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Covid: 19 livros de desporto para ler em quarentena

Não sabe o que fazer em casa? A Tribuna Expresso ajuda: tire o pó destes livros lá de casa ou, em alternativa, encomende-os para entrega domiciliária (ou até no mais moderno ebook) e delicie-se com estas histórias variadas

Diogo Pombo, Mariana Cabral e Pedro Candeias

Este é o ex-internacional inglês Stanley Matthews (1915-2000) a ler um livro de futebol com o filho

Bert Hardy

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Se está de quarentena, lave as mãos, esqueça o Covid por umas horas e pegue num dos 19 livros que a Tribuna Expresso aqui recomenda, numa lista que não tem nenhuma ordem em particular, mas em que todos os livros foram lidos pela secção.

Boas leituras!

1. “Ali”, de Jonathan Eig

Um ótimo livro para quem gosta de pugilismo, mas sobretudo uma extraordinária obra para quem gosta de super-hérois de carne e de osso, que sangram, sofrem, cometem proezas e pecam como todos os outros. "Ali" é a biografia definitiva de Muhammad Ali, o eloquente boxeur que se transformou num ícone pop pela forma como elegantemente jogou este desporto e desafiou o establishment norte-americano em plena segregação racial. A descrição minuciosa dos combates, os demónios interiores de Ali, a religião e a família - está tudo aqui.

2. “Football Against the Enemy, de Simon Kuper

É retratado muitas vezes como o livro que mudou os livros subordinados ao futebol. O excelente Simon Kuper, colunista do "Financial Times", atravessa a história deste desporto e as implicações pelos 22 países por onde viajou, tentando entender de que forma um simples jogo jogado ao pontapé numa bola pode determinar a vida das pessoas.

3. “Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano

O escritor uruguaio tinha um sonho: ser futebolista. Mas como o talento não abundava, Eduardo Galeano propôs-se escrever sobre o seu desporto favorito, em jeito de curtos contos ou aforismos. Neste livro, Galeano percorre os grandes ídolos, como Garrincha, Cruyff, Pelé, Maradona e também Eusébio. Estas são as duas frases finais sobre o King: “O melhor jogador português de sempre foi um africano de Moçambique: pernas compridas, braços caídos, olhos tristes”.

4. “Doctor Sócrates”, de Andrew Downie

Sócrates Brasileiro é um dos jogadores mais icónicos da história do futebol mundial. Talentoso, elegante, bem-falante, complexo e também revolucionário, o médio que jogava com a camisola quatro e liderou o mais bonito Brasil no Mundial que devia ter ganho (e não ganhou) representou um corte com quaisquer convenções que pudéssemos ter sobre os futebolistas. Este livro, de Andrew Downie, conta o percurso deste génio, que jogava e treinava enquanto cursava medicina, que liderou a Democracia Corinthiana, um movimento que pôs o poder do gigante Corinthians nas mãos dos jogadores - e que tragicamente morreu alcoólico.

5. “Herr Pep”, de Martí Perarnau

Imagine: é jornalista, atirou um esperançoso barro à parede, o otimismo colou-o e deixaram-no acompanhar, por dentro, a primeira época (2013/14) de Pep Guardiola no Bayern de Munique. O privilégio deu acesso a Martí Perarnau, antigo atleta olímpico tornado escriba, que passou semanas e meses a passear e a falar com quem lhe desse na real gana, em Munique. Resultou no livro que muito desvenda do que vai na cabeça de Guardiola e do que fez os dias de Robben, Ribéry, Philipp Lahm ou Thiago Alcântara.

Nota: Depois de "Herr Pep", Perarnau também lançou "A evolução", sobre a adaptação de Guardiola ao Manchester City e ao futebol inglês.

