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Benfica

Os 400 golpes

Esteve complicada a passagem do Benfica aos oitavos de final da Taça de Portugal. O Paços de Ferreira esteve a ganhar até aos 78’, mas as mudanças em campo e o génio de Grimaldo deram o tiro de partida para a completa viragem da eliminatória, com a equipa da casa a ganhar por 4-1 em novas vagas de ataque e no dia em que Jorge Jesus completou quatro centenas de jogos no banco dos encarnados

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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Com a mesma certeza com que Antoine Doinel parece olhar para nós, quebrando a quarta parede, naquela fuga rumo à praia, Grimaldo também olhou para a bola, decidido, e transformou um livre direto que tinha tudo para ser um cruzamento num golaço que tudo mudou. Estávamos ao minuto 78’, o Benfica perdia na Luz frente ao Paços de Ferreira e a passagem aos oitavos de final estava em risco, no que se encaminhava para ser um amargo jogo 400 de Jorge Jesus no banco dos encarnados.

Mas se no final de “Os 400 golpes” não sabemos exatamente o que acontece ao miúdo Doinel, aqui sabemos bem o que se seguiu. A partir daí o Paços quebrou, depois de uma 2.ª parte de grande organização defensiva, e o Benfica em pouco mais de 12 minutos marcou mais três golos, como se todo o poderio atacante dos encarnados se tivesse guardado para o momento em que alguém desbloqueasse o caminho, as cabeças. E o desbloqueador foi aquele remate forte e colocado de Grimaldo, um pontapé em forma de arte do lateral espanhol.

Até aí o Paços, mesmo remetido às suas trincheiras, não tinha perdido do controlo. Na primeira parte, tinha valido aos pacences Vekic, mais um bom guarda-redes esloveno vindo dessa terra onde os bons guarda-redes parecem tão comuns quanto grãos de areia numa praia. Foi ele que tirou o golo a André Almeida aos 28’, após um cruzamento esquisito mas traiçoeiro do lateral-esta-noite-central do Benfica, foi ele que impediu Everton de marcar aos 42’, depois de uma combinação cirúrgica com Rafa. E antes disso já Darwin tinha falhado frente ao esloveno e Rafa tinha feito um painel de publicidade a uma rent a car sofrer após enviar um pontapé forte ao poste - ao Benfica não faltaram oportunidades, mas parecia faltar a cabeça fria.

Gualter Fatia/Getty

O início da 2.ª parte começou praticamente com o golo do Paços que, apesar de todas as oportunidades da equipa da casa na 1.ª parte, nunca deixou de procurar a baliza encarnada, rondando também os terrenos mais adiantados. Porque Taça é Taça e na Taça mais vale arriscar. Aos 52’, Lucas Silva aproveitou a falta de ritmo de Lazaro, acabado de entrar para o lugar do lesionado Radonjic, voou pela esquerda e cruzou para a área. O corte defeituoso de Vertonghen encontrou Nuno Santos na marca de pénalti e o pé esquerdo do jogador curiosamente emprestado pelo Benfica ao Paços fez o resto. Houve um pedido de desculpas para a bancada, mas face à dinâmica do encontro, o golo não era escandaloso.

A partir daí o Benfica tomou conta do jogo, Jesus arriscou num 4x2x3x1, fez entrar Pizzi e Taarabt, mais tarde Seferovic, que não jogava desde agosto, mas a equipa demorou a adaptar-se ao novo sistema. E até aos 15 minutos finais, a única oportunidade flagrante seria um cabeceamento/tentativa de chapéu de Darwin, uma combinação improvável mas que quase resultava, com o uruguaio a ver bem a saída algo extemporânea de Vekic, a quem valeu a barra.

A pressão constante dos encarnados só se transformou em eficácia depois do empate de Grimaldo, numa bola parada. E a partir daí, como Antoine Doinel a fugir daquele reformatório para rapazes travessos, nunca mais olhou para trás e o ataque veio em novas vagas: Seferovic fez a reviravolta aos 82’, um belo cabeceamento a responder a um tão ou mais bonito passe de Taarabt, Rafa aumentou a conta aos 87’, num remate à entrada da área e já nos descontos foi Everton a colocar o resultado num talvez demasiado duro para o Paços 4-1, atirando com classe já dentro da área, servido por Seferovic.

Esteve complicada a passagem aos oitavos de final, mas bastou um momento, um tiro mágico de Grimaldo para o Benfica se encontrar e seguir em frente na Taça de Portugal. Um golpe glorioso, no dia dos 400 golpes de Jesus.