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Covid-19. Como é que os jogadores treinam durante uma quarentena? Pedro Caixinha explica (com ilustrações e gráficos e um plano minucioso)

Pedro Caixinha especializou-se em metodologia do treino e foi treinador durante sete anos no México, onde conquistou vários títulos à frente das equipas Santos Laguna e Cruz Azul. A pedido da Tribuna Expresso, traçou o plano de treinos que daria à sua equipa numa situação como esta, sem competição e em que os jogadores estão obrigados a treinar em casa, devido ao coronavírus

Pedro Caixinha (e Óscar Tojo, Pedro Malta e Hélder Baptista)

António Pedro Ferreira

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“O futebol é agora o que menos importa”.

É uma das frases mais repetidas pelos diversos responsáveis e intervenientes do panorama do futebol mundial. Sem dúvida, não podemos estar mais de acordo, e por isso é neste momento que todos teremos de demonstrar a nossa responsabilidade (distância social e quarentena voluntária) como cidadãos do mundo, connosco, com os nossos e com os demais. Por outro lado, é praticamente impossível “desligar” por completo daquela que é a nossa profissão e, por isso, este também é um momento de reflexão, de análise e de fazer face a novos paradigmas.

Como treinadores, a par da análise das novas tendências do jogo, a “atualidade” aponta para como preparar, ou manter uma equipa ao seu melhor nível em todos os parâmetros, numa modalidade coletiva, passando os jogadores a preparar-se individualmente e apenas em regime físico, proteger, proteger-se e monitorizar constantemente os possíveis sintomas da COVID-19, numa incerteza total de quando poderão regressar a treinar como equipa e só depois voltar a competir.

Felizmente, naquela que tem sido a nossa experiência, apenas tivemos este tipo de preocupações entre o final de uma época desportiva e o início da seguinte, podendo o período de férias variar entre 10 e 30 dias.

Na figura 1A e 1B deixamos um exemplo do plano de férias sobre 3 semanas (sendo a primeira de descanso total e as últimas 2 de activação), entregue aos jogadores do Cruz Azul entre o torneio Apertura e Clausura.

Figura 1A

Figura 1A

Figura 1B

Figura 1B

No entanto, hoje estamos perante uma realidade totalmente distinta, tendo em conta os condicionalismo gerados pela pandemia. Assim, o que propomos apresentar de seguida refere-se ao que hipoteticamente seria um planeamento e os diferentes momentos ou fases do mesmo.

1º Momento - a cumprir pelos jogadores individualmente em casa e ainda perante “diferentes condições” de trabalho

Trata-se de uma fase similar ao chamado período transitório, mas com a grande diferença de um iminente regresso à competição. Obedecem essencialmente a planos de natureza individual sujeito a uma monitorização diária e a um planeamento de carácter semanal (ver quadro 1).

Quadro 1. Planeamento de carácter semanal

Quadro 1. Planeamento de carácter semanal

Tem como principal objetivo tentar manter algumas das capacidades fundamentais do futebolista (tais como a resistência, a força e a velocidade, ver figuras 2A e B), bem como a manutenção de todo o trabalho preventivo, já vindo a ser realizado desde o início da época.

Figura 2A

Figura 2A

Figura 2B

Figura 2B

Cabe ainda destacar o preenchimento do questionário de bem estar (figura 3).

Figura 3

Figura 3

Neste período revela-se também ser fundamental acompanhar a dieta do jogadores no sentido de manter os hábitos ao nível da sua periodização alimentar.

Sendo também um momento importante para análise da performance individual (na posição), grupal (no setor que lhe compete), coletiva (na equipa ao longo dos diferentes momentos de jogo e espaços de fase) e por fim do próximo adversário (ou adversários, se num possível regresso possam, por exemplo, ter duas competições muito próximas).

Pensamos que um correto planeamento e execução durante este período possam ser determinantes no regresso à competição e assim fazer a diferença.

2º Momento - jogadores/equipa no regresso aos treinos

Este será sem dúvida um momento que deveremos ter algumas precauções, quer pelo nível de exigência no regresso e na proximidade em voltar a competir, por um lado, e o pouco tempo de preparação, por outro (sem esquecer os aspectos de natureza cognitiva e psico-emocional de ter ultrapassado toda uma situação totalmente nova e forte emocionalmente).

Aqui, é aconselhável ter muito cuidado com a integração dos jogadores e o seu regresso nos primeiros dias de novo ao “treino colectivo”, em particular na relação entre a chamada carga aguda vs. crónica. É portanto muito importante que exista prudência e que o regresso à periodização semanal (microciclo padrão) se faça de um modo gradual.

Já a monitorização do processo de treino, de carácter individual e colectivo deve ser analisada de uma forma cuidada e profunda.

3º Momento - regresso à competição

Neste momento achamos aconselhável uma análise e gestão individual dos jogadores e acima de tudo valorizar em grande maneira os processos de recuperação da equipa.

De seguida apresentamos no quadro 2 as principais diferenças que entendemos que existem entre um plano de férias e um plano em isolamento.

Quadro 2. Principais diferenças entre um plano de férias e um plano em isolamento

Quadro 2. Principais diferenças entre um plano de férias e um plano em isolamento

Muitas serão as dúvidas se as nossas competições futebolísticas regressarão ainda durante esta época, se regressam após o pico da epidemia, após o restabelecimento da “normalidade”, se regressam na próxima época, em que formato, em que sistema para a obtenção do título de campeão... Ou outros: com que ritmo e sincronização regressarão e se voltaremos a ser os mesmos ou repensaremos também a nossa própria visão do mundo.

Mas uma coisa é certa, como já dizia Arrigo Sacchi em 1994: “O futebol é só a coisa mais importante entre as coisas menos importantes das nossas vidas”. E agora é inequivocamente muito pouco importante, quando estamos em guerra, contra um adversário poderoso, desconhecido, com muitas variantes e mutações. Agora é tempo de, em equipa, o derrotarmos - e só depois podermos pensar na próxima competição.