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Lance Armstrong: “É um milagre eu não ser um assassino em massa”

Documentário da ESPN mostra um Lance pouco arrependido, escorregadio nas respostas e a não gostar de usar a primeira pessoa do singular para falar dos erros que cometeu

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Jasper Juinen

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Nas primeiras imagens de Lance, o documentário que a ESPN fez sobre o ciclista, pode ouvir-se-lhe dizer: “É um milagre eu não ser um assassino em massa”. É uma reflexão de Armstrong sobre a forma displicente como foi educado pela mãe, Linda.

Nos 10 minutos seguintes, a realizadora Marina Zenovich mostra-nos uma série de recordações que fazem com que a afirmação seja de certa forma compreensível. O padrasto de Lance, Terry Amstrong, não tem dúvidas: “Ele não seria o campeão que é hoje sem mim, porque eu orientei-o. Orientei-o como um animal”. Segundo Lance, eram constantes as agressões da parte do padrasto.

A violência ocasional, o desrespeito pelas regras e pelos sentimentos dos outros chegaram cedo à vida de Lance Armstrong. Desde o nascimento que a insensibilidade lhe foi incentivada como uma boa moral.

Nas quatro horas divididas em episódios, a realizadora convida-nos a concluir sobre a ambição e a violência e a fragilidade da moral. Até certo ponto, a explicação acerca da estruturação de Armstrong desde pequeno serve de desculpa para o que se seguiu. O ex-ciclista parece satisfeito por poder agarrar-se a esse alibi.

Foram oito entrevistas conduzidas por Zenovich, entre março de 2018 e agosto de 2019, para falar da infância e do campeonato do mundo de ciclismo ganho aos 21 anos, do cancro, da primeira experiência com cortisona e hormonas, as sete vitórias consecutivas na Volta a França, as acusações de doping e o fim da carreira, em 2013, depois de Armstrong admitir o uso de drogas a vários níveis.

Armstrong aparece no ecrã com várias caras e atitudes: combativo, defensivo, distraído e incansável. Segundo um crítico do jornal “The Guardian”, o que não vemos é “remorso ou autocrítica”. “A única forma de te dopares e seres honesto é se ninguém te fizer perguntas, o que não é realista. Quando te perguntam, mentes. Todos mentimos”, afirma Lance, evitando falar na primeira pessoa do singular. O doping, diz Armstrong, “estava enraizado no desporto, antes de eu lá chegar vindo de Plano, Texas”.

Nos anos noventa, Armstrong trabalhou com o conhecido “médico das drogas” Michele Ferrari. “Os benefícios eram tão grandes. O desporto foi do doping básico, que sempre existiu, para este combustível carregado de octanas. Essa foi a decisão que tivemos de tomar.” Uma decisão coletiva, portanto, mais fácil de aceitar.

Depois de passar pelo cancro, Armstrong criou a Livestrong, uma fundação para ajudar a combater a doença. Por diversas vezes acusado de usar a organização como “escudo” para se proteger das acusações de doping, Lance diz que isso é “injusto” mas mantém: “apesar de eu ter usado ocasionalmente o cancro como escudo”.

Apesar de todas as explicações dadas, há uma falta de arrependimento gritante nas declarações de Lance Armstrong. “Eu não mudaria nada,” diz a Zenovich. E mesmo o ódio confundido com competição parece ainda estar lá quando refere que antigos rivais que agora se cumprimentam amigavelmente são “fracos”.

Lance, o documentário, é um estudo sobre a corrupção.