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Vítor Severino

Vítor Severino

Treinador adjunto Shakhtar Donetsk

“Chegámos à Ucrânia, depois do jogo contra o Benfica, e entraram indivíduos do exército que nos controlaram a temperatura ainda no avião”

É um dos poucos campeonatos que ainda não parou, mas isso pode mudar esta terça-feira, dia em que, além da UEFA, as autoridades ucranianas vão estar reunidas para decidir se vale a pena continuar com o futebol à porta fechada, num "ambiente estranho" de que Vítor Severino, treinador adjunto do Shakhtar Donetsk, não gosta "mesmo nada", como relata à Tribuna Expresso, diretamente a partir de Kiev, onde está com a mulher e com a filha, e de onde garante que não sairá: "Para já, está completamente fora de questão regressar a Portugal, até porque nós estamos a trabalhar"

Vítor Severino

Vítor Severino, à direita, à conversa com Luís Castro, ao centro, e João Brandão, à esquerda - três dos portugueses que trabalham no Shakhtar Donetsk

GENYA SAVILOV

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As coisas aqui, por agora, têm estado tranquilas. Digamos que não existe um grande alarme social. Está tudo minimamente normalizado, até porque isto não aconteceu de repente. Lembro-me que há duas ou três semanas, quando isto ainda não era valorizado em Portugal, pelo menos em termos de informação - e acho que não existiam casos registados também -, já aqui na Ucrânia notávamos que existia preocupação nos aeroportos.

Começaram a colocar aquele gel antisséptico nos sítios comuns, nas lojas, e passou a ser habitual ver os funcionários de máscara. O controlo da temperatura também já existia há algum tempo.

É curioso: recordo-me que nós chegámos à Ucrânia, depois do jogo contra o Benfica, e, pela primeira vez, entraram três ou quatro indivíduos do exército, devidamente protegidos, que nos controlaram a temperatura a todos, ainda dentro do avião - e já tinham tudo pronto à porta do avião caso existisse alguém com sintomas. Em Portugal isto não nos aconteceu. Ou seja, à chegada a Lisboa, para o jogo, não houve nada, mas, passados três dias, à chegada à Ucrânia, aconteceu isso.

Os festejos do Shakthar Donetsk, liderado por Luís Castro, depois de eliminar o Benfica da Liga Europa, a 27 de fevereiro de 2020, na Luz

Os festejos do Shakthar Donetsk, liderado por Luís Castro, depois de eliminar o Benfica da Liga Europa, a 27 de fevereiro de 2020, na Luz

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Entretanto já tivemos aqui amigos e duas equipas de reportagem portuguesas que nos contaram que também tiveram esse controlo apertado no aeroporto. Neste momento, via gabinete do presidente, e isto é oficial, o que vai acontecer aqui na Ucrânia é que vão fechar as fronteiras e não vai poder entrar ninguém, durante um período mínimo de duas, três semanas - só podem entrar ucranianos.

Nós temos cartões de residentes, temos autorização para trabalhar e para viver na Ucrânia, temos a nossa vida aqui montada, portanto julgo que, neste momento, podemos entrar e sair do país, ainda que com algumas restrições, mas com essa facilidade.

Mas, na verdade, ainda estamos com aquela dúvida sobre o que vai acontecer a seguir, porque estivemos de folga ontem e estamos de folga hoje, estamos em casa, mas nos últimos cinco ou seis dias nem estivemos aqui. Formalmente este nem é um período de quarentena, porque ainda estamos a aguardar o que irá ser decidido hoje em reunião.

Não sabemos se o campeonato vai parar, se vai continuar, não sabemos se vamos ter de parar de treinar, se vamos continuar mas com restrições... Desde que isto rebentou, digamos assim, na maior parte dos países, nós estivemos a fazer a nossa vida normal, a treinar, ainda que com medidas profiláticas, desinfetados.

Vítor Severino e Srna, adjuntos de Luís Castro

Vítor Severino e Srna, adjuntos de Luís Castro

PAUL ELLIS

A leitura que faço é que este é um país em que existe capacidade de encaixe, rigor e disciplina, algo que é necessário num momento destes. A prova disso é que temos três casos oficiais. Existiu uma morte e imediatamente o governo decidiu fechar fronteiras e implementar uma série de medidas de âmbito nacional. O que me parece é que estão preparados para encarar os desafios exigidos pelo momento.

O nosso plano nos últimos cinco ou seis dias foi assim: saímos para jogar na Alemanha, para a Liga Europa, à porta fechada, e entretanto começou a aparecer muita informação a dizer que as coisas estavam a piorar. Da nossa parte, claro que começam a existir conversas entre equipa técnica e jogadores, e entre os próprios elementos da direção, obviamente isto começa a ser assunto. Nós fomos para a Alemanha já sabendo que iria haver jogo, porque disseram-nos logo que não havia hipótese nenhuma de não haver jogo.

