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Benfica

Uma noite de sofrimento contra os bravos da Trofa

O Benfica derrotou (2-1), após prolongamento, o Trofense, na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal. Perante um conjunto da II Liga que deixou uma imagem de qualidade, lutando pela passagem até ao último suspiro, Everton e André Almeida marcaram os golos das "águias", que tiveram de suar muito para evitar uma eliminação precoce

Pedro Barata

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

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Os caminhos da Taça de Portugal levam ao cruzamento de realidades que, normalmente, se encontram, em quase tudo, separadas. Num desses duelos de mundos diferentes, o Trofense provou, frente ao Benfica, ser possível uma equipa da II Liga bater-se com honra, qualidade e coração durante 120 minutos, complicando muito a vida de um conjunto que, provavelmente, esperava uma noite tranquila nas vésperas de receber um colosso chamado Bayern Munique.

O Benfica está na 4.ª eliminatória da prova, mas precisou do prolongamento para bater, por 2-1, o Trofense. Num jogo muito bem disputado, com períodos de equilíbrio, a equipa de Jesus só pôde mesmo respirar de alívio após o apito final, visto que mesmo até ao fim do tempo extra esteve a sofrer para evitar uma surpresa ainda maior.

A Trofa não é terreno habituado a receber os grandes, mas não era reduto de boas memórias para o Benfica. Aqui, a 4 de janeiro de 2009, o Benfica de Quique Flores, com Maxi Pereira, Luisão, Rúben Amorim, Di María ou Aimar no onze , e David Luiz ou Cardozo no banco, foi surpreendido por 2-0 frente ao Trofense (Binya foi expulso, o que não terá sido assim tão surpreendente). Na única temporada da formação da Trofa na I Liga, também na Luz o Benfica não foi além de um empate, pelo que os precedentes aconselhavam prudência às "águia".

As rondas iniciais da Taça são, muitas vezes, uma espécie de programa novas oportunidades, com vários elementos menos utilizados a terem a chance de provar que merecem mais minutos. No Benfica, Helton fez o primeiro encontro da temporada, e Gil Dias, Meïté, Pizzi ou Gonçalo Ramos, que não eram titulares desde agosto, também alinharam de início. Mas a partida não estava desenhada para que habituais suplentes brilhassem.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

O desafio ainda estava na sua alvorada e já havia um homem a chamar a atenção de todos. E não vestia de vermelho. Bruno Almeida, de número 10 nas costas, pé esquerdo na bola e meias para baixo fazia jus, com a sua técnica, a todos os estereótipos sobre o criativo. Desde o apito inicial, Almeida quis ter a bola para explicar que o talento se esconde em muitos estádios de Portugal.

Nos primeiros 20 minutos, o Trofense, sob a batuta do seu número 10, esteve perto de marcar por duas vezes, sendo que Elias Achouri, irrequieto atacante que muito cedo substituiu o lesionado Diedhiou, chegou mesmo a colocar a bola no fundo da baliza de Helton, mas o golo foi anulado por posição irregular. O Trofense perdoou, mas o Benfica não.

Everton, internacional brasileiro e nome de créditos firmados do lado de lá do Atlântico, não tem tido vida fácil na Luz. As fintas e dribles que tão facilmente lhe saiam em Porto Alegre custam a aparecer na Europa. Mas, ao minuto 21, o "cebolinha" fletiu da esquerda para o meio, num movimento muito seu, e atirou, de pé direito, para o 1-0.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

Pouco depois de uma boa notícia, veio uma má para Jesus: Gil Dias, lesionado, teve de abandonar a partida, substituído por Lazaro. Mas, com 1-0 no marcador, o Benfica terminou o 1.º tempo sendo muito perigoso, aproveitando o arrojo do Trofense, que nunca se fechou atrás, para sair em velocidade e com espaços. No entanto, nem Everton, nem Gonçalo Ramos nem Taarabt conseguiram aumentar a vantagem.

Na bancada, Rui Costa, a viver o seu primeiro jogo após vencer as eleições, ia vendo a partida ao lado de um antigo profissional do golo, como foi João Tomás, o agora presidente da SAD do Trofense.

No recomeço da contenda, as lesões voltaram a trazer um dissabor para o treinador do Benfica. Lazaro, pouco depois de entrar, teve de abandonar o terreno de jogo por lesão, sendo substituído por Ferro, que realizou os primeiros minutos pelo clube esta temporada.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

A boa organização da equipa de Rui Duarte, que como futebolista foi um médio de qualidade que foi referência do Olhanense, ia contrastando com um Benfica com alguns laivos de displicência. Um passe falhado de calcanhar de Taarabt, que levou a um remate perigoso de Achouri, foi a gota de água para Jesus, que ao minuto 62 lançou na partida Yaremchuk, João Mário e Weigl. O técnico do Benfica não queria surpresas.

Mas as intenções de Jesus contrastavam com o entusiasmo e capacidade do Trofense. Em momento algum Achouri deixou de tentar desequilibrar, Henrique Pachu de ganhar duelos ou Bruno Almeida de aplicar o seu pé esquerdo para servir os homens da frente. E, ao minuto 80, chegou o momento que deixou o Trofense nas nuvens.

Pachu tirou a bola João Mário, numa rara perda de posse do médio português. Almeida abriu na esquerda e, após cruzamento largo de Tiago André, Henrique Pachu elevou-se mais alto, bateu Helton Leite e fez o 1-1 que levou a eliminatória para prolongamento. A igualdade foi, mais do que um prémio, um atestado à qualidade da exibição da equipa da casa.

No prolongamento, o Benfica demorou somente quatro minutos para marcar o tento da vitória. Aos 94, André Almeida, isolado por Weigl, fez o 2-1 que, mais do que um golo, foi um enorme suspiro de alívio para as "águias".

Ainda assim, havia um Trofense disposto a lutar até final. Andrezinho, o miúdo que em tempos Paulo Fonseca lançou juntamente com Diogo Jota na equipa principal do Paços de Ferreira, representou bem o esforço final dos locais. Saído do banco, o médio não parou de tentar aproximar a equipa de Helton Leite com uma qualidade que, por vezes, pensamos não existir na II Liga.

Cumprindo-se a lei do mais forte, o Benfica está na próxima eliminatória. Mas há muitas maneiras de ganhar e perder, e dizer que o Trofense saiu derrotado hoje talvez não seja inteiramente certo. A equipa de Rui Duarte pode ter caído, mas fê-lo de pé. O desgaste final dos jogadores do Benfica, que acabaram o jogo a pedir assistência médica, evidencia como uma equipa de Liga dos Campeões teve de suar para levar um triunfo da Trofa.