Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Ciclismo

José Azevedo cria uma nova equipa de ciclismo: "100% nacional", com escalões de formação e femininos, para "desenvolver o talento português"

A Efapel Cycling integrará o pelotão nacional em 2022 e parte da vontade do antigo corredor em "dar oportunidades" aos jovens portugueses e "mostrar que temos talento suficiente para sermos referência internacional". Numa conversa com a Tribuna Expresso, Azevedo revela que o projeto conta com uma forte componente de aposta na juventude, mas avisa que "a equipa estará em todas as provas nacionais com o objetivo de lutar pela vitória"

Pedro Barata

Tim de Waele/Getty

Partilhar

José Azevedo foi, para uma geração de portugueses, sinónimo da grande esperança nacional nas maiores provas do ciclismo internacional. Ao terminar no 5.º lugar no Giro 2001 e no Tour 2004, bem como na 6.ª posição da Volta a França 2002, Azevedo recolocou a bandeira nacional entre os melhores das grandes voltas, algo que só João Almeida voltou a fazer.

Após pendurar a bicicleta, José Azevedo trocou as duas rodas pelas quatro, passando a acompanhar as corridas nos carros de apoio, como diretor, chegando mesmo a ser manager dos russos da Katusha. Só que, como o próprio diz à Tribuna Expresso, havia "uma ideia" na sua cabeça "há algum tempo".

José Azevedo, durante uma etapa do Tour 2004

José Azevedo, durante uma etapa do Tour 2004

Lars Roenboeg/Getty

"Desde 2000 que estive quase sempre fora de Portugal, como corredor, primeiro, e depois como diretor desportivo ou geral", diz-nos Azevedo, que confessa ter "sentido sempre a dificuldade que há para que os ciclistas lusos sejam reconhecidos a nível internacional, a escassez de oportunidades que lhes são dadas", algo que sucede pelo "desconhecimento" que há sobre o nosso ciclismo além-fronteiras.

O vila-condense revela que a experiência que foi ganhando no estrangeiro o levou a "ter o desejo de criar em Portugal um projeto que potenciasse" o nosso ciclismo e contribuísse para "desenvolver a modalidade e o talento português" e que desse aos nossos corredores "a hipótese de evoluírem e terem oportunidades no ciclismo nacional e internacional".

Ora, Azevedo considera ter "chegado o momento de passar as ideias para algo concreto": o antigo atleta criou a Efapel Cycling, uma equipa portuguesa que, a partir de 2022, correrá no escalão continental profissional, com um acordo de patrocínio para três anos. "Não faria sentido pensar o projeto a menos tempo", diz Azevedo, dado que "o trabalho a fazer, a nível de criação de estruturas e desenho de uma filosofia, só faz sentido se for realizado em continuidade".

O conjunto terá um plantel para o escalão de elites (a principal categoria do ciclismo masculino) de 10 atletas: quatro deles mais experientes - Henrique Casimiro, João Benta, Joaquim Silva e Rafael Silva, todos presenças habituais nas últimas edições da Volta a Portugal - e seis mais jovens (Francisco Guerreiro, Francisco Campos, Fábio Fernandes, Gaspar Gonçalves, Pedro Andrade e Tiago Antunes, todos entre os 26 e os 19 anos). Azevedo garante "acreditar muito" nestes jovens, os quais têm "como objetivo crescer dentro da estrutura para que, a médio ou longo prazo, sejam corredores de referência do nosso país".

O diretor da Efapel Cycling promete que, apesar da sua componente de desenvolvimento do talento, a equipa "estará presente em todas as provas nacionais com o objetivo de lutar pela vitória". Além da disputa de competições nacionais, com a Volta a Portugal como grande momento competitivo, a nova formação irá, revela Azevedo, "estar presente em provas do calendário internacional", as quais "ainda não estão definidas".

O diretor explica que, além da "aposta forte no calendário nacional", competir no estrangeiro "facilita a evolução dos atletas", pelo "contacto com outras realidades e desafios". Também para os patrocinadores, todos empresas portuguesas - "para mostrar a qualidade nacional", diz Azevedo -, é importante "ganhar visibilidade além-fronteiras".

Azevedo, como diretor da Katusha, em 2017

Azevedo, como diretor da Katusha, em 2017

Luc Claessen/Getty

Além da Efapel Cycling, a equipa que disputará as mais importantes provas do calendário nacional masculino, José Azevedo anuncia, também, a "criação da academia Efapel Cycling, que terá atletas nos escalões de cadetes, que são jovens de 15 e 16 anos, de juniores, que têm 17 e 18 anos, e também a componente feminina, com diversas idades e em diferentes escalões".

No que toca à formação, o antigo atleta diz querer "dar aos jovens a possibilidade de praticar desporto e estar num projeto organizado que lhes permita crescer como atletas e, sobretudo, como seres humanos", na medida em que é impossível "ter a certeza se eles serão grandes ciclistas", mas é "fundamental o crescimento de todos enquanto homens e mulheres", frisa à Tribuna Expresso o vila-condense, de 48 anos.

Quanto às equipas femininas, Azevedo refere que "numa sociedade na qual se luta, cada vez mais, pela igualdade", a academia Efapel Cycling dará "às mulheres a possibilidade de praticarem ciclismo numa equipa que lhes dará condições iguais às que serão dadas aos homens, com o intuito de ajudar a desenvolver o ciclismo feminino em Portugal". O diretor refere que "todos os parceiros da equipa profissional masculina estenderam, também, os seus apoios à academia". José Azevedo explica ainda que "a ideia é que, em 2022, a academia Efapel Cycling esteja presente na segunda edição da Volta a Portugal feminina", competição que decorreu pela primeira vez em 2021.

Dois dos principais corredores portugueses da atualidade, João Almeida e Rúben Guerreiro, tiveram de sair muito cedo do país para competirem a nível internacional. José Azevedo quer que esse êxodo não tenha de acontecer, pretendendo que "os jovens possam crescer em Portugal sem essa necessidade de se irem embora tão cedo".

Em poucas palavras, o homem-forte da Efapel Cycling diz que o objetivo do projeto é, essencialmente, mostrar que em Portugal tem "talentos suficientes" para sermos "referência internacional".

"O que me moveu foi sentir que estávamos um pouco deslocados do resto da Europa, desenhando um plano para dar as oportunidades que faltam e que mostre a capacidade que os portugueses têm para construir projetos ganhadores", remata José Azevedo.