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Luís Filipe Vieira falou: “Nunca lesei ou roubei o Benfica. Mesmo que queiram, não me vão esquecer. Tudo o que disseram é mentira”

Falou em desilusões que teve com "gente de dentro do Benfica", repetiu que não lesou o clube e garantiu que até ao final do ano ou "em princípio de janeiro" voltará a falar. Luís Filipe Vieira, ex-presidente e arguido no processo 'Cartão Vermelho', deslocou-se ao Estádio da Luz para votar nas eleições do clube e, pela primeira vez desde que se demitiu, em julho, pronunciou-se sobre tudo o que tem acontecido. E disse que "a democracia a mais neste clube faz mal"

Diogo Pombo

ANTÓNIO PEDRO SANTOS

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De fato, camisa e gravata, com a devida máscara a tapar o bigode residente, caminhou para dentro do pavilhão n.º 2 do complexo desportivo do Estádio da Luz. Já passavam das 15h deste sábado e foi mais um a acrescentar aos cerca de 21 mil sócios que vestidos de milhentas outras formas, o igualavam no ato de votar nas eleições presidenciais do Benfica. Nas últimas seis, a maioria votou nele.

Pouco mais de três meses contados desde a sua detenção, procedida, também em julho, pela demissão do cargo que ocupava desde 2003, o ex-presidente Luís Filipe Vieira compareceu em pública pela primeira vez. Calhou a reaparição ser no 97.º ato eleitoral da história do Benfica, este precipitado pela saída que protagonizou após lhe serem aplicadas medidas de coação no processo 'Cartão Vermelho' — é suspeito de ter desviado do clube uma verba a rondar os €2,5 milhões.

Intempestivo por momentos, acelerado no discurso quase sempre e atropelado pela própria urgência em verbalizar o que tinha dentro sobre si e o que se diz de si, Luís Filipe Vieira falou à "BTV" ainda dentro do pavilhão, já com o seu voto guardado por uma urna. E o homem de uma liderança do Benfica que teve infância, adolescência e espreitou a idade adulta proferiu a primeira reação depois do fim dos seus 18 anos à frente do clube para, resumindo, se defender.

A obra deixada

"Criei uma dimensão no Benfica incalculável, como ninguém pensava. Projetei o Benfica para o mundo onde já não estava projetada. Ainda não consegui acabar aquilo que pensei, todos sabem o que se passou comigo. O quero adiantar frontalmente isto a todos os benfiquistas: não lesei, nem nunca roubei o Benfica. Que fique claro a toda a gente.

Aquilo que se passou comigo ainda não imagino o que será, mas vou até às últimas consequências para recuperar a minha imagem e da minha família. O que se passou connosco é muito grave e nunca pensei que isto viesse acontecer na minha vida. Sei que sou perseguido, sinto-me como uma peça de caça em quem alguém quer dar um tiro, mas nunca vou permitir que façam isso a mim ou aos meus.

O primeiro objetivo conseguiram, que foi decapitar o Benfica, isso tenho a certeza que conseguiram. Sei para onde ia projetar o clube mais longe e acho que isso assustou muita gente. É preciso é acordar no dia seguinte, é a motivação que continuo a ter para me defender nesta fase. Um dia mais tarde saberemos o que vamos fazer. Uma coisa posso garantir a todos os benfiquistas: estarei sempre presente na altura em que seja próprio cá estar.

E quando achar que devo ter uma intervenção mais profunda, vou ter. Não vou esconder que tive desilusões com pessoas dentro do Benfica, depois da minha prisão e pela maneira como me trataram a seguir. Mas, de certeza, até ao final do ano ou em princípio de janeiro, irei falar para a família benfiquistas e dizer aquilo que sinto, ou aquilo que pensam que se passa comigo. Fui condenado na praça pública, mas não é na praça pública que sou condenado, tenho um lugar para me defender e continuar de cabeça bem erguida, porque é o que tenho.

"Nada fiz contra o Benfica"

Tive muitas manifestações [de apoio] de benfiquistas, tirando este sócio que, verbalmente [no pavilhão da Luz], me disse coisas que não deveria ter dito, mas, na rua, nunca ninguém me achincalhou, pelo contrário. Muita gente até pensaria que me iria candidatar, mas, neste momento, como deve imaginar, não iria desafiar a justiça. Sinto-me bem, não vou esconder, porque tenho a consciência completamente tranquila.

