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Ciclismo

Alex Dowsett tem hemofilia e vai tentar bater o recorde da hora: “Não sei se os meus pais teriam acreditado que tudo fosse correr tão bem”

O ciclista britânico, de 33 anos, tentará percorrer, num velódromo em Aguascalientes (México), uma distância superior aos 55.089 quilómetros que o belga Victor Campenaerts fez em 2019, recuperando assim um recorde que foi seu durante menos de um mês em 2015. Mas, além da glória desportiva, Dowsett procura despertar consciências para a luta das pessoas que, como ele, têm hemofilia, uma doença crónica e uma deficiência orgânica congénita no processo de coagulação do sangue

Pedro Barata

David Davies - PA Images/Getty

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Alex Dowsett era uma "criança saudável", mas havia algo de estranho naquele bebé nascido em 1988 em Maldon, a uns 80 quilómetros de Londres. "O meu pai e a minha mãe reparavam que eu me magoava com facilidade. Agarravam-me e, quando me pousavam, eu tinha duas nódoas negras na caixa torácica. A minha mãe sabia que algo não estava bem e levou-me a médicos várias vezes, mas eles simplesmente diziam que eu era um bebé que se magoava facilmente", disse Dowsett, em entrevista ao "The Guardian".

Mais de três décadas depois, Alex é, aos 33 anos, um ciclista profissional, com uma década de experiência entre a elite do pelotão mundial, tendo-se sagrado seis vezes campeão britânico de contrarrelógio e conquistado duas etapas do Giro de Itália. E, na próxima quarta-feira, 3 de novembro, Dowsett tentará bater o recorde da hora, isto é, tornar-se no homem que percorreu uma maior distância em cima de uma bicicleta durante 60 minutos.

Prova de longa tradição, o esforço do mítico Eddy Mercx para estabelecer um novo recorde de 49.431 quilómetros em 1972 levou a que o belga dissesse que "nunca tinha tido tantas dores", tendo sido a "prova mais dura" que alguma vez tinha realizado. Em 2014, a União Ciclista Internacional (UCI), o organismo máximo do ciclismo mundial, uniformizou as regras para o recorde da hora e, desde então, tem havido um fervor renovado em torno da procura deste objetivo.

Jens Voigt, o carismático alemão, fixou em 51.110 quilómetros a melhor marca em setembro de 2014, tendo esta sido batida cinco vezes desde então. Uma delas, a 2 de maio de 2015, foi da autoria de Alex Dowsett, mas os seus 52.937 foram melhorados, a 7 de junho desse mesmo ano, por Bradley Wiggins. Agora, Dowsett voltará a tentar entrar no livro dos recordes.

Dowsett festeja ter batido o recorde da hora em 2015

Dowsett festeja ter batido o recorde da hora em 2015

Dave Thompson/Getty

Num velódromo em Aguascalientes, no México, a cifra de referência para o britânico são os 55.089 quilómetros do belga Victor Campenaerts, registo logrado em abril de 2019. O desafio é conhecido pela sua exigência física - o australiano Jack Bobridge disse em janeiro de 2015 que foi "o mais próximo de morrer" que alguma vez estará "sem morrer de facto", mas Dowsett aplica uma abordagem diferente, não querendo "uma Bobdrige", como refere numa entrevista ao "The Guardian" para lançar a prova. "Para mim, os primeiros 30 minutos serão muito controlados e disciplinados e, depois, nos segundos 30 é que começas a perceber o que podes fazer", explicou.

"Eddy Mercxk não fez a hora de maneira muito eficiente", frisa Dowsett, realçando que a lenda belga partiu muito depressa e não gerindo bem o esforço. Alex conhece as "histórias de horror" sobre a prova, mas desvaloriza porque "é só uma hora", não "seis horas em montanha numa grande volta quando estás em corrida há 18 dias".

Para o britânico, o "desafio" está em "manter o ritmo" na parte final, mas o ciclista sabe que "se conseguir manter um certo ritmo", irá "bater o recorde".

David Davies - PA Images/Getty

Alex Dowsett é corredor da equipa Israel Start-Up Nation, mas a organização de todo o evento em Aguascalientes tem sido feita por si, o que tem gerado um desgaste adicional. "O meu treinador, Michael Hutchinson, diz que é como organizar um Mundial e depois ainda ir lá competir", graceja o britânico, que destaca a contribuição decisiva da sua mulher, Chanel, que foi recentemente mãe da filha do casal, Juliette. Dowsett tem mostrado os preparativos no seu canal de YouTube, onde a prova será transmitida ao vivo.

