Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Ciclismo

João Almeida volta a brilhar: 3.º lugar na Milão-Torino, a corrida mais antiga do mundo

O ciclista português terminou no pódio da importante prova italiana, a qual foi ganha com autoridade pelo esloveno Primož Roglič

Pedro Barata

Tim de Waele/Getty

Partilhar

A 4 de maio de 1949, o Torino, a melhor equipa do futebol italiano da altura (tinha vencido as últimas quatro edições da Série A), viajava de volta para Itália depois de ter defrontado, na véspera, o Benfica. Num embate disputado no Estádio Nacional, o Torino foi o convidado para a partida de despedida a Francisco Ferreira, capitão das águias.

No entanto, essa viagem não foi de regresso para os seus tripulantes. O avião despenhou-se, num acidente aéreo conhecido como "tragédia de Superga", por se ter produzido na colina localizada em Turim. Todos os 31 tripulantes, incluindo os 18 jogadores, faleceram. O Torino, atuando com os juniores, ainda venceria a edição de 1948-49 do campeonato italiano, mas o "grande Torino" acabaria ali, em Superga.

Memorial de homenagem ao "Grande Torino", em Superga

Memorial de homenagem ao "Grande Torino", em Superga

Stefano Guidi/Getty

Setenta e dois anos depois, Superga é o local onde termina a Milão-Turim, uma corrida de ciclismo de um dia, também ela, cheia de história.

A primeira edição da competição foi em 1876, quando oito pioneiros pegaram nas suas rudimentares bicicletas para percorrerem a estrada que ligava as duas cidades. Só quatro chegaram a Turim. Das corridas que ainda se disputam, esta é a mais antiga do mundo — entre 1876 e 1917 a prova não teve uma periodicidade regular, mas a partir daí só teve paragens pontuais.

E na edição 102 da Milão-Turim, brilhou um português. João Almeida terminou a corrida no 3.º lugar, num pódio que dá sequência ao que o jovem da Deceuninck-Quick Step fez no passado sábado, quando foi segundo no Giro Dell'Emilia. A prova foi ganha pelo esloveno Primož Roglič (Jumbo-Visma), tendo o britânico Adam Yates (INEOS) ficado em 2.º.

Tim de Waele/Getty

No percurso de 190 quilómetros entre as duas cidades do norte de Itália, as diferenças começaram a fazer-se, sobretudo, a 23 quilómetros da meta, quando Fausto Masnada, companheiro de equipa de João Almeida, imprimiu um ritmo muito forte que eliminou muitos corredores, num trabalho que se pensava ser para Julian Alaphilippe, o francês que recentemente se sagrou bicampeão do mundo. Quando Masnada baixou um pouco o ritmo, outro homem da Deceuninck-Quick Step, Mauri Vansenant, atacou a 19 quilómetros do fim, ficando algum tempo isolado na frente.

A subida final a Superga, durante os cinco quilómetros finais, dinamitou, definitivamente, o grupo principal. Vansenant foi apanhado e, para surpresa geral, Alaphilippe quebrou a quatro quilómetros do fim, não tendo capacidade para discutir o triunfo.

A três quilómetros do fim, já só Primož Roglič, tricampeão da Volta a Espanha, Tadej Pogačar, bicampeão do Tour, e Adam Yates, que já terminou a Vuelta e o Tour no 4.º lugar, estavam juntamente com João Almeida na frente da prova.

Companhia de luxo para o português que, uma vez mais, voltou a andar entre os melhores do pelotão mundial.

Tim de Waele/Getty

Pouco depois, Roglič e Yates isolaram-se, relegando Pogačar e Almeida para segundo plano. Passou, assim, a haver uma discussão pelo triunfo e outra pelo último lugar do pódio. Na frente, Roglič, com a sua mudança de velocidade digna de quem parece ter um turbo nos pedais, bateu Yates num sprint tão desequilibrado que levou o esloveno a terminar 12 segundos à frente do britânico.

A 35 segundos de Roglič terminou João Almeida, que chegou a estar atrás de Pogačar, mas nunca desistiu e, na aceleração final, conseguiu bater o vencedor das duas últimas edições do Tour.

Uma vez mais, Almeida confirmou pertencer ao patamar dos melhores. No sábado, 9 de outubro, disputa-se, também em Itália, o Giro di Lombardia, um dos "cinco monumentos" (as cinco principais corridas de um dia) do ciclismo mundial. Com presença esperada de João Almeida, o jovem tentará voltar a dar luta aos principais ciclistas do mundo, categoria da qual é cada vez mais legítimo dizer que o português faz parte.