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Depois de um “autêntico filme” entre Rabat, Ceuta, Algeciras e Huelva, João Aroso está finalmente de volta a Portugal

Em Marrocos a treinar a seleção sub-20 local, João Aroso viu-se metido num imbróglio quando os voos no país foram suspensos, devido ao Covid-19. Depois de uma viagem que meteu carros alugados, barco, táxi e um comboio, finalmente conseguiu regressar a Portugal, quase dois dias de ter partido. Mas, agora, tem de ter "muito cuidado", diz à Tribuna Expresso

Mariana Cabral

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"Vivi um autêntico filme".

Agora, são e salvo em casa, com um final feliz, João Aroso até se ri. "Foi um autêntico filme", repete, "com muitos períodos de drama, suspense, momentos caricatos e até comédia", resume à Tribuna Expresso, em áudio pelo Whatsapp.

Recapitulando: depois de ter obtido autorização por parte da Federação Marroquina de Futebol para voltar a casa e trabalhar em regime de teletrabalho, o selecionador da equipa sub-20 local teve de engendrar um plano complexo para conseguir sair do centro de treinos das seleções, em Rabat, e regressar a Lisboa, já que o governo tinha suspendido os voos internacionais no passado sábado.

Acompanhado por Sergio Piernas, treinador espanhol que lidera a seleção marroquina sub-17, João Aroso percorreu os 300 km que separam a capital de Marrocos de Ceuta também de forma pouco linear: foi de TGV de Rabat para Tânger e de táxi de Tânger para Ceuta, onde iria então apanhar o barco para Algeciras, na terça-feira, mas ainda tinha de comprar bilhete.

"Chegámos ao barco, mas o que íamos apanhar foi cancelado. Apanhámos outro e chegámos a Algeciras no limite, porque a agência de viagens fechava às duas e depois só reabria às quatro e, se não conseguisse chegar antes das duas, ficava em risco de não conseguir devolver o carro em Huelva, que era o trajeto que já tinha planeado para o carro alugado. Portanto tive de ir a correr, desde que saí do barco, para chegar a tempo", conta o ex-treinador do Braga B e ex-adjunto de Paulo Bento na seleção nacional.

João Aroso (à direita)

João Aroso (à direita)

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Depois, seguiram-se outros 300 km, mais coisa, menos coisa. "Fui a conduzir de Algeciras até Huelva, e aí tive de entregar o carro alugado. Apanhei um táxi até à fronteira e lá tinha um amigo algarvio à minha espera" diz. "Chego lá e o táxi espanhol não podia atravessar, portanto tive de fazer um trajeto de 20 metros a pé, mas já conseguia avistar o meu amigo e foi um momento muito positivo, com uma receção impecável da parte da polícia".

Já a anoitecer, seguiu-se a última viagem dos dois dias anteriores. "Segui com o meu amigo, que depois me deixou no comboio, em Faro, e segui de comboio até Lisboa, onde cheguei por volta das 22h, à Gare do Oriente. E pronto, segui para casa", finaliza.

Foi já em casa que João Aroso disse à Tribuna Expresso que, ainda assim, o percurso não está terminado. É que agora é preciso ter cautelas em relação ao contacto com a mulher e com os filhos. "Obviamente ficaram contentes pelo meu regresso, mas com muito cuidado. Apesar de me sentir muito bem, perfeitamente normal, e de ter tido o máximo cuidado, dentro do possível, logicamente que com todas as peripécias pelas quais passei, o risco passou a ser maior", alerta, garantindo que estão a tomar as medidas necessárias no contexto atual.

Depois de finalmente descansar, o treinador de 47 anos - que já dizia à Tribuna Expresso que preferia "estar a falar de futebol" do que de "peripécias" - vai voltar rapidamente ao trabalho, ainda que à distância. "Tive autorização, eu e todos, para voltar a casa, mas, que tenha conhecimento, apenas eu e o colega espanhol voltámos. Agora vamos trabalhar a partir de casa, porque há muita coisa para fazer. Faremos reuniões, quando elas forem definidas pelo diretor técnico, por videoconferência, e segue tudo a trabalhar." Só falta saber até quando.