Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Benfica

No futebol também foi dia de Portugal

À oitava jornada, depois de sete vitórias, o Benfica perdeu no Estádio da Luz diante de um Portimonense (0-1) que contou sobretudo com a tarde maravilhosa de Samuel Portugal, o guarda-redes que escreveu com a mão esquerda o melhor trecho deste conto heróico. Ou trágico, dependendo do ponto de vista

Hugo Tavares da Silva

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

Este jogo que se joga com uma bola de futebol, às vezes, podia muito bem transformar-se num velho sábio, sentado num banco de jardim, com qualquer coisa no canto da boca que não se percebe bem o que é, a ler um livro com pó e as páginas a desdenharem a juventude. Que o que compõe o corpo, lá por baixo da pele, tenha sido regado por um licor de euforia depois de derrubar o Barcelona é normal, mas a seguir, inevitável, vem sempre aquele aviso de quem sabe uma coisa ou duas sobre a vida: “Vai com calma, o caminho é longo”.

Não é que o Benfica tenha entrado vaidoso esta tarde, no Estádio da Luz, diante do Portimonense. O 11 de Jorge Jesus era praticamente o mesmo daquela noite brilhante na Liga dos Campeões - só Gilberto entrou para a ala direita. O ritmo, sim, parecia mais ralentizado. Talvez as pernas estivessem já com a língua de fora, ou então a fadiga mental, tão castigada contra o Barça naquele histórico 3-0, tenha chegado antes da hora prevista. Seja como for, o jogo embrulhado e desinteressante que perdurou durante largos minutos foi sacudido por uma avalanche de oportunidades para os rapazes da casa e por um milagre chamado Samuel Portugal, o guarda-redes do Portimonense.

Rafa é hoje o joker do Benfica, uma equipa que até agora levava sete vitórias em sete jornadas. Se no passado parecia tremer na hora de decidir, ou demasiado preocupado em fazer as coisas que era suposto fazer, parece agora ter voltado à sua essência, ao Rafa criança, driblador, entusiasmante, imprevisível, especial. O número 27 criou muitas jogadas, depois de eliminar rivais diretos com uma finta ou então com tabelas. Acelerar é a sua natureza e a posição em que vai jogando, livre, ora no centro, ora perto da linha, beneficia a irreverência que lhe mora dentro das botas. Quando tentou isolar Darwin da primeira vez, o uruguaio não arrancou e a seguir, assim que a bola se perdeu, disse “sim” com a cabeça, magicando um esgar no rosto como quem se denúncia culpado. Rafa é, atualmente, um criador. E dá gosto ver.

O festival de Samuel Portugal começou aos 22’, depois de Roman Yaremchuk bater com a canhota, já dentro da área. Não sabíamos ainda que este seria o desfecho mais badalado do jogo, o filme mais visto de todos, como aqueles que passam na TV e que todos já vimos 30 vezes e, por alguma razão que ninguém consegue explicar, ficamos por ali.

Carlos Rodrigues

O meio-campo do Portimonense, com Carlinhos, Pedro Sá e Lucas, ia aqui e ali mostrando qualidade para ora tocar, ora fechar os caminhos pela rota central, respaldado pela defesa de cinco. João Mário e Weigl não tiveram o espaço de manobra habitual e o Benfica, quem sabe menos paciente, apostou na vertigem, principalmente com o avançado ucraniano a servir de pivô e Rafa e Darwin a acelerarem.

Se Aylton Boa Morte até assustou a Luz, que não sonhava ainda o que estava para vir, Samuel Portugal abriu a porta para a eternidade e decidiu afixar numa parede invisível qualquer uma história para contar aos netos. Livre de Grimaldo? Defesa. Remate de Rafa? Defesa. Grimaldo de cabeça? Defesa. Mais um remate de Grimaldo? Defesa. Eram já seis, as defesas do homem que decidiu ser monstro numa tarde amena, no Estádio da Luz. Uma delas, com a mão esquerda, foi como uma canção com uma letra bonita.

