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Ciclismo

Alex Dowsett não conseguiu bater o recorde da hora, mas está “orgulhoso” de si: “O maior falhanço teria sido não ter tentado”

O ciclista britânico percorreu 54.555 quilómetros num Velódromo em Aguascalientes (México), abaixo dos 55.089 quilómetros do máximo estabelecido pelo belga Victor Campenaerts em 2019. Mas Dowsett conseguiu o "mais importante", que era "despertar consciências para a hemofilia", a doença de que sofre, mostrando que "qualquer pessoa com esta condição pode tentar"

Pedro Barata

David Davies - PA Images/Getty

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Dois homens e uma estrutura seguram um homem que está em cima de uma bicicleta, vestido com um equipamento desenhado para ser amigo da aerodinâmica. Naqueles instantes, Alex Dowsett respira fundo e prepara-se para 60 minutos de "sangue, suor e lágrimas", o nome do evento que organizou num velódromo em Aguascalientes, no México, com o intuito de bater o recorde da hora. Ou de o recuperar, visto que havia sido seu entre 2 de maio e 7 de junho de 2015.

Sessenta minutos depois, o britânico conseguira percorrer 54.555 quilómetros, mais do que a sua marca de 52.937 quilómetros de 2015. Mas menos 534 metros do que o recorde da hora, obtido pelo belga Victor Campenaerts, capaz de fazer 55.089 quilómetros em 2019.

Depois de dar 218 voltas ao velódromo, Dowsett vai deixando de pedalar, à espera que a velocidade daquela estranha bicicleta sem travões abrande e lhe permita desmontar. O britânico abana com a cabeça e, quando sai de cima da máquina, os gestos de descontentamento são atropelados pela visão de um homem exausto: rosto vazio de energia e pernas que mal se mantêm de pé, sendo ajudado pelo seu treinador, primeiro, e pelo sua mulher, depois, a caminhar. Não havia nada mais dentro de Alex para dar.

Quando o ciclista britânico, vencedor de duas etapas do Giro e seis vezes campeão de contrarrelógio do seu país, se senta, volta a abanar a cabeça e a mostrar descontentamento por não ter conseguido o recorde. Mas rapidamente chega ao pé de si uma recompensa bem maior. A pequena Juliette, a sua filha, aproxima-se de si nos braços da sua mãe, Chanel, a mulher que o ajudou na organização do evento. Ambas se agarram a Alex, homem de cara exausta que olha para a sua filha enquanto esta lhe sorri.

Juliette não entenderá bem o que se passa, mas vai dando o maior dos troféus ao pai, em forma de carícias e ternura infantis. Alex esfrega as mãos na cara regularmente, talvez pelo cansaço, talvez pela desilusão, mas a mulher vai tratando de dar-lhe palavras de conforto.

Dowsett a treinar num túnel de vento

Dowsett a treinar num túnel de vento

David Davies - PA Images/Getty

Após a corrida, ainda com a filha ao colo, Dowsett pega num microfone e, com a voz a não esconder os sinais de quem não guardou quaisquer reservas de energia, expressa o que lhe vai na alma. E começa por "dar os parabéns" a Campenaerts pela manutenção do recorde, agradecendo o "apoio" do belga ao longo dos últimos tempos.

E, apesar de não ter conseguido superar a melhor marca de sempre, Alex garante que a tentativa "foi um sucesso": "Queria ver até onde conseguia ir e 54.555 é o mais longe a que consigo chegar. Coloquei tudo de mim nisto. Estou orgulhoso de mim", assegura o ciclista que, na estrada, corre pela Israel Start-Up Nation.

No entanto, Dowsett não deixa de vincar qual era o seu objetivo "mais importante": "aumentar a consciencialização para com a hemofilia e outras doenças semelhantes". Alex tem hemofilia e, graças à medicação e ao apoio dos pais, conseguiu escrever uma carreira de sucesso no desporto. Através do seu exemplo e da sua associação, a "Little Bleeders", pretende apoiar os mais jovens com a doença a terem uma vida ativa, incentivando os pais a criarem os seus filhos com hemofilia "fora de um casulo de protecção".

"A grande mensagem para os jovens com hemofilia é que qualquer pessoa com esta condição pode tentar, qualquer pessoa com uma adversidade pode tentar. O maior falhanço teria sido não ter tentado. Foi uma viagem enorme até chegar aqui", vinca o atleta.

Dowsett pretende "mostrar o que alguém com hemofilia pode fazer hoje em dia", não tendo de "viver uma vida cheia de constrangimentos como no passado" graças à "medicação disponível": "Passei uma infância a ouvir dizerem-me o que não podia fazer. Eu, a minha mãe e o meu pai sabíamos o que eu não podia fazer, como futebol, râguebi ou boxe, então concentrámo-nos naquilo que eu podia fazer. A vida pode pregar-te partidas, mas o importante é como lidas com isso", assegura o britânico.

Alex destaca ainda o trabalho da "Little Bleeders", a associação que fundou e que tem um "fundo desportivo para ajudar financeiramente as famílias com filhos que tenham hemofilia a praticarem desporto". E dá o "mérito" aos seus pais, que "sempre quiseram a melhor vida possível para si", recordando que a mãe lhe costumava dizer para "olhar em redor e reparar que toda a gente tem algo de errado em si", recordando-o que "havia coisas que não podia fazer, mas imensas coisas que podia fazer", enquanto o seu pai o "levava a qualquer ponto do Reino Unido para participar em corridas".

Entre apelos para que as famílias de jovens com hemofilia os apoiem e incentivem a ter uma vida ativa e sem medo, Alex Dowsett ia repetindo a ideia de que, para si, ser um atleta de elite que se desafia é o mais importante: "Eu tentei quando há tantos atletas sem qualquer doença que não tentaram".

Entretanto, Filippo Ganna, o exímio contrarrelogista italiano que é bicampeão do mundo na especialidade, parece ser o próximo candidato a bater o recorde da hora. "Falarei sobre isso com a minha equipa em janeiro. Talvez tente no próximo verão. Espero que algum dia possa abrir uma garrafa de vinho para celebrar ter batido esse recorde", disse Ganna à "La Gazzetta dello Sport".