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“Fui levado de maca, não conseguia mexer o ombro e tinha pontos no sobrolho. Arrisquei, mas correu bem”

Há odisseias de superação a gravitar a história da Volta a Portugal, protagonizadas por fugitivos do pelotão do anonimato, sobre-humanos a trepar a montanha dos heróis. Na luta pela amarela, andam sempre no vermelho. O ciclista Rui Vinhas, da equipa W52 - FC Porto, vencedor da Volta a Portugal em 2016, é um desses homens, que uma bicicleta derrubada elevou. A missão, este ano, passava por trabalhar para os chefes de fila, até embater num carro, durante a quinta etapa. Com o ombro deslocado e o sobrolho rasgado, Vinhas manteve a perseverança, intocável sob as escoriações em todo o corpo. Baixinho e leve, lavado em lágrimas, suportou, como um gigante, o enorme peso da dor durante os 120 quilómetros restantes da ligação entre Sabugal e Viseu. Os médicos lembraram-lhe o que aconteceu com Joaquim Agostinho. Os colegas, em choque, pediram-lhe para desistir. Nada o travou. Vinhas continuou. Até ao fim. Tudo para ajudar o “irmão” Raúl Alarcón a conquistar, pelo segundo ano consecutivo, a prova-rainha portuguesa da modalidade

André Manuel Correia e Rui Duarte Silva

rui duarte silva

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Como está a correr a recuperação?
Está tudo a correr bem, tirando as dores que tenho no ombro. A médica mandou-me repetir os exames. A luxação demora algum tempo a recuperar, mas as escoriações estão a sarar e na próxima semana já estarão resolvidas.

Quanto tempo para recuperar a pedalada e regressar aos treinos?
Consegui ir para a estrada na terça-feira, com bastante sofrimento, para ver como me sentia. Espero estar a competir brevemente. Apesar do azar, é muito importante ter força de vontade para conseguir ultrapassar estes percalços.

Quais eram, à partida, os objetivos individuais e os pedidos da equipa para esta Volta a Portugal?
Temos um grupo muito forte, e eu estou ali para cumprir as regras impostas pelo diretor [Nuno Ribeiro]. Sempre fui assim e faço tudo o que me pedem. Vou dar sempre o meu melhor para os meus colegas, mas não deixo de ter ambição. A minha função era trabalhar para a equipa, porque noutras ocasiões foram os meus colegas a puxar por mim. Tínhamos dois líderes, o Gustavo Veloso e o Raúl Alarcón, mas todos temos de estar a 100%, para dar resposta a qualquer situação de corrida. É um por todos e todos por um.

Durante as primeiras quatro etapas, tudo estava dentro do planeado? Sentia-se bem?
Sim, embora já tivesse perdido algum tempo, devido ao trabalho que fiz para o Alarcón. Estava arredado da luta pela classificação geral, mas disponível para trabalhar e em boas condições.

A quinta etapa, entre Sabugal e Viseu, acabaria por mudar tudo... Como foram os quilómetros iniciais?
A etapa ia bastante rápida. Toda a gente queria ir para a fuga, mas estávamos a controlar o ritmo. Sentia-me bem. Tinha perguntado ao Nuno Ribeiro o que deveríamos fazer, porque a corrida exigia mudanças táticas. Disse-me para termos calma, para continuarmos a fazer o mesmo trabalho. É tudo o que me lembro até embater no carro e perder os sentidos.

Teve oportunidade de ver as imagens do acidente?
Não vi muito, até porque, a cada dia que passa, penso mais nisso. Quando me deito à noite, penso no quão grave foi. Quando o médico falou comigo, assustou-me bastante...

O que lhe disse ele?
Recordou-me o que aconteceu com o Joaquim Agostinho. Alertou-me que, caso me acontecesse alguma coisa, a equipa médica podia não conseguir fazer nada no momento. Disse-me que eu tinha de ter consciência disso. Pedi-lhe para me deixar seguir a prova. Ele não queria, mas eu pedi-lhe por favor e prometi-lhe que pararia caso tivesse algum sintoma mais grave.

Porque é que sentiu que não podia desistir?
Os meus colegas precisavam de mim. Os bombeiros começaram a apertar-me na maca, para me levarem para o hospital. Desapertei tudo e pedi a bicicleta para seguir o mais rápido possível. O Alarcón precisava de mim. Tive de me responsabilizar, assim como o diretor de equipa, por alguma coisa que acontecesse. Não conseguia movimentar o meu ombro esquerdo. Tinha bastantes dores e um corte no sobrolho, onde tive de ser suturado. Foi um risco enorme, mas correu tudo bem.

