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Covid-19. A moral de René Higuita: se te dizem para não saíres, não saias (nem da baliza, nem de casa)

Mais do que dizer mil palavras, uma imagem antiga pode ser uma analogia ao momento atual e René Higuita, o louco guarda-redes que, no seu tempo, tentava fintar jogadores e fazia pontapés-escorpião, recordou aquela jogada do Mundial de 1990, em que tentou enganar Roger Milla e a coisa lhe correu mal. Pegando nesse exemplo que marcou o Colômbia-Camarões, o ex-guardião foi ao Twitter reforçar o que mais se pede aos cidadãos, um pouco em todo o mundo, para combater a Covid-19: não saiam (de casa)

Diogo Pombo

Eric Renard/Getty

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Fartou-se da vida de futebolista, chega de ser profissional, tinha um amigo nas Ilhas Reunião, deu-lhe casa e foi para umas férias com fragrância a reforma. Acabou por ficar nove meses no calor e na boa vida, sacudindo a ferrugem das pernas, sem grandes esforços, no JS Saint-Pierroise, um clube local.

Um dia, teve que voltar aos Camarões, era o jogo de despedida do amigo Théophile Abega, companheiro no Mundial de 1982, lá foi ele e as pessoas, vendo a regressada habilidade, “começaram a perguntar” porque se tinha retirado e “o presidente insistiu que tinha de fazer parte da equipa, outra vez”. Longo salto para a frente e Roger Milla, um quase ex-reformado, está em Itália, a jogar outro Campeonato do Mundo com 38 anos.

Duvidou, por momentos, das pernas. A idade pesa e a questão é descobrir quando cairá o peso e não foi lá, nos oitavos-de-final, contra a Colômbia, com a bola nos pés de um cabeludo de bigodeira e fama de ser louco, que a energia lhe faltaria.

Roger lembrava-se dos tempos de França e do Montpellier, onde outro gadelhudo aos caracóis, mas louro, lhe falara de um certo guarda-redes seu conterrâneo e lhe mostrara vídeos dele ser o mais próximo de contracultural no futebol, à época. Este guarda-redes saía da baliza, fugia da área, marcava golos e fintava avançados em vez de agarrar a bola com as mãos, coisa que ainda se podia fazer.

Por muito excêntrico que fosse no visual, René Higuita era mais divergente em campo. Roger Milla estava avisado. Quando o colombiano se aventurou para longe da área, passou a bola e o defesa a devolveu, o camaronês puxou pelas pernas em vias de serem quarentonas para ir apertar o colombiano. Adivinhou que o tentaria driblar, acertou, roubou-lhe a bola, correu um pouco e o fácil remate deu golo.

Eric Renard/Getty

Esse foi o primeiro, marcaria um segundo. Depois de ambos, convidou a bandeirola de canto para uma dança desengonçada, diz ele que a improvisou nesse Mundial, dando um gesto icónico ao torneio a par de alguns outros, como a ousadia de Higuita. “É a minha forma de jogar, toda a gente sabe, assumo o erro e não estou disposto a mudar. Hoje tocou-me perder, mas já ganhei com este estilo”, diria, concretizada a tragédia.

Maior desgraça é a de hoje, em que a Colômbia, os Camarões e mais de 170 países, e os subsequentes muitos milhões de pessoas, lidam com os infetados de Covid-19 e prevenir que o surto deste coronavírus infete mais gente.

A pandemia não quer saber da idade que Roger Milla e dos caracóis e do bigode de Higuita, ou da amizade que nutria com Pablo Escobar, do pontapé-escorpião que aí sim o imortalizou, da cocaína que acusou no sangue, quando ainda jogava. Sem vacina e com muito tempo em falta até que uma chegue, o antídoto possível é evitar o contacto social e fazer o que o colombiano, no Mundial e em 1990, ignorou.

Não sair de onde era sensato, prudente e seguro ficar.

Neste caso, de casa, e René Higuita pegou na imagem que o guardou no lado errante da história para mostrar no Twitter, como se provou, que o melhor era ter feito o que muito lhe diziam. E hoje dizem-nos, um pouco por todo o lado, para não sairmos de casa e nos aventurar-mos. Higuita quis pegar no seu mal e apelar ao bem dos outros, puxando da analogia e dizendo: "Hoje enviaram-me muito esta imagem. Se esta fotografia serve para tomar CONSCIÊNCIA, também a vou utilizar. Primeiro, a saúde, se podes fazer as tuas coisas em casa, não saias...".