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Tadej Pogacar, o super-miúdo que fez o que ninguém fazia há mais de 100 anos. E que começou a ganhar em Portugal

Filho de pai desenhador de móveis e de mãe professora de francês, o esloveno de 21 anos tornou-se este domingo no 2.º vencedor mais jovem de sempre do Tour, só atrás de Henri Cornet, em 1904. Além disso, o ciclista da UAE Emirates, que até começou no futebol e que teve a sua primeira vitória como profissional na Volta ao Algarve, fez o que apenas Eddie Merckx conseguiu na história do Tour: levar para casa três camisolas. Um prodígio, uma das caras de uma geração de exceção

Lídia Paralta Gomes

Tim de Waele/Getty

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Nisto do ciclismo, já tendemos a falar quase sempre com pinças. E a culpa não é nossa, é mesmo dele - e ele que nos perdoe mas é mesmo assim. Porque muitos de nós já viram um bocadinho de tudo no Tour, desde ciclistas expulsos a meio da prova, ciclistas que desapareceram em plena corrida, até o herói, o maior de sempre, afinal era um trafulha, tudo confessado em pleno talk show norte-americano, para vergonha nossa, nós que trocámos incontáveis tarde de praia para ver o Capitão América montanha acima, ele e a sua história de superação.

Sabem o que é uma traição? Isso é uma traição e o ciclismo já nos traiu algumas vezes.

Estamos queimados, como gato escaldado, temos medo de um dia olharmos para as notícias e mais uma vez levarmos as mãos à cara, de embaraço por termos voltado a acreditar. Mas, nunca se esqueçam, em cada amante do ciclismo há um romântico e por isso aí vai: aquilo que Tadej Pogacar fez no sábado, naquele contrarrelógio entre Lure e La Planche des Belles Filles, não é um dos feitos desportivos do ano. É um dos feitos desportivos do século, um dos maiores momentos da história recente do centenário Tour.

Em 36,2 quilómetros, um miúdo de 21 anos, com ar de menos ainda, comeu os 57 segundos que tinha de atraso para o líder e vencedor antecipado Primoz Roglic, deu-lhe ainda outros 59, para se tornar no mais jovem vencedor do Tour desde 1904, quando um tal de Henri Cornet, a uns dias de completar 20 anos, ganhou a segunda edição da prova. Tudo isto na penúltima etapa, no derradeiro momento, numa Volta a França em que nem sequer partia como o líder absoluto da UAE Emirates, onde é colega de equipa de Rui Costa e dos gémeos Rui e Ivo Oliveira. Num Tour onde à etapa 7 perdeu inesperadamente mais de um minuto devido a uma mudança de direção do vento, que fragmentou o pelotão e deixou o esloveno sozinho, sem a proteção de uma equipa com quem raramente pôde contar - o suposto líder, Fabio Aru, sem andamento, desistiu cedo, e Davide Formolo caiu e teve de abandonar.

Depois desse infortúnio, Pogacar não mais parou: na etapa seguinte atacou e recuperou desde logo algum do tempo perdido. E venceu em Laruns e no Grand Colombier, antes do triunfo estratosférico no último contrarrelógio, que o catapultou para o topo da geral. E para lá da camisola amarela, ainda vai para casa como líder da juventude e rei da montanha, feito que só Eddie Merckx conseguiu nos seus dias, quando também na estreia no Tour, em 1969, venceu três classificações, geral, pontos e montanha - também teria ganhado a juventude se ela existisse na altura.

O esloveno de amarelo em Paris

O esloveno de amarelo em Paris

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/Getty

Fica mais fácil perceber a enormidade do feito de Tadej Pogacar quando se visita o site oficial deste puto, nascido há 21 anos (faz 22 na segunda-feira) perto de Komenda, uma vila bem no centro da Eslovénia. O primeiro que vemos é a sua frase de guerra: "Nunca deixar de tentar e nunca desistir". Mesmo com a corrida comprometida, Pogacar terá sido o único a nunca deixar de acreditar que era possível bater o compatriota Primoz Roglic, mais experiente, com uma super-equipa atrás, favorito número 1 desde o início à vitória no Tour, que em tempo algum pareceu possível escapar-lhe. Até àquele contrarrelógio final.

De Pogacar não se pode dizer que a vitória é uma surpresa. A surpresa é apenas ter acontecido tão cedo, mesmo que dele já estejamos à espera de recordes de precocidade. Ainda com 20 anos, tornou-se em 2019 no mais jovem vencedor de uma prova do World Tour, o Tour da Califórnia. Mas foi em Portugal que brilhou pela primeira vez: uns meses antes da vitória nos Estados Unidos, venceu pela primeira vez como profissional na Volta ao Algarve, que viria a conquistar no final. Ele que nem sequer estava na equipa inicial da UAE Emirates para a prova algarvia: foi chamado à última hora quando o diretor desportivo da equipa percebeu que um dos ciclistas estava fora de forma.

