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Benfica

Uma coisa é perder no precipício, outra é ser atropelado

Aos 0-4 de há duas semanas, em Lisboa, juntou-se o 5-2 em Munique, onde o Benfica foi novamente derrotado, mas onde jamais mostrou os laivos de taco-a-taco que conseguira ter, em alguns momentos, com o Bayern. A intensidade com que os alemães marraram sem piedade na equipa de Jorge Jesus foi agravada pela opção do treinador em abdicar de certos jogadores para não os perder nos jogos seguintes que, de facto, agora não poderá perder. Na Allianz Arena, acabou domado e derrotado

Diogo Pombo

DeFodi Images

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Para a tamanha grandiosidade que acolhe, com morada fixa, mais o arco-íris de opulência nos painéis que o pintam por fora, consoante as cores de quem estiver a jogar nesse dia, plantou-se a Allianz Arena estranhamente exilada de Munique, encostada a um pulmão verde a norte da cidade onde um estádio de futebol é o único ponto de interesse que se avista bastante à distância, tal o mamute de construção enganador que é, caso se ponha o pé lá dentro.

O magnânimo que parece por fora transforma-se em encaixotamento propositado no interior, as bancadas do estádio do Bayern parecem precipitar-se sobre e contra o relvado como é suposto pelos títulos, pelo dinheiro e pelos jogadores que tem, a equipa fazer no relvado contra quem tiver de ser. Um precipício que assola, intimida até, é a arquitetura ao serviço de uma intenção que até chega à cara de Jorge Jesus, sozinho e de mãos embolsadas no casaco, quando desce a escadaria que dá acesso ao campo.

É um treinador com face de consequência na face de uma inevitabilidade.

Escolhe abdicar de Otamendi, Weigl e Rafa por estarem a um amarelo de os perder à força por um jogo e em cada há um jogador nuclear para cada setor, uma dentada dada na equipa que até quase conta os primeiros cinco minutos no estádio como uma palmada no próprio peito feito. O Benfica não quer a bola, exige-a, encosta os seus à área do Bayern para pressionar e tem-na para rodar passes e ter Everton a cruzar para um duplo remate de Pizzi, também bloqueado a dobrar. A equipa ousava contrariar a previsão de calamidade e conseguia-o.

Bastou, contudo, o primeiro passe descaradamente errado (de Morato) para os alemães tombarem contra a metade do campo do Benfica e o inclinarem, todo o peso figurado e literal do lugar desequilibrava a balança de relva para o Bayern. Logo aí (6’), Kingsley Coman dilacerou a figura de Grimaldo e cruzou rasteiro para Gnabry retirar a parada com que Vlachodimos adiou o apenas adiável, mas muito dificilmente evitável, como o primeira colisão, em Lisboa, o atestara — embora de forma diferente.

Porque o 4-0 que já lá vai foi numericamente feito nos últimos 20 minutos, mas, em Munique, as duas dezenas inaugurais do tempo de jogo foram de resistir-como-der do Benfica, não de contrariar as forças dos outros com a matreirice das fortalezas próprias, vista há duas semanas. Não na Alemanha, onde o enfraquecimento da equipa por opção de Jesus foi acentuado pelo conforto de uma equipa viciada algo mais do que dominar. O Bayern é agarrado à hipótese de despedaçar quem o defrontar.

Os possíveis esperneares com vida do Benfica foram logo abafados pela acrobacia de remate de Goretzka (11’) à entrada da área, muito populada pelos germânicos para reclamarem segundas bolas; pela bomba disparada por Alphonso Davies à distância (19’), no fim da reciclagem da bola após um canto; pelo pontapé de Pavard, um de cinco ou seis que o Bayern sempre fazia chegar à área em qualquer ataque, no mesmo minuto. Foram remates de quase golo entre mais de uma dezena de ameaças de um compressor de futebol que não soluçava como em Portugal.

O atrevimento inicial do Benfica em ter os jogadores a morderem cada receção de bola dos adversários, a campo inteiro, minguou com as reincidentes passes que o Bayern acumulava nas costas de Grimaldo. A corrida pelo ouro dos alemães era terem Coman a desmontar o espanhol com simulações várias e, assim que o adversário se encurtou nas intenções para tentar ter alguém a dar cobertura ao aflito lateral, os seus médios ganharam tempo com a bola de frente para a baliza, no meio-campo do Benfica.

Deixar a eficiência sem malabarismos de Kimmich a ditar o onde e o como das jogadas com segundos para decidir o quê foi agigantando as jogadas do Bayern, que iam de um lado ao outro do campo sem portagens ou descobriam Sané, paciente, à espera nas costas de João Mário e Meïté. Um português era engolido por cercos imediato nas batatas quentes que lhe chegavam aos pés e o francês, pelo que é e pelo estilo de esperar que alguém encoste nele para só depois tentar livrar-se de um problema, roçava a irrelevância com bola.