Nada fiz contra o Benfica e posso garantir a toda a gente que tudo o que disseram nos jornais é mentira. Não lesei o Benfica nenhuma vez, que fique claro isto. Mais grave, hoje [sábado] ouvi um senhor, um dirigente que passou por esta casa, deve estar mal informado. Nunca utilizei, nem algum dos meus familiares, alguma coisa do Benfica; se utilizei, foi um cartão de seguro de saúde, como qualquer funcionário tem. Se tinha, a minha mulher e o meu filho também... Não usufrui de carros.

Esse senhor é muito fala-barato, mendigou para vir para o Benfica. Nunca será, nem poderá ser, uma peça no Benfica. Como sabem, na minha gestão ouvia toda a gente, mas, como costumava dizer, quem decide sou eu. Os benfiquistas elegeram-me a mim e se vocês estão cá, é porque eu fui eleito. A democracia a mais neste clube faz mal e por não haver democracia, como as pessoas dizem, é que o Benfica cresceu desta maneira toda e devem orgulho que o clube nunca teve um património pago como tem hoje.

Hoje, mesmo que me queiram esquecer, não vão esquecer. Quem for à casa de banho, se sentar numa secretária, numa cadeira ou quem pisar um terreno tem que se lembrar de mim. Falta distinguir um homem, o Mário Dias [antigo dirigente dos dois primeiros mandatos de Vieira, falecido em novembro de 2020], porque, infelizmente, muitos benfiquistas parece que esqueceram o homem que deu tudo pelo Benfica. Quando pisar qualquer parte do Estádio do Luz, passarei por ele. Foi um dos mentores da construção e eu, em determinadas situações, dinamizei financiamento.

Hoje posso estar aqui a apreciar, independentemente desse senhor que agora passou aí, que é mais um demagogo do que outra coisa. Sinto um orgulho muito grande por todos os benfiquistas terem confiado em mim para desenvolver o Benfica até onde desenvolvi. Hoje o Benfica tem uma dimensão mundial que, pá, consolidada, em termos patrimoniais é o único que tem o que tem em Portugal. Hoje toda a gente tem gabinetes com ar condicionado para usufruir, coisas que durante muitos anos não beneficiei. Por isso, acho que projetei o Benfica.

E quero deixar outro alerta: eu saí e nunca ninguém sentiu que eu saí. Só foi possível porque profissionalizei o Benfica, que respondeu em todos os momentos. Não venham dizer que isto agora mudou, nada mudou, ninguém contribuiu para nada, foi a estrutura profissional que pôs o Benfica a funcionar. Orgulho-me muito de ninguém ter sentido a minha saída, é sinal de que fiz bem o meu trabalho.

Infelizmente, fui afastado por um processo do qual não tenho nada a ver com ele, seja da OPA, da Imosteps, dos empresários, nada tenho a ver com aquilo e irei provar que não tenho nada a ver com aquela brincadeira. Mas é assim a vida, olhe, dão-me a felicidade muito grande de os visitar e recordar situações que passei aqui".

A afluência às urnas

"Representa a dinâmica que há nos sócios em envolverem-se na realidade do Benfica e ajudaram a construir um Benfica mais forte e melhor. Acho que o Rui [Costa] merece essa hipótese de servir o Benfica, com essa dinâmica toda. Foi muito importante o apelo que fez ontem aos benfiquistas. É cada vez mais importante que os sócios tenham intervenção direta, não é organizados para votarem sempre para um lado, não, aqui as pessoas têm de ter liberdade para pensarem e, conscientemente, votarem.

De um lado, temos um homem que é benfiquista, que teve muito tempo e sabe perfeitamente para que lado o Benfica tem de caminhar e, do outro, temos um benfiquista que não passa de um demagogo".

O que espera para os próximos quatro anos?

"Que o Benfica continue no mesmo trajeto e tenha a mesma postura dos últimos 20 anos, é o que peço. O Rui sabe perfeitamente o que defendo para o Benfica. A única coisa que me deixa um bocado apreensivo é se o modelo de governance [gestão], isso é que, para mim, é preocupante".