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Crime e redenção, por Julian Weigl

O alemão a quem raramente vemos erros deixou-se enganar e permitiu um golo ao Boavista numa altura em que o jogo ameaçava pôr-se difícil para o Benfica. Mas logo a seguir redimiu-se, descomplicando uma história que terminou com uma vitória por 3-1, com Darwin também em evidência com dois golos. Desde 1982/83 que o Benfica não começava o campeonato com seis vitórias em seis jogos

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Há algo de desolador num erro de alguém que não costuma errar e tem o azar de errar logo num lance que a seguir dá golo. Julian Weigl é um bocadinho como uma peça maestra do jenga, aquele jogo dos bloquinhos que fazem uma torre da qual se tem de ir tirando peça a peça, evitando que tudo se desmorone - às vezes parece ali quase invisível, uma peça igual a todas as outras, mas se não está lá, o Benfica deixa de ser uma torre forte.

À passagem da meia-hora, já o Benfica ganhava, o alemão deixou que o colombiano Pérez furtivamente lhe roubasse uma bola no corredor central, ainda bem perto da sua área. A bola foi parar a Gustavo Sauer que com um remate seco, forte, em arco, de primeira, fez o que em linguagem corriqueira gostamos de chamar de golaço.

Era o empate para o Boavista, que já tinha ameaçado antes, oferecido por alguém que normalmente está ali para equilibrar, não para colocar pesos na balança do adversário. Acontece.

Seria injusto colocar o ónus de um possível empate ou derrota num erro único, mas o erro teve cara e número e género e Weigl nem sequer esboçou a manha futeboleira de pedir uma falta. O roubo de Pérez tinha sido tão suave e eficaz, qual carteirista no elétrico que nos depena sem notarmos, que não havia manigância possível. E, pior, não aparecia em boa altura, porque o Boavista crescia e, como se veria ao longo de todo o jogo, estava na Luz para jogar ao ataque e disputar o resultado, que é mais do que muitas equipas podem dizer.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

E é por isso que o crime seguido quase imediatamente de redenção de Julian Weigl pode muito bem ter sido a chave da vitória do Benfica por 3-1, a sexta em seis jogos do campeonato, que mantém a equipa de Jorge Jesus com quatro pontos de vantagem para FC Porto e Sporting. Porque pouco mais de um minuto depois do Boavista marcar, Weigl estava de novo de sorriso na cara, como aquele meme do Chico Buarque, mas ao contrário: num livre lateral, a bola foi para o segundo poste, onde Otamendi amorteceu para o maralhal do coração da área. E lá estava o alemão, astuto, para dirigir a bola para dentro da baliza.

Aquele 2-1 no marcador, não sendo um descanso, deixava o Benfica bem mais aliviado, depois de uma 1.ª parte bem disputada, mas com poucas oportunidades. Darwin marcou aos 14’ (já depois de ter falhado um golo feito aos 8’), num bonito e bem ritmado pulo para responder a um cruzamento também ele não desprovido de beleza da parte de Diogo Gonçalves. O jogo entrou então numa fase mais ou menos soporífera, até Sauer acordar toda a gente com um remate vadio do meio da rua, que Vlachodimos parou a custo, isto antes de empatar aos 32’. Com o redimir de Weigl, o Benfica travava, pelo menos por alguns instantes, o possível momentum que o Boavista poderia ganhar.

Com dois golos nos dois únicos remates enquadrados que fez, o Benfica mostrava então mais uma vez algo que no ano passado nem sempre aconteceu: eficácia. Eficácia essa que baixou consideravelmente na 2.ª parte, graças também a Bracali, que salvou pelo menos três lances de golo, com grandes defesas a remates de Yaremchuk (53’), Darwin (72’) e Everton (79’), só não conseguindo travar o bis do uruguaio aos 61’, num lance simples que começou num passe vertical de Lucas Veríssimo para Rafa, que depois encontrou Darwin sozinho na área - o avançado só precisou de encostar.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

O 3-1 não foi, no entanto, nem pouco mais ou menos uma sentença de morte para o Boavista, que obrigou o Benfica na 2.ª parte a sobreviver na selva de um jogo partido, com muitos lances de ataque de parte a parte. Logo a seguir ao segundo golo de Darwin, Musa esteve muito perto de reduzir, mas talvez a redenção esta noite estivesse destinada apenas para Weigl, como que a dar ao alemão uma nova oportunidade depois do erro, como se o universo, ele próprio, decidisse curar a ferida que o ex-Borussia Dortmund abriu. Ou pelo menos dar uma ajudinha para tal.

A boa réplica do Boavista não chegaria, faltou talvez um pouco mais de sangue frio no último terço, e com isto o Benfica segue invicto, sem perder qualquer ponto à 6.ª jornada, algo que aconteceu pela última vez já na longínqua época de 1982/83.