa cercania muito por culpa do sapateado do médio sobre a relva.

Primeiro, Taarabt vira-se com uma receção, está entre linhas e pica o pé para ameaçar que passará a bola ali, bate-o de novo sugerindo que a passará acolá e só à terceira manifestação de vontades cumpre um passe rasteiro e vertical, que desmonta a organização do Gil Vicente. A jogada chega-lhe e sume com ele parado, continua pela esquerda até ser cruzada para a entrada na área, para onde o marroquino está, de novo, quase imóvel para ser suave sobre a bola — é outro passe que lhe sai, contra o poste.

A jogada importa, em parte, também porque na ressaca a cabeça de Everton ainda bateu a bola contra a barra e Gilberto fez do ressalto um golo anulado (fora de jogo). Depois, por ter sido um prenúncio da presença em campo que desengataria, em crescendo, a equipa das amarras pressionantes dos jogadores do Gil Vicente, reativos a cada choque entre as palmas do seu treinador. Ricardo Soares batia uma mão contra a outra, todo ele a sugerir que a equipa apertasse os adversários a todo o campo, logo em qualquer ação que o Benfica pretendesse iniciar da própria área.

Meia primeira parte contou-se com o Benfica a bater bolas longas, perdendo-as no ar e correndo atrás delas depois na relva, quando o Gil as aproveitou para fazer Bilel, Sandro Lima e Fujimoto combinarem nas barbas dos defesas, tentando com muitas trocas de posição desencantarem os espaços que os três centrais (únicas as sobras do jogo com o PSV, além de Vlachodimos e Yaremchuk) nunca lhes concediam nas costas. Só o japonês, à distância, fez Vlachodimos tombar sobre a relva para desviar (16’) uma bola da baliza.

O soluçante Benfica assentaria com a bola nos três de trás e só criou algo em três momentos. A tal jogada de Taarabt o primeiro, o segundo quando o marroquino resistiu à pressão com uma roleta e acelerou uma chegada à área. Meïté pouco existia com bola. As ações de Gil Dias e Gilberto não viviam o suficiente para haver jogadas com propósito na largura. Raramente as espreitadelas dos extremos por dentro, para fomentarem o jogo interior, deram frutos.

E o terceiro no calcanhar de Everton (34’), que desmarcou Yaremchuk para o remate do ucraniano rasar a barra da baliza de Kritciuk, já depois de o guarda-redes russo se esticar todo para impedir festa no livre direto de Taarabt (26’). Mas, nos cinco minutos pré-intervalo, o marroquino sucumbiria com estrondo ao marasmo criativo do Benfica, acumulando três ou quatro erros que deram contra-ataques rápidos aos de Barcelos e mostraram o risco com que se corre atrás dos outros quando Taarabt arrisca tanto.

MANUEL FERNANDO ARAUJO/LUSA

E, quando não arrisca, por vezes erra na decisão, nem sempre o Benfica é prejudicado ao ponto de ficar sem a bola, mas vê-se o marroquino sem corpos do Gil a rodeá-lo e a dar um passe a quem está na mesma linha que linha, mas rodeado por adversários, tipo de julgamento que encrava jogadas e explica uns quantos porquês de Jorge Jesus o trocar por João Mário.

Nem uma hora de jogo havia e a equipa já usufruía de mais bola, o bloco do Gil recuara uns metros e os médios tinham a serenidade em cada receção. Podia quase sempre virar-se de frente para o campo em posse e essa tendência — que já resultara num remate perigoso de Gonçalo Ramos (46’) e um golo anulado a Yaremchuk (56’), de novo por fora de jogo — estava carente de alguém mais certeiro a decidir por onde, quando e como o Benfica deveria ir com a bola.

O usufruto que foi fazendo dela, mesmo com João Mário, era redundante. Raro era a jogada na qual o Benfica existia dentro do bloco do Gil Vicente, cada vez mais amontoado junto à sua área sem que isso impedisse que fosse tendo saídas rápidas, dependentes nas correrias de Talocha, dna esquerda, ou nas coisas que Sandro Lima conseguisse segurar na frente. E os visitantes redundavam, quase sempre, em ter o ala a tabelar com o extremo para depois tentar um cruzamento, ou em devolver à área as sobras que recolhesse, com bolas nas costas da linha defensiva.

Um desses restos de uma jogada acabou em Pizzi, que fixou um adversário na área, cravou-o à relva com um drible para dentro e logo tentou rematar, mas a frouxa bola foi recebida por Lucas Veríssimo, cujo domínio enganou Kritciuk e desertificou a baliza para o brasileiro lhe passar o primeiro golo (83’). Quase na aproximação seguinte do Benfica à área, Grimaldo recebeu um passe a uns 30 metros do alvo, rematou logo e fez um golaço sobrevoar (88’) o guarda-redes do Gil.

A sexta vitória consecutiva confirmou o melhor arranque de época de Jorge Jesus no Benfica, com esta versão de Benfica, em que a equipa goza de muita companhia da bola, tem mais do que gente capaz de ferir os outros caso se juntem entre linhas — o posicionamento dos extremos, quando a equipa se instala no meio-campo adversário, mostra essa vontade —, mas continua encravar-se na incapacidade, aqui e ali, de inventar finalizações vindas não só de cruzamentos ou coisas feitas pelas alas.

O Benfica melhorou, sobretudo, mas não em tudo, com Grimaldo e João Mário, os portadores da diferença que nem assim conseguirem tornar o jogo assim tão diferente. "Eu vejo um jogo diferente", gabou-se Jorge Jesus, antes da partida, mas nem eles conseguiram diferir muito do que estava a ser a forma de jogar da equipa.