Na página oficial do evento, que tem o nome de "sangue, suor e lágrimas", lê-se que a "tentativa é feita em nome da hemofilia". "Alex é o único desportista de elite conhecido que compete em desporto não adaptado tendo hemofilia e quer mostrar ao mundo que uma condição médica não te define. Conduz-te", são as palavras da página da prova.

Com este evento, Dowsett procurará dar mais visibilidade à "Little Bleeders", a associação que fundou em 2016 para "encorajar as pessoas com hemofilia a praticar desporto e a estarem ativas como uma forma de lidarem com a sua condição".

De acordo com a Associação Portuguesa de Hemofilia e de outras Coagulopatias Congénitas, o "termo genérico 'hemofilia' descreve um grupo de distúrbios de coagulação hereditários, nos quais existe uma anomalia permanente no mecanismo de coagulação do sangue", sendo a hemofilia "uma doença crónica e uma deficiência orgânica congénita no processo de coagulação do sangue".

Ainda segundo a Associação, a hemofilia, "de transmissão genética, ligada ao cromossoma X, aparece quase exclusivamente nos indivíduos do sexo masculino e caracteriza-se pela ausência ou acentuada carência de um dos factores de coagulação. Por este motivo, a coagulação é mais demorada ou inexistente, provocando hemorragias frequentes, especialmente a nível articular e muscular".

A hemofilia foi diagnosticada a Dowsett quando este tinha 18 meses. Desconfiando da ideia do tal "bebé que se magoava facilmente", a sua mãe exigiu que lhe fosse feito um teste sanguíneo, para desaprovação dos médicos. À saída do teste, Alex caiu, fazendo um corte entre o lábio e a gengiva. Quando os seus pais o puseram na cama naquela noite, o pequeno corte estava a sarar. Às duas da manhã, Dowsett estava a dormir numa piscina do seu próprio sangue.

"Os meus pais ligaram para o doutor pensando que eu tinha leucemia", recorda o britânico. Na verdade o diagnóstico foi de hemofilia A severa. "O doutor original pediu desculpas e disse: 'preciso de investigar mais sobre hemofilia e confiar na intuição materna".

No entanto, à medida que a medição se foi tornando disponível e o jovem foi aconselhado a ter uma vida tão ativa e saudável quanto possível, a situação foi melhorando. Os pais começaram por colocá-lo na natação e, aos 12 anos, Dowsett começou no ciclismo.

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Alex explica, na entrevista ao "The Guardian", que a medicação hoje disponível "muda a vida", porque, no passado, a "medicação era para curar as situações em que começava a sangrar, era reactiva", enquanto agora "previne que haja esses episódios".

"Sou a primeira geração que pode fazer desporto de elite. Se tivesse nascido uma década antes, era impossível manter qualquer tipo de treino", conta.

Dowsett realça permanentemente o papel dos pais, que fizeram um "grande trabalho" mantendo-o " de fora da negatividade à volta da doença quando era mais novo", incentivando-o a praticar desporto. Ainda assim, o panorama para uma criança com hemofilia nos anos 90 não levava a pensar que estaríamos na presença de um atleta de elite, capaz de vencer etapas numa competição como o Giro. "Se tivéssemos uma bola de cristal na altura e soubéssemos como tudo iria ser, não sei se os meus pais teriam acreditado que tudo fosse correr tão bem".

Alex Dowsett festeja a sua vitória de etapa no Giro de 2020

Alex Dowsett festeja a sua vitória de etapa no Giro de 2020

Stuart Franklin/Getty

Através da "Little Bleeders", a associação que criou, o ciclista quer apoiar os jovens com hemofilia a "mexerem-se mais e serem mais". Fornecendo uma rede de apoio a famílias, formação e informação a escolas e ajudando a tomar as decisões certas sobre que desporto escolher, a "Litle Bleeders" pretende quebrar preconceitos e, sobretudo, levar a que as famílias resistam a "criar os seus filhos numa redoma", levando-os a viverem uma vida ativa e saudável e não a ficarem estigmatizadas e separadas devido aos medos da doença.

E é em nome desta causa que Alex Dowsett tentará bater o recorde da hora. Pedalando como um atleta com uma doença que não pretende que seja uma prisão, o britânico admite que "não será fácil" bater a marca de Campenaerts, mas leva para cima da bicicleta uma máxima de vida: "Falhar é uma alternativa muito melhor do que não tentar".