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A relevância do Benfica a atacar resumiu-se a um livre jesusesco, onde um jogador toca ao de leve na bola para outro lha passar logo para ser cruzada enquanto os adversários se estão a ajustar à ocorrência. João Mário levantou-a para a área e a cabeça de Morato elevou-se (38’) para o pingo de chuva no deserto (antes, um canto deu-lhe um golo anulado por fora-de-jogo). Era o 2-1 antes de Vlachodimos não deixar que o prejuízo engordasse uma e outra vez, a última das vezes um penálti em que evitou mexer-se e dar a Lewandowski a pista que o polaco desejava.

Mas os aguaceiros da precipitação a potes dos alemães continuariam, melhor, acentuar-se-iam porque o Bayern é o Bayern igualmente por querer banquetear-se na fragilidade dos outros mal a fareja ao de leve e forçou, ainda mais, o encolhimento do Benfica junto à própria área durante a segunda parte.

Tinha a seu favor várias forças e sobretudo uma encapsulada por um lance ocorrido ainda antes do intervalo. Na ressaca de um canto, Pizzi estava esquecido antes da linha do meio-campo e um passe entrou para o português correr com a bola e expor o que estruturalmente é imperdoável em qualquer equipa — não deixar, à cautela, mais números atrás do que o adversário. E o português corria em direção à baliza, quando, nem três segundos depois, foi apanhado e desarmado tranquilamente por Davies e Sané. Os mundos de qualidade a separar Benfica e Bayern numa curta jogada.

A esse desnível à partida que é a vida, é o futebol, quem recebeu em Portugal os alemães com parcos instantes de taco-a-taco prosseguiu com as dúvidas fatais em Munique, tanto querendo pressionar os centrais alemães como a logo afundar os alas na linha defensiva e os extremos nas bordas dos médios à mínima posse de bola germânica. E o Bayern encadeou a sua intensidade em cada vez mais momentos consecutivos.

Ao 3-1 de Sané feito na conclusão de uma jogada ida de um lado ao outro do campo (49’) seguiu-se a vertiginosa reação do mesmo alemão, galopando com a bola perdida por João Mário até soltar na corrida de Lewandowki área dentro, cuja classe picou (61’) o 4-1 por cima do corpo de Vlachodimos. O Benfica não se afundava pelos golos, mas pela berrante evidência com que a intensa forma como o Bayern rodeava os seus jogadores a cada esperança que tinham com bolas recuperadas e, depois, insistia em carregar a última linha sempre com, pelo menos, dois futebolistas a desmarcarem-se por ela dentro em simultâneo.

Toda a máquina alemã se intensificava com o tempo e não o contrário, que é costumeiro no futebol. O Bayern desacelerou nunca, queria era martelar o adversário sem piedade e só com a dó de temer algum sentimento de ter faltado algo por dar, isso notou-se no perigo máximo visto nos remates de Sané, Coman, Goretzka e Gnabry que marraram contra a fortuna do Benfica, porque o desamparo com que muitas vezes deixou a sua linha defensiva só não seria atenuado por Vlachodimos uma outra vez.

TOBIAS SCHWARZ/Getty

Após uma bola parada que seria aliviada para Neuer, o tipo para cujo pé direito é uma injustiça estar cingido à baliza alongou um passe para Lewandowski o receber no costado de uma defensiva esquecida e, por isso, castigada (84’) com o 5-2. Porque já havia uma redução feita, pouco antes, ao prejuízo, quando este já fora dado mais perdido do que à partida e o acautelamento que sentara Rara sumira e o extremo devolveu a João Mário a bola por este intercetada.

O médio livrar-se-ia do Upamecano que engoliu primeiro Yaremchuk, depois Darwin — em todas as bolas arremessadas para a opção mais distante, quase em desespero e confiando de que um avançado solitário susteria três centrais corpulentos — com um auto-passe, foi correndo com a bola e esperou, esperou e esperou mais um pouco até fixar todas as atenções em si e garantir que ninguém chegaria a tempo importunar o remate (72’) do avançado uruguaio.

O Benfica foi quintuplicadamente goleado pelo Bayern que tem 70 golos feitos em 17 jogos esta época e marcou-lhe dois. Em algarismos, é uma distância avistada a olho nu, que pode enganar; em futebol jogada e visto, é um fundo precipício entre duas equipas ainda mais escavado pela preferência assumida por um treinador em tentar reduzir outros fossos, talvez mais exequíveis.

Mas, perdendo onde choca ninguém que se perca, também há sistemas solares de diferença entre perder deixando um rasto de capacidade na memória, como em Lisboa, e ser derrotado sem ter um tímido momento em que chegou a parecer ser possível discutir o resultado, mesmo que não o jogo jogado, contra um adversário que empenha várias bazucas quando do lado de cá só se tem pistolas e poucas metralhadoras. Uma coisa é perder, outra é ser atropelado.