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Stelvio não é amigo de João Almeida, nem de ninguém, mas nunca o destruiria

O português ficou em sétimo na etapa mais monstra e montanhosa que o Giro d'Itália tem, atrás de todos os potenciais ladrões da sua camisola rosa. Perdeu-a ao fim de 16 dias, mas ficou no quinto posto da geral, a apenas 2'11'' do novo líder. A epopeia de João Almeida de rosa acabou, por agora, mas há mais uma etapa de subidas e um contrarrelógio que pode fazer tudo isto ser apenas um até já

Diogo Pombo

Tim de Waele/Getty

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Stelvio para aqui, Stelvio para ali, o Stelvio parece um personagem falado e rebatido, o alvo de todas as histórias à mesa de um jantar para o qual fomos convidados, mas onde apenas temos um amigo, é um grupo ao qual não pertencemos e por isso não estamos na conversa, antes a apanhamos do ar, o Stelvio isto e o Stelvio aquilo, há que entender quem é o Stelvio. Ou perceber o que é e o que representa.

O Stelvio é sinuoso, curvilíneo e inclinado porque é um Passo. Está encafuado entre a Itália e a Suíça, é o rasto de estrada possível que corajosos humanos, no século XIX, lá conseguiram alcatroar entre as montanhas dos Alpes, onde o frio pinta de branco os picos, gela o pavimento, enregela corpos e faz com que não seja lá muito humano pegar numa bicicleta e pedalar Stelvio fora - pela mesma razão que muito ouvimos e lemos este tratamento humanizador do Stelvio.

Sendo tão agreste, brutal e intimidante com os 2.758 metros que atinge no cume e demoram quase 25 quilómetros a trepar, com uma média de 7,5% de inclinação e troços em que toca nos 12%, o Stelvio era a companhia de jantar mais indesejável pelos ciclistas do Giro d'Itália, mas o mais necessário para João Almeida, o português que era líder há 16 dias. Dizia-se ser o obstáculo provador, a prova dos nove que divide os duros dos muito duros, os míticos dos muito bons.

O Stelvio separá-los-ia. O Stelvio que toda a gente parece tratar por tu.

O tu cá, tu lá era uma tentativa forçada de suavizar a experiência que aí vinha. Antes de encarar as subidas feitas faca a cortar cebola do Stelvio, as anteriores contagens de montanha da etapa já dilaceravam o pelotão aos bocados, em pequenos grupos que mais picados ficaram quando se acercaram dele, do íngreme e indesejado amigo.

Mal a inclinação do Stelvio apareceu, o mini-pelotão de João Almeida partiu-se, os com montanhistas especializados das duas rodas estavam lá todos, alguns atacaram, os restantes tentaram responder e logo se testaria o que o português, no início da etapa, dissera em tom natural como a natureza dos declives do Stelvio, em poucas palavras: "Vamos ver se as pernas respondem".

Porque a cabeça pode ter toda a vontade de domar o Stelvio, mas o Stelvio riposta no corpo, a inclinação e o frio e a neve na paisagem e o gelo na estrada a destruírem alentos, congeminação de fatores que deixam João Almeida no quinto do grupo assim que a subida fica mais íngreme.

Desamparado, sem equipa a apoiá-lo, sozinho a esforçar-se quando os ladrões futuros da rosa que é sua perguntam às pernas se podem atacar e elas lhes respondem não como as do português, que apenas reagem, ele sozinho, com um companheiro de equipa da QuickStep uns segundos à frente, que parece, de início, importar-se uma patavina com o líder do Giro que deveria secundar, por dever para com a hierarquia.

Tim de Waele/Getty

Fausto Masnada cumpre o dever de abrandar e esperar pelo camisola rosa quando Rúben Guerreiro, rival de outra equipa mas conterrâneo de sangue e honra, faz de português que ajuda outro português para Portugal não ser ainda mais atrasado pelo Stelvio.

O português azulado pela liderança dos pontos da montanha puxou, enquanto pôde, o luso rosado por estar na proa do Giro, o esforço inclinado de cada um aguentou o outro, a mutualidade de sacrifício como arma para atenuar Kelderman, Hindley (ambos da Sunweb), Geoghegan Hart (Ineos), Bilbao (Bahrain) e Nibali (Trek), tudo gente no top-10 da classificação e no encalço de João Almeida, que estavam mais à frente, em grupos separados, a tentarem roubar-lhe segundos.

Eles passaram primeiro no alcatrão escorregadio e gelado do topo, no cucuruto do Stelvio, neve nas bermas e pessoas encasacadas a pisá-lo, algures lá estavam os pais de João Almeida, já há horas, onde pintaram o nome do filho no alcatrão e lhe deixaram com tinta o ânimo que a mãe vocalizou, quando viu o sofrimento do rebento a passar e berrou para o mundo ouvir, ao telefone com a "Eurosport", portadora de notícias que demoravam a chegar à altitude.

Quando superou o cume, João Almeida era há muito o puxador do seu grupo, a rosa a puxar os indiferenciados, o rosado a fazer de tudo o era fazível para não perder mais segundos do que os acrescentados, a cada quilómetro, por Geoghegan Hard e Hindley, que deram corda à fuga da frente, balanceando os corpos para a frente da bicicleta e cortando caminho a 80 km/h quando desciam Stelvio abaixo. O britânico e o australiano foram colossais quando, nos últimos quilómetros, havia uma subida final por escalar antes de o segundo ir buscar energias não sei onde para superar o primeiro ao sprint.

Depois chegaria João Almeida, o Stelvio para trás embora bem presente na cara, sôfrega e chicoteada pelo trilho que só pela 13.ª vez foi incluído no percurso do Giro d'Itália desde 1953, tão punidor de humanos que é. O português chegou 4 minutos e 51 segundos depois, não de atraso, sim de superação, o sétimo lugar na etapa deixou-o no quinto da geral, a 2 minutos e 16 segundos de Wilco Kelderman, mais uma prova de que o pico dos Alpes tratado por tu pode lesar corpos, mas não quebra a alma que os locomove.

Restam três etapas no Giro, a próxima será plana, a seguinte reavivará a provação montanhosa e a última será um contrarrelógio. Nas três há tempo para João Almeida recuperar o que seria seu se o usucapião valesse à propriedade destas camisolas, mas provavelmente não haverá pontos para Rúben Almeida, o outro português glorioso desta Volta, perder a liderança da montanha. O Stelvio não destruiu nenhum deles.