Os bons resultados ao longo do ano fizeram a equipa dos Emirados Árabes Unidos antecipar a chamada de Pogacar a uma grande volta e, logo na estreia, na Vuelta de 2019, o jovem não só terminou em 3.º lugar como venceu três etapas e a classificação da juventude. Na primeira participação no Tour, para onde vinha sem pressão e apenas com a ideia de aprender e ganhar experiência, conseguiu fazer ainda melhor.

Futebol como primeira paixão

Filho de um desenhador de móveis e de uma professora de francês, a primeira paixão de Tadej Pogacar nem sequer foi o ciclismo. O próprio conta numa pequena biografia no seu site oficial que o futebol foi o primeiro desporto que praticou. "Quando andava na escola primária, comecei a treinar na equipa de futebol de Komenda. Acho que também tinha muito talento para o futebol e continuo a gostar de jogar", diz o prodígio esloveno.

O ciclismo apareceu quando o seu irmão mais velho, Tilen, começou a correr numa equipa da capital, Ljubljana. Tadej quis desde logo seguir o irmão, mas a equipa não tinha bicicletas que se adaptassem à sua pequena figura. Aos 9 anos começou finalmente a treinar-se nas duas rodas e em pouco tempo já impressionava. Em declarações à revista "Procycling", Andrej Hauptman, esloveno que foi medalha de bronze nos Mundiais de 2001 e que é hoje um dos treinadores de Pogacar, revelou como conheceu o agora vencedor da Volta a França. "Era uma corrida de jovens e cheguei um pouco atrasado. A primeira coisa que vi foi um grande grupo de adolescentes a liderar e depois um miúdo, muito mais pequeno que os outros, uns 100 metros atrás, a tentar apanhá-los. Disse aos organizadores que deveriam fazer alguma coisa para que o miúdo voltasse a entrar no grupo e responderam-me: 'Não, estás a fazer confusão. Ele está à frente, já deu uma volta a toda a gente'. Esse miúdo era o Tadej".

Pogacar, campeão da Volta ao Algarve em 2019, a sua primeira vitória como profissional

Pogacar, campeão da Volta ao Algarve em 2019, a sua primeira vitória como profissional

Tim de Waele/Getty

Daí para cá, Hauptman tem sido um dos seus mentores e foi essencial na hora de assinar pela UAE Emirates. Quem o conhece, diz que é calmo e inteligente, corajoso e confiante, apesar de tímido. Um líder nato, apesar da tenra idade.

"Acho que um dos meus pontos fortes é saber como ler a corrida. Não gosto de me entusiasmar em demasia e atacar sem sentido. Prefiro ver o que os outros fazem e depois seguir a maré", disse Pogacar em entrevista à revista "Cyclist".

Na mesma publicação, Neil Stephens, diretor da UAE Emirates, sublinha a inteligência e a intuição natural do jovem esloveno. "Às vezes penso naquilo que lhe vou dizer para fazer na corrida pelo rádio e normalmente ele já tomou uma decisão e é a decisão correta", explica. Stephens diz ainda que se surpreende com a maturidade de Pogacar: "Não é normal. Ele é muito calmo, independente e reflete muito. Mas também sabe ouvir, seguir conselhos e ordens. Sabe fazê-lo sem nunca perder a sua iniciativa".

Numa modalidade em que o pico de forma muitas vezes não chega antes dos 30 anos, Tadej Pogacar é mais uma figura de uma jovem geração fenomenal que promete dominar o ciclismo nos próximos anos. Sucede como vencedor do Tour a Egan Bernal, colombiano de 23 anos que neste Tour acabou por desistir e terá, seguramente, duelos com Remco Evanepoel, belga de 20 anos, vencedor da Volta ao Algarve deste ano, neste momento a recuperar de um grave acidente na Volta à Lombardia.

E este Tour foi também o Tour dos jovens. Não foi apenas o Tour de Pogacar, mas também o Tour de Wout van Aert, vencedor de duas etapas e que fez 25 anos durante a prova. O Tour de Lennard Kamna, alemão de 24 anos, vencedor de uma etapa e um dos grande animadores nas fugas. De Marc Hirschi, de 22 anos, também ele vencedor de uma etapa e o super-combativo desta edição da Volta a França.

O futuro parece brilhante. E nós, como românticos que somos, queremos acreditar nele.