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A história ficou a centímetros, o sonho dos milhões espera pela ajuda alemã

O Benfica empatou (0-0) em Barcelona, um resultado que obriga a que as "águias", para passarem a fase de grupos, tenham de derrotar o Dínamo Kiev e aguardar que os catalães não vençam, em Munique, o Bayern. A equipa de Jesus teve a vitória na mão praticamente no último lance da partida, quando Seferovic desperdiçou uma flagrante ocasião de golo, mas antes disso o Barça criou mais perigo, valendo uma exibição imperial de Otamendi para manter o nulo

Pedro Barata

Alex Caparros/Getty

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O período de descontos assemelha-se, muitas vezes, a uma distorção da realidade, a uma falta de correspondência entre o tempo do relógio e o tempo das nossas cabeças. Segundo o cenário, consoante o resultado, os minutos entre o levantar da placa pelo quarto árbitro e o apito final podem parecer um suspiro ou uma eternidade. Quando o período de descontos começou em Camp Nou, dava a sensação de que, para o Benfica, ainda faltava demasiado tempo para a partida terminar.

O Barcelona atacava com entusiasmo renovado desde a entrada de Dembélé, com o golo anulado a Ronald Araujo como sério aviso. Otamendi evitava o golo ao extremo francês com um corte in extremis e Piqué cabeceava perto do poste direito da baliza de Vlachodimos. O empate, que mantinha as "águias" com hipóteses de passar à fase seguinte, parecia um importante tesouro a ser guardado.

Até que o tempo e o espaço voltaram a pregar-nos partidas e, subitamente, apanharam desprevenido o Barcelona, oferecendo a Darwin e Seferovic um contra-ataque com um latifúndio de relvado com pouca presença catalã, como se fosse um tapete verde a separá-los de uma vitória histórica num dos principais templos do futebol mundial.

O uruguaio aceitou o desafio, conduziu a bola e deu-a a Seferovic. O suíço, que vive uma vida entre golos marcados e oportunidades desperdiçadas, deu a ideia de finalizar a medo, mas a sorte, em forma de ressalto, deu-lhe uma segunda oportunidade para ser feliz. Só que Seferovic pareceu agarrar-se à sua condição de jogador mal-amado, rejeitando entrar para a história do Benfica como o herói de Camp Nou.

Com tudo para marcar, atirou ao lado. Jesus ajoelhou-se, recordando outros tempos. O 0-0 que tudo adia para a última jornada estava selado.

LLUIS GENE/Getty

O relato da noite chuvosa da Catalunha tem de começar pelo fim, tal foi a dimensão da chance de Seferovic encontrar-se com os livros de glória do Benfica. Mas, antes disso, a equipa de Jorge Jesus - que já garantiu a continuidade nas competições internacionais esta temporada, dado que o empate assegura, pelo menos, a repescagem para a Liga Europa - pareceu satisfeita com um ponto que tudo adia para a última jornada do grupo E.

O começo do embate trouxe um Barcelona de controlo, valorizando a posse tal como o seu novo treinador, Xavi, gosta que seja feito. Sem muita gente capaz de desequilibrar, os catalães apostaram numa série de médios (Busquets, Nico, Gavi e De Jong) capazes de circular a bola e tirá-la das zonas de pressão.

Nos primeiros 30 minutos, o controlo culé não se traduziu em muitas ocasiões de perigo para uma equipa carente de magia no último terço, como se vê pelos dois tentos apontados em cinco jornadas de Champions. Ainda assim, Demir e Jordi Alba obrigaram Vlachodimos a defesas apertadas.

Se falamos em controlo do Barcelona, é importante valorizar a exibição do mais velho do meio-campo catalão. Entre a turma de ensino secundário que parece formada por nomes como Gavi (17 anos) ou Nico (19) emerge a figura de Busquets. Numa partida sem golos, cada rotação, receção orientada ou passe filtrado do capitão da equipa da casa merecia um coro de admiração do público, num grito em uníssono que misturava espanto e assombro por tamanha junção de inteligência, técnica e sapiência futebolística.

