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O dia em que a INEOS salvou um bocadinho o seu Tour

No final em La Roche-sur-Foron, dois INEOS surgiram sozinhos para discutir a vitória na 18.ª etapa. E como Richard Carapaz já tinha o consolo de estar à frente na classificação da montanha, Michal Kwiatkowski foi recompensado pelo trabalho de equipa. No meio do tudo o que correu mal à INEOS neste Tour, esta chegada salvou um pouco a cara à equipa britânica

Lídia Paralta Gomes

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/Getty

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Depois de perder o seu líder, o ainda campeão em título Egan Bernal, o objetivo da INEOS neste Tour passou a ser bem mais modesto, algo a que super-equipa britânica não está exatamente habituada. Mas pela terceira etapa seguida, Richard Carapaz, o mais capaz dos INEOS na montanha, meteu-se na fuga do dia, sabendo que a 18.ª tirada seria provavelmente a última antes de Paris em que poderia tentar uma vitória, fraco consolo para uma equipa que vinha para a Volta a França para vencer, mas ainda assim melhor que sair de mãos a abanar.

Consigo, num largo grupo que se formou logo nos primeiros quilómetros da etapa que saiu de Méribel, Carapaz levou o colega de equipa Michal Kwiatkowski, polaco de 30 anos com aura de veterano, porque parece que já anda nisto do ciclismo há uma eternidade. Campeão do Mundo em 2014 e vencedor da Volta ao Algarve em 2014 e 2018, Kwiatkowski é um desses aguadeiros de luxo que não se importa de levar às costas todos os campeões que a Sky, agora INEOS, têm na sua primeira linha. E desta vez também foi ele a estar ao lado do equatoriano ao longo das cinco contagens de montanha com que os ciclistas se depararam até La Roche-sur-Foron.

Pelo caminho, Carapaz foi amealhando pontos para a camisola da montanha, e na última contagem, uma categoria especial em Montée du plateau des Gliéres, já só eram eles os dois, Carapaz e o aguadeiro de luxo. Daí até final, numa imagem muito pouco vista nas grandes competições, os dois colegas seguiram juntos rumo à meta. Restava saber para quem ia a vitória: para Carapaz, que tanto tinha tentado, mas que já tinha a consolação de subir ao pódio com a camisola das bolinhas vermelhas? Ou para o polaco, tantas vezes na sombra nas grandes voltas, onde nunca havia ganhado uma etapa individual? A palmada nas costas de Carapaz a Kwiatkowski no último quilómetro deu a resposta: os dois chegariam abraçados à meta, o polaco ligeiramente à frente. A INEOS pode ter a arrogância das formações que tudo dominam, mas na hora das dificuldades, mostrou a humildade e a importância do trabalho de equipa.

E de uma só assentada, os britânicos salvaram um bocadinho o seu Tour: não só conseguiram a vitória na etapa como Carapaz fica bem lançado para ser o rei da montanha - o contrarrelógio de sábado, que termina com uma 1.ª categoria em La Planche des Belles Filles é o que separa o sul-americano do feito.

A 19.ª, apesar da irregularidade do terreno, poderá ser uma das últimas oportunidades para os sprinters brilharem: serão 166,5 km entre Bourg-en-Bresse e Champagnole, com uma contagem de montanha de 4.ª categoria a meio, que não deverá fazer grande mossa.