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Benfica

Quem é, afinal, o gigante?

Entrará na história como uma das grandes noites europeias do Benfica das últimas décadas: se é certo que este Barcelona é uma cópia contrafeita do Barcelona a que estávamos habituados, o 3-0 aos catalães é feito de intensidade, de qualidade, de segurança defensiva e bom timing no ataque. Desengane-se quem ache que o Barcelona perdeu este jogo - foi o Benfica que o ganhou

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia

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Ver uma equipa portuguesa bater um gigante europeu na Champions não é uma impossibilidade. É uma improbabilidade estatística, é certo, mas já não há aqui Adamastores. Mas a verdade é que essas vitórias são muitas vezes fruto de um qualquer transe competitivo ou de mudanças de estratégia, o que não tem mal nenhum, afinal de contas cada um joga com as armas que tem e nós, queiramos ou não, temos menos que os outros.

Porém, talvez aí esteja a diferença entre a vitória do Benfica esta quarta-feira por 3-0 frente ao Barcelona para outros triunfos surpreendentes da história recente das equipas portuguesas na Europa: o Benfica nada mudou. Jogou com o Barcelona com a mesma estratégia com que joga com o Moreirense, sendo muito bom naquilo em que é habitualmente bom e aproveitando sem piedade na hora e naquilo em que o adversário falhou. Foi a equipa grande num duelo em que o outro é que entrava como o gigante e não nos podemos esquecer que este Barcelona é hoje uma sombra de outros Barcelonas, mas continua a ter um meio-campo com Busquets, De Jong e Pedri.

O Benfica ganhou o jogo logo de entrada, com 10 minutos muito fortes que valeram um golo aos 3 minutos, numa transição ofensiva em que Weigl encontrou Darwin na frente, com o uruguaio a brincar com Eric Garcia antes de fletir para dentro e enganar Ter Stegen com um remate junto ao poste esquerdo do alemão.

E com esse golo, o Benfica ficou confortável no jogo, com e sem bola. Porque lá atrás a defesa estava seguríssima, certa que nem relógio suíço, e mesmo com o Barcelona a pegar no jogo a partir dos 15 minutos, nunca se sentiu o Benfica por algum momento perdido. Pedri e Frenkie de Jong eram por esta altura os jogadores mais perigosos do Barça, o miúdo espanhol como uma espécie de réstia daquilo que já foi o Barcelona e o neerlandês a aparecer incaracteristicamente na área, como quem desespera e percebe que tem de fazer o trabalho de vários homens para levar a sua equipa para a frente.

David Ramos

Mas nem a visão raio-x de Pedri nem o esforço de Frenkie fizeram tremer o jogo posicionalmente irrepreensível do Benfica e mais fácil ficou quando Ronald Koeman, em mais capítulo da descaracterização do Barcelona em curso, recuou De Jong para o eixo da defesa quando, num ato de desespero que só se vê nas cabeças mais perdidas do futebol, percebeu que tinha de tirar Piqué do jogo ainda na 1.ª parte, sob pena de em menos de nada estar a jogar com 10.

A seguir ao intervalo apenas se agudizou a superioridade tática do Benfica, a gerir com todo o à-vontade os ritmos de jogo, com Weigl e João Mário em nível estelar e Rafa na frente carregar na velocidade que, mais minuto, menos minuto, iria fazer desmoronar o Barcelona.

Aos 52’, como que emulando a vida interior da cabeça de cada um dos jogadores do Barcelona e do seu treinador, o habitualmente gélido Ter Stegen saiu amalucadamente da baliza, com Darwin a aproveitar a porta aberta para rematar: a bola foi ao poste, mas a partir dali o Barcelona despediu-se, deixou o palco, entregando o jogo a meros figurantes. E quando Koeman tentou mudar algo, com a entrada de Ansu Fati já quase aos 70’, os encarnados responderam imediatamente com um golo, um remate de trivela de Rafa a culminar uma excelente jogada de ataque, onde as diferenças de qualidade e intensidade de uma equipa para a outra ficaram evidentes.

Soccrates Images

O timing do 2-0, diga-se, foi excelente para o Benfica, que também fez por merecer aquele momento, porque soube quando acelerar, quando ferir definitivamente um Barcelona sorumbático, sem rumo, que foi vivendo de Pedri e De Jong e, depois da borrada estratégica de Koeman, dos laivos particulares de Memphis, nada que desfocasse uma defesa do Benfica que foi um metrónomo - e é só analisar a quantidade de foras de jogo arrancados pelos encarnados para perceber a confiança e o controlo total do rumo do jogo que o Benfica teve na 2.ª parte.

A grande penalidade cometida por Dest e marcada por Darwin veio só dar outra cor a uma noite europeia de sonho do Benfica, dando-lhe volume e justiça, porque foi o gigante e o adulto em campo, amarrando com o seu futebol vertical, veloz e intenso uma equipa que, por si só, já está em frangalhos.

Mas isso é apenas um pormenor: mais do que uma derrota do Barcelona, esta noite vimos um grande jogo do Benfica, uma vitória limpinha, sem ser preciso olhar a táticas alternativas, a luta, a uma atitude mais ou menos competitiva, a uma estratégia para um jogo só. O Benfica foi o que é e foi, simplesmente, muito superior.