O Benfica, lá está, talvez menos paciente, ou simplesmente com os médios refinados bloqueados, optou pela correria que engolia metros e deixava a equipa menos junta, mostrando a versatilidade que enriquece e multiplica os caminhos para as balizas rivais.

Na segunda parte, a equipa da casa entrou ainda mais agressiva, teve logo dois cantos em dois minutos. Adivinhava-se uma pressão sufocante, que foi rolando, sim senhora. Gil Dias entrou cedo, por Gilberto, que parecia especialmente impaciente ou nervoso quando alguém não lhe dava a bola no último terço. Gil Dias, que estranhamente entrou para a direita quando havia André Almeida no banco, agitou o jogo até ao fim, fresco como as melhores frutas de um qualquer mercado madrugador. Foi uma seta, porventura mais venenoso quando passou para a esquerda, depois de Almeida entrar por Grimaldo.

O campo ia ficando maior para os visitantes, já estavam muito longe da baliza, iam-se encolhendo, temendo a voracidade alheia. O VAR anulou, por 31 centímetros, um golo a Yaremchuk, que celebrou com Rafa como se celebra com os amigos de verdade. Rafa, aos 55’, garantiu o trono de melhor driblador da liga, com 23 dribles eficazes, isto é, 68% das vezes que tentou passar por alguém passou mesmo, revelava durante o jogo a Goal Point.

O lero-lero continuava. Gil Dias, a 300 à hora, apareceu pela esquerda, deu o pãozinho para o pé de Darwin, mas o uruguaio não conseguiu encostar, como não conseguiria depois de um cruzamento-míssil de Rafa alguns minutos depois, aqui o desacerto foi mais compreensível. Darwin é um jogador intrigante, parece ter peso no ataque, influência pelo desvario que provoca à volta, mas é normalmente na correria, pois na técnica e no primeiro toque revela algumas limitações.

Quando o Portimonense existia cada vez menos, embora se mantivesse o espírito lutador e a dignidade, pingou o golo de Lucas Possignolo, depois de um canto de outro Lucas, o Fernandes. Ficou frio, frio no Estádio da Luz, aquela sensação de vazio no estômago pairou no ar.

Jesus mexeu pouco depois. André Almeida e Taarabt entraram no relvado por Grimaldo e Weigl, pois já não se pedia tanto controlo. O Benfica ia mordendo, começava a fazer lembrar, ainda assim, PSG e Real Madrid, que também escorregaram neste domingo bonito para o desporto português.

Gualter Fatia

Rafa, o tal joker descobridor de espaços e galgador profissional, já aparecia mais na linha, pois era aí que encontrava mais terrenos baldios, consequência do recuo do Portimonense de Paulo Sérgio.

As más decisões dos líderes do campeonato, recorrentes em homens ansiosos, acabariam por ir aterrando na Luz, assim como os reconfortantes e inevitáveis cruzamentos para área.

Taarabt com uma bola ao lado, assinava o 16º remate da equipa. Depois, Candé tirou quase em cima da linha um remate de Otamendi. Não havia maneira, era uma daquelas tardes. A seguir foi Rafa de cabeça. Nada. Jesus desfez então a defesa de três centrais, com a entrada de Gonçalo Ramos, atrevido como sempre mas sem grande tempo para fazer mossa. Everton, inconsequente, entrou depois por Yaremchuk.

Que a última oportunidade do Benfica tenha sido um remate ao poste, outra vez por Otamendi, aos 90’+5, é perfeito para fechar um improvável conto trágico, ou heróico, dependendo do ponto de vista. O Portimonense nunca tinha vencido no Estádio da Luz, e o culpado é sobretudo um brasileiro chamado Portugal.

O velho sábio, o tal do jardim que estava a ler e que tinha qualquer coisa impercetível no canto da boca, vai continuar por aí.