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Benfica

A Leste do golo

O Benfica empatou (0-0) frente ao Dínamo Kiev, no primeiro jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões. Num duelo quase sempre dominado pela equipa de Jesus, mas no qual as águias revelaram dificuldades para ter oportunidades de golo, o ucraniano Yaremchuk, diante do clube onde se formou, esteve perdulário. Na parte final da partida, Vlachodimos voltou a vestir a pele de herói, antes de o VAR anular um golo que teria derrotado o Benfica ao minuto 93

Pedro Barata

GENYA SAVILOV/Getty

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Há relatos que devem ser começados pelo fim, e este Dínamo Kiev-Benfica, que ditou um empate a zero na primeira jornada do grupo E da Liga dos Campeões, parece ser um desses casos. Até ao minuto 91, a equipa da casa praticamente não tinha criado perigo. As águias rondaram muitas vezes os 70% de posse de bola, assumiram as despesas da partida, tentaram chegar à vitória perante um Dínamo conformado com o nulo. Mas no futebol tudo muda de um instante para o outro. E, em Kiev, tudo esteve quase a mudar.

Ao minuto 91, Shaparenko, o farol de técnica e critério dos ucranianos, disparou à barra, detendo Vlachodimos a recarga de Buyalskiy numa enorme defesa e ficando Otamendi perto de marcar um auto-golo. Na sequência do canto, o guardião grego voltou a evitar o golo rival, desta feita após cabeceamento de Garmash. E, após novo canto, Garmash assistiu Shaparenko para que o melhor jogador da equipa de Kiev batesse, por fim, Odysseas e levasse ao delírio o público da casa.

GENYA SAVILOV/Getty

Num par de minutos, uma partida na qual o Benfica tinha estado quase sempre por cima parecia tornar-se numa dolorosa derrota ao minuto 93.

Mas no futebol tudo muda de um instante para o outro, e na era do VAR tudo muda mesmo quando uns já festejam e outros já se lamentam cabisbaixos. Garmash, o homem que havia feito a assistência para o golo, estava fora-de-jogo e o tento foi anulado. E tudo voltou à fórmula inicial, com um ponto para cada lado.

Desde o começo que pareceu evidente que o nulo era um resultado que não desagradava a Lucescu. Aos 76 anos e 47 dias, o romeno, muito elogiado por Jesus antes da partida, aumentou ainda mais o recorde de treinador mais velho da história da Champions, o qual já era seu. E montou uma equipa na expectativa, dando a iniciativa de jogo ao Benfica.

Os primeiros minutos do duelo denunciaram de imediato de onde viria o grande perigo da equipa portuguesa. Rafa está solto, confiante e com facilidade para desequilibrar, e foi isso que o número 27 começou, desde bem cedo, a fazer. Logo ao minuto 3, naquele seu estilo agitador, o antigo jogador do Sporting de Braga penetrou pelo meio e disparou com perigo.

Estava dado o aviso a um Dínamo que, no primeiro tempo, só deu real trabalho a Vlachodimos num livre batido por Shaparenko, aos 9 minutos, que o grego defendeu com qualidade. De meias em baixo e personalidade para ter a bola, o médio ucraniano foi o grande destaque de uma equipa com uma atitude quase sempre conformista.

Do outro lado, João Mário e Weigl pautavam o ritmo, mas faltava capacidade para derrubar o muro rival. Everton teve nova oportunidade a titular, mas o brasileiro voltou a ser uma sombra do que já o vimos fazer na sua seleção ou no Grémio. Errático, sem drible e de definição imprecisa. No final dos primeiros 30 minutos, o Benfica tinha 71% de posse de bola, mas zero remates à baliza adversária.

Nos últimos minutos da etapa inicial, a equipa de Jesus criou mais perigo do que em todo o jogo até aí. Primeiro foi Rafa, após livre batido por João Mário que surpreendeu a defesa local, a tentar picar por cima do guarda-redes, mas a bola saiu demasiado alta. E depois começou o duelo de Yaremchuk contra o seu passado.

O avançado ucraniano ingressou na academia do Dínamo aos 10 anos, tendo vivido lá até aos 17. Roman teve oportunidades na equipa principal do gigante de Kiev mas, nas temporadas 2015/16 e 2016/17, fez 11 encontros com a camisola do Dínamo e não marcou qualquer golo, rumando depois à Bélgica, onde se viria a tornar jogador de destaque.

No reencontro com o clube onde, como o próprio já disse, “se fez homem”, o avançado não foi feliz. Aos 42 minutos, após perda de bola dos homens de Lucescu, Yaremchuk teve boa oportunidade para disparar à entrada da área, mas não conseguiu bater Boyko. E, já no começo do segundo tempo, após lance de insistência de Rafa (quem não?), o dianteiro, a escassos metros do golo, voltou a ser incapaz de superar a oposição do guardião rival.

DeFodi Images/Getty

Quatro minutos depois da segunda chance desperdiçada, Yaremchuk foi substituído. Jesus tentou uma tripla alteração a 30 minutos do final, colocando Lazaro (que só tinha 17 minutos realizado pelo Benfica), Radonjic - em estreia absoluta - e Darwin para os lugares de Gilberto, Everton e do dianteiro que atuava em casa.

O treinador português pode ter tentado mexer na equipa em busca dos três pontos, mas a aposta foi falhada. O Benfica passou a perder mais bolas, com um Radonjic muito individualista e cada vez menos jogo pausado e pensado, com mais tendência para a ação individual precipitada. As oportunidades de golo deixaram de existir e a saída de Rafa, já perto do fim, após entrada dura de um adversário, fica como outro motivo de preocupação para as águias.

Jesus assegurou que não via diferenças de nível entre o Dínamo Kiev e o Barcelona ou o Bayern Munique, mas se, tal como o técnico disse, o Benfica tem aspirações a chegar à fase seguinte, este empate inicial não pode ser visto com bons olhos. Num embate em que as águias tiveram praticamente 90 minutos sem argumentos para superar o bloco da casa, terão saído dos descontos com um suspiro de alívio por, pelo menos, conseguirem um ponto.

Seguem-se as visitas de Barcelona e Bayern ao Estádio da Luz.