O jogo fez-se então, contra o Wolfsburg, à porta fechada, e devo dizer que foi um ambiente extremamente estranho. Não gosto nada daquilo, mesmo nada, para não dizer que detesto. É um ambiente muito esquisito, por não haver adeptos, não haver gente a encher o estádio.

Não houve adeptos nas bancadas a assistir à vitória do Shakthar sobre o Wolsburg, por 2-1, na 1ª mão dos oitavos-de-final da Liga Europa, na Alemanha

Não houve adeptos nas bancadas a assistir à vitória do Shakthar sobre o Wolsburg, por 2-1, na 1ª mão dos oitavos-de-final da Liga Europa, na Alemanha

Handout

Depois do jogo, regressámos à Ucrânia, mas não para Kiev, porque tínhamos jogo com o Zorya, fora, domingo. À chegada, houve controlo de temperatura a todos os elementos que vinham no avião e ficámos a fazer estágio antes do jogo. Jogámos, novamente à porta fechada, e, enfim, volto a dizer que não gosto, parece que andamos a fazer jogos de pré-época, ou pior ainda, porque nem sequer há um adepto no estádio.

Como já disse, sinto que aqui não existe um grande alarme social, mas nota-se que há coisas diferentes, que as pessoas estão a ter outro tipo de cuidados. Por exemplo, as superfícies comerciais estão abertas, mas os espaços comuns, como as áreas de restauração ou os espaços para as crianças, estão fechados. Existem postos de controlo de temperatura e de desinfeção das mãos, portanto todos tomam alguns cuidados. Sei que hoje fechou o ginásio aqui em frente à minha casa, por exemplo. Alguns restaurantes também fecharam e tenho ideia que as coisas vão ficar cada vez mais parecidas com aquilo que está a acontecer em Portugal, a esse nível.

Eu e a minha família estamos em casa. Estou eu, a minha esposa e a minha filha, sendo que elas já estão há três dias em casa. Só saímos para aquilo que é absolutamente necessário, como fazer compras ou tirar o lixo de casa. É curioso que na escola - a minha filha frequenta um colégio internacional - já há muito tempo que se fala nisto, porque ela chegava a casa e passava-nos informação. Ou seja, as crianças rapidamente foram educadas para perceber o que é isto e como é que se combate: a questão da lavagem das mãos, dos cuidados a ter, da proximidade social. Ela, apesar de ter quatro anos, sabe perfeitamente por que razão está em casa e por que razão não vai à escola. Sabe dizer-nos o que temos de fazer para combater isto.

O que também tenho observado que está muito bem montado, não só no colégio, mas também nas restantes escolas ucranianas, são as aulas. A minha filha ainda nem sequer está na 1ª classe, está no que eles chamam o reception, antes do primeiro ano, e temos aulas de videoconferência com a professora dela duas vezes por dia, um período muito curto de contacto, só para falar de algumas coisas, algumas delas quase em jeito de brincadeira, no fundo para complementar o envio de materiais para casa. Ou seja, a escola fechou, vai estar fechada pelo menos durante três semanas, assim como todas as escolas na Ucrânia, mas continua a haver contacto e enviam-nos materiais escolares para os pais trabalharem com os filhos.

E pronto, no fundo tem sido isto a nossa vida na Ucrânia. Para já, está completamente fora de questão regressar a Portugal, até porque nós estamos a trabalhar. Para todos os efeitos, ontem foi dia de folga, hoje é dia de folga e voltaríamos ao trabalho na quarta-feira. Neste momento temos de continuar a trabalhar, não íamos para Portugal fazer nada.

Luís Castro e Vítor Severino

Luís Castro e Vítor Severino

Barcroft Media

A nossa vida, neste momento, está aqui. Estamos a falar de uma equipa de futebol profissional, que tem um orçamento muito grande, que envolve muitas pessoas e, caso a decisão seja parar o campeonato ucraniano, a verdade é que nós temos de continuar a trabalhar na mesma.

Embora não estejamos juntos no centro de treinos, temos de continuar a trabalhar, a planear e, no fundo, a tentar minimizar o que possam ser alguns danos para esta época e para aquilo que aí vem, tanto em termos de campeonato como em termos de competições europeias.

Para já, vamos ficar por aqui. A equipa técnica está toda em contacto e aguardamos o que sairá da reunião de hoje. Estamos todos por casa, mas vamos falando, de certa forma apreensivos, mas, como disse, sabendo que temos de fazer a nossa parte. Ficar em casa, cuidar de nós e, assim, tentar cuidar dos outros, também.

(Depoimento recolhido por Mariana Cabral)