6. “Dan Carter: My Story”, com Duncan Greive

Para quem tão badalado foi, a timidez e o recato de Daniel Carter afunilaram a cultura geral sobre ele. É sabido que teve um pai que montou postes no quintal para o filho treinar os pontapés e que ganhou dois Mundiais seguidos com a Nova Zelândia, mas, ao decidir escrever uma autobiografia, ficámos a poder saber, entre muitas confidências, que os All Blacks, nas raridades em que perdem, trancavam-se no balneário com um barril de cerveja e de lá não saíam se todos não se pronunciassem sobre a tragédia. E enquanto houvesse líquido por beber.

7. “Estrela Solitária”, de Ruy Castro

Mané Garrincha tinhas as pernas tortas, embora não tortuosas como seria a vida do craque que, muitos dizem, era melhor que Pelé. A prosa detalhista de Ruy Castro narra as origens, os inícios e o que viria depois na passagem de Garrincha pela terra, entrelaçando a sua genialidade no campo (entre clubes e seleção) com histórias-mil sobre a errância sem uma bola por perto. Exemplos como este ajudam-nos a entender uma lenda:

“Zezé já percebera que Garrincha tomava muita água tónica. Resolveu ir à sua mesa conferir.

‘Bebendo sua água tónica, Garrincha?’
‘É isso mesmo, seu Zezé.’
‘Me dá um pouquinho, estou com sede’, pediu o treinador.
‘Mas eu já bebi pelo gargalo, seu Zezé.’
‘Não tem importância, Garrincha. Você não é tuberculoso.’

E estendeu a mão para recebê-la.

Garincha passou-lhe temeroso a garrafinha. Zezé bebeu e a água tónica queimou-lhe a boca. Cuspiu fora. Gin puro.”

8. “The Cost of These Dreams”, de Wright Thompson

Um americano com olho, faro, inspiração e caneta brutais para ir atrás de histórias e contá-las. Este livro junta várias reportagens apelativamente escritas por Wright Thompson, desde a perseguição detetivesca ao único homem, dos 50 que Muhammad Ali combateu, a quem se perdeu o rasto, ou às respostas que foi procurar a Rosario, na Argentina, sobre Lionel Messi. É uma coleção de mitos a serem dissecados de forma, por vezes, brilhante, a maioria publicadas na ESPN. Aqui fica uma amostra.

9. “The Barcelona Legacy”, de Jonathan Wilson

O Barça clama ser mais que um clube. Mais que os outros se tornou, porém, no momento em que Johan Cruyff regressou. O excelso holandês vincou ainda mais o seu mito enquanto treinador, dando a impressão digital que o Barcelona segue (ou tenta seguir), que nem doutrina. O jornalista Jonathan Wilson traça essa evolução e a pegada de pensadores de jogo que o clube foi germinando.

10. “Johan Cruyff: My Turn”, de Jaap de Groot

Sem Cruyff, não teria havido Guardiola, Barcelona e, bom, talvez até grande parte do futebol moderno. A autobiografia da estrela holandesa, cuja "vida foi definida pelo Ajax", parte das ruas de Betondorp e passa por todas as grandes conquistas de Johan, como jogador, como treinador e como dirigente, antes de morrer, em 2016, com cancro do pulmão.

11. "Brasil em Campo", de Nelson Rodrigues

Da mesma forma que o Brasil é obcecado por futebol, Nelson Rodrigues era obcecado pelo Brasil... e por futebol. E, ao escrever sobre futebol, Nelson Rodrigues escrevia sobre a vida no Brasil - e foi assim que se tornou um dos maiores cronistas locais, mesmo sendo odiado por muitos, por ter apoiado a ditadura militar brasileira. Estas 70 crónicas futebolísticas incluem textos deliciosos, com sotaque, todos eles selecionados pela filha do escritor, Sonia Rodrigues.

