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A montanha não é maior do que João Almeida

Na primeira etapa montanhosa a sério, com quatro contagens e uma subida final com 14% de inclinação, o português pedalou sozinho durante muito tempo, foi o quarto mais rápido e conseguiu manter a camisola rosa para a terceira semana do Giro d'Itália

Diogo Pombo

Stuart Franklin/Getty

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Primeiro houve a montanha, depois chegou o homem, viria mais tarde a bicicleta para ele escalar a natureza com a invenção a duas rodas e, com isso, sofrer.

Porque fazê-las girar estrada acima, torneando a barriga montanhosa, exige rijeza e dureza de músculos, os quadriceps e os gemelos hirtos que nem pedra para locomoveram dois círculos de borracha em alcatrão planado sobre 14% de inclinação, imaginem então a rigidez de espírito do homem veio depois da montanha mas quer tomar-lhe o cume assim, a pedalar e a sofrer. Olhem para a cara de João Almeida.

O português contou quilómetros e quilómetros sozinho, a ter de puxar por ele próprio sem outrem que puxasse por si, solitário na inclinação monstra do primeiro teste montanhoso a sério que Itália lhe pôs no caminho.

Sozinho no encalço de três homens que fogem dele na etapa para o perseguirem na cor, o rosa que veste já lá vai uma dúzia de dias, e por isso ele sofre e o sofrimento está-lhe na cara porque lhe queima o corpo enquanto pessoas a pé lhe saem ao caminho, incentivando-o com gestos de ânimo.

João Almeida chega à meta da 15.ª etapa do Giro d'Itália com a língua esticada boca fora, quase todos os dentes à vista sem gatilho premido para sorrirem, vislumbram-se com o esgar de dor que o português acentua para poupar dois segundos, um segundo, os que forem para evitar que mais se percam para os três ciclistas mais rápidos que ele a percorrer 185 quilómetros com quatro contagens de montanha que partem um pelotão aos bocados.

Tim de Waele/Getty

Ele acaba, abdica da bicicleta, deita-se no alcatrão só agora plano, tapa a cara sôfrega com as mãos, não se sabe se esconde o sofrimento ou a felicidade, algum cruzamento entre as duas será.

O esforço hercúleo, mais um, garante-lhe um 13.º dia com a camisola rosa na Volta a Itália, são quase as duas primeiras semanas inteiras numa liderança inesperada, agora mais épica do que outro qualquer adjetivo, quando a prova entra na terceira e montanhosa semana.

As quase cinco horas domingueiras de homens a domarem uma montanha com bicicletas fizeram o português, de 22 anos, chegar só 37 com segundos de atraso para Geoghegan Hart Tao, o vencedor à frente de Wilco Kelderman, o primeiro dos vencidos na etapa e ainda na classificação geral. O holandês encurtou o tempo, mas continua com 15 segundo a mais do que João Almeida, os 15 segundos com que dormirá no segundo dia de descanso do Giro.

A merecida recuperação para ele e para todos. Na terça-feira haverá mais montanha, que surgiu primeiro e agora aparecerá quase todos os dias no caminho, eles chegarão depois e a bicicleta de João Almeida virá rosa, e líder, como ele.