Quality Sport Images/Getty

Na parte final do primeiro tempo, o Barcelona perdeu alguma fluidez, em parte porque os médios deixaram de fazer movimentações de rotura que incomodassem o Benfica, que foi estabilizando o seu bloco defensivo. E surgiram as oportunidades de golo para os visitantes.

Yaremchuk prolongou o seu divórcio com as balizas, que com a camisola do Benfica dura desde 25 de setembro, podendo atribuir culpas a Ter Stegen, capaz de defender um cabeceamento do ucraniano dentro da área. Logo a seguir, Otamendi conseguiu bater o guardião germânico, mas o tento do argentino foi anulado porque o árbitro considerou que o canto de Everton havia ultrapassado a linha de fundo.

O intervalo chegou na sequência da melhor ocasião de golo da etapa inicial, num grande remate de Demir - outro adolescente de 18 anos - que foi à barra da baliza do Benfica. As equipas regressaram aos balneários com a sensação de que os homens de Xavi esperavam por um momento de desequilíbrio ou inspiração que não surgia, ao passo que os de Jesus pareciam contentes com esperar que o desfecho do grupo se arrastasse para a última jornada.

O começo da segunda parte acentuou a sensação de bloqueio, que quando parecia desaparecer era imediatamente cortada por um Otamendi intransponível. Era a altura na qual os bancos poderiam mudar o curso dos acontecimentos. Xavi recorreu a Dembélé para ganhar drible e excitar as bancadas de Camp Nou, Jesus lançou Darwin para atacar as costas da defesa do Barça e recordar pesadelos de setembro a Piqué e companhia.

O uruguaio não tardou a ameaçar a baliza de Ter Stegen, mas o passar dos minutos levou a um encolher do Benfica. Sempre que Dembélé recebia aberto na direita, o público gritava e as "águias" assustavam-se. Aos 67', um centro do francês encontrou De Jong, que obrigou Vlachodimos a relembrar-nos que, desde antes da fase de grupos, tem sido um dos mais decisivos elementos da equipa nesta Champions.

O tempo esgotava-se. Apesar do empate levar os culés para a última jornada em 2.º, a acumulação de homens do Barça na frente de ataque - nem sempre com o melhor critério - e, em sentido oposto, a gestão de jogo que era feita pelos visitantes evidenciava quem estava mais inconformado com o empate.

Quality Sport Images/Getty

Poucos segundos depois do minuto 90, mais um passe com coordenadas incorporadas de Busquets encontrou a velocidade de Dembélé. O francês preparava-se para se isolar perante Vlachodimos, mas um argentino com o corpo repleto de tatuagens lançou-se ao chão para, no momento certo, limpar o perigo e selar uma grande exibição. A partida de Otamendi em Camp Nou, terreno onde o central se desdobrou em cortes e gestos de liderança, entra na história recente das noites europeias do Benfica.

Como também entra o lance de Seferovic, pouco depois de Otamendi ter evitado o golo de Dembélé. Mas o suíço não o conseguiu fazer pelas melhores razões. Os centímetros que fizeram com que aquele remate feito praticamente com a sola do pé, com Ter Stegen batido, passasse ao lado da baliza vão-se tornar em quilómetros de pesadelos na cabeça do avançado.

Para estar, pela primeira vez desde 2016/17, nos oitavos-de-final da Champions, o Benfica terá de ganhar ao Dínamo Kiev, em casa, e esperar que o Barcelona não vença em Munique. No templo de Camp Nou, casa de um gigante que procura voltar a acordar sob a batuta de uma lenda, escassos centímetros separaram as "águias" da vitória, mas durante a maior parte de tempo a equipa pareceu conformar-se com esperar que, na última jornada, surja uma ajuda alemã rumo ao sonho dos milhões.