12. "A Bola Não Entra Por Acaso", de Ferran Soriano

O subtítulo do livro diz quase tudo sobre o mesmo: "o que o futebol tem a ensinar à gestão". Sendo que, na verdade, o contrário também se verifica: a gestão influi decisivamente no futebol. É isso que explica Ferran Soriano, vice-presidente do Barcelona entre 2003 e 2008, que relata de que forma é que o clube catalão se tornou um dos mais rentáveis do mundo - e de que forma é que José Mourinho foi preterido por Pep Guardiola, após reuniões dos dirigentes com ambos os treinadores.

13. "Mourinho: Porquê Tantas Vitórias?", de Bruno Oliveira, Nuno Amieiro, Nuno Resende e Ricardo Barreto

É certo que o livro já é de 2006 e que, entretanto, Mourinho já parece ser outro treinador completamente diferente do que aqui é analisado, mas a verdade é que foi o special one a mudar drasticamente a forma como o treinador português era visto além-fronteiras - e isso partiu de uma novíssima forma de treinar, que deixava para trás as corridas na mata e na praia, algo inovador para a época.

Nota: Um dos autores, Nuno Amieiro, tem também um livro imperdível para quem aprecia livros mais técnicos: "Defesa à zona no futebol".

14. "Curar o jogar", de Vítor Frade

“Mas o gajo que faz um filho é obstetra?” É assim que ele fala sobre futebol e foi assim que Vítor Frade, criador da periodização tática, se tornou o grande mentor do futebol moderno em Portugal, ao influenciar José Mourinho, Vítor Pereira, Carlos Carvalhal e tantos outros. O "Curar a Jogar" reúne as "sínteses rimadas" que o profe, como lhe chamam, gosta de escrever, um pouco à semelhança do livro anterior, "'Fora de jogo' o tempo todo."

15. "Periodização Tática", de Julian Bertazzo Tobar

Por falar em periodização tática, nada melhor do que este livro de Julian Bertazzo Tobar - com colaboração de Jorge Maciel e Marisa Gomes - para perceber, afinal, que metodologia é essa que foi criada por Vítor Frade, mentor que dá aqui o seu aval ao que foi escrito: "A todos aqueles que desejam conhecer a verdadeira periodização tática, a leitura desta obra é fundamental".

16. "Alex Ferguson", de Paul Hayward

É o treinador mais vitorioso da história do futebol mundial. Ponto final. Só por isso, já vale a pena ler a autobiografia de Alex Ferguson, recheada de histórias deliciosas sobre jogos determinantes, contratações certeiras - e falhadas - e jogadores e adversários, sempre com uma honestidade desarmante.

17. "Para lá do relvado", de Raquel Vaz-Pinto

Raquel Vaz Pinto é politóloga e professora, especializada em política e relações internacionais. E o que é que isto tem a ver com futebol? Quase tudo, porque a autora é uma ávida adepta da modalidade e consegue falar de futebol e relacioná-lo, ao mesmo tempo, com política, mudanças sociais, finanças e cultura. Ou seja, até quem não gosta de futebol gostará de ler este livro.

18. "Inverting the Pyramid: the History of Football Tactics", de Jonathan Wilson

Este é o segundo livro de Jonathan Wilson nesta lista, mas a verdade é que a distinção é merecida. Neste magnífico livro, o escritor detalha de forma pormenorizada a evolução do futebol, particularmente da tática, desde o WM até ao futebol total, passando pelo catenaccio. Uma bíblia para qualquer adepto que se preze - e que queira criticar com fundamentação as táticas de "inserir aqui nome do treinador da equipa que apoia".

19. "Zonal Marking", de Michael Cox

Se o livro número 18 percorre toda a história do futebol e da tática, Michael Cox resume-se a um período mais específico: "o futebol europeu moderno". Aí, cabem os países que têm marcado a modalidade: Holanda, Itália, França, Espanha, Alemanha, Inglaterra e, claro está, Portugal, onde se fala de Mourinho, de Vítor Frade e até de Cândido de Oliveira, assim como da seleção e de Cristiano Ronaldo.