O que lhe passou pela cabeça durante os intermináveis 120 quilómetros até cortar a meta?
Fiz aquele percurso muito calado. Só pensava no meu filho, prestes a fazer 2 anos. É tudo para mim. Já tive muitas vitórias importantes, mas o meu pequeno Pedro está acima de qualquer conquista. Chorei bastante em cima da bicicleta. Os meus colegas, quando me viram, ficaram em choque. Notava isso no rosto deles. O Raúl Alarcón — que é como um irmão — ficou em lágrimas. Quis esperar por mim e empurrou-me em vários momentos.

Foi a maior prova de superação de toda a sua carreira desportiva?
Quando cheguei ao Hospital de Viseu, os médicos disseram que eu era maluco [risos]. Mas nós, ciclistas, estamos habituados a lidar com a dor. É um capítulo da minha carreira que vai ficar guardado para sempre. Esta Volta tem mais valor do que aquela que conquistei em 2016. Espero ter marcado a mentalidade de muitas pessoas e servir de exemplo. Não foi uma vitória individual, mas foi uma vitória coletiva. Foi muito bonito ver o Alarcón vencer a camisola amarela. Somos bastante amigos, ele viveu em minha casa quando veio para Portugal. Sinto um orgulho enorme nele.

Contava receber o apoio de Pinto da Costa? Foi importante?
Apareceu no hotel, no dia de descanso, depois de uma noite em que não consegui dormir devido às dores. Levantei-me cedo, porque estava cheio de fome. Quando me apercebi, ele entrou, descontraído, pela porta dentro. Arrepiei-me todo. Deu-me um abraço, sentou-se ao pé de mim a tomar o pequeno-almoço e incentivou-me. Disse-me que sou muito humilde, mas ele não fica nada atrás. Durante o contrarrelógio final, em Fafe, sabendo que eu não estava na luta por nada, pediu para ir no meu carro de apoio. Não é todos os dias que se vê um presidente assim.

Naquele dia de descanso, o que lhe disseram as pessoas mais próximas?
Toda a gente me pediu para ter cuidado. O Raúl Alarcón disse-me que, da maneira que eu estava, era melhor desistir. Garanti-lhe que não o iria fazer. Estava ali para o ajudar e recusava-me a baixar os braços. Os meus colegas estavam incrédulos, porque não compreendiam como eu era capaz de continuar. Isso mexeu muito com o grupo. Todos deram ainda mais de si depois de me verem naquele estado.

Como foi superar metade da competição num estado tão debilitado?
A chegada a Viana do Castelo foi muito complicada, por ser bastante rápida e muito técnica. Eu vinha sempre na cauda do pelotão e sofri bastante nesse dia.

E, no penúltimo dia, ainda houve a subida à Senhora da Graça...
Foi bastante dura. Puxei sozinho os primeiros 90 quilómetros, até que outras equipas quiseram acelerar e eu abdiquei. Fiquei para trás, num grupo mais reduzido, mas o importante foi ter conseguido terminar. O sofrimento foi muito grande, mas a euforia, a ansiedade e a adrenalina eram de tal ordem que eu acabava por nem sentir tanto a dor.

Os medicamentos ajudaram? O que é que lhe foi receitado?
Estava medicado com analgésicos, anti-inflamatórios e comprimidos para dormir. Foram-me receitados antibióticos, mas não os cheguei a tomar, por afetarem o rendimento físico. Também não podemos abusar nos fármacos, porque passamos por muitos controlos antidoping.

Qual foi a sensação ao concluir o contrarrelógio em Fafe?
Estava bastante preocupado à partida. Nem coragem tive para ver o contrarrelógio do Raúl Alarcón pela televisão. Quando percebi que a Volta já estava ganha, fiquei bastante contente por ele e muito orgulhoso por aquilo que fiz. Valeu a pena todo o sofrimento que passei.

Aos 31 anos, depois deste susto, que metas ainda estão por alcançar?
Ir para o estrangeiro já é um pouco complicado. O meu maior objetivo é ser campeão nacional de estrada, por ser um título que marca uma carreira. Fui vice-campeão no ano passado, faltou um bocadinho. E gostava de tornar a estar na disputa por outra Volta a Portugal.