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Covid-19. Tsanko: “Treino num descampado, numa rua sem saída, e há um senhor que vem à varanda ver-me lançar o peso durante uma hora”

Tsanko Arnaudov nasceu na Bulgária mas compete por Portugal, sendo o atual recordista nacional do lançamento do peso, com 21,56, marca estabelecida em 2017. Em casa há uma semana por causa da COVID-19 conta como divide o tempo entre exercícios na garagem, a limpeza da casa e jogos de Monopólio ou Uno com a companheira e também atleta Cátia Azevedo, especialista nos 400m.

Depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu

Marcos Borga

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Desde a sexta-feira 13 que deixei de poder treinar no CAR, o único centro com melhor qualidade e quantidade de material para mim. Estou em casa há uma semana, mas basicamente estou a treinar da mesma forma. O que muda é o local do treino e as condições. Continuo a lançar peso num local onde vão ser construídas casas mas que neste momento é um descampado com alcatrão e uma zona de relva perto. É uma rua sem saída e lanço lá. Para fazer os exercícios de ginásio, tenho a minha garagem. O IPDJ facultou-me algum material, alguns pesos, tenho por isso algumas condições para minimizar os danos.

A cerca de 30 metros do tal descampado onde agora treino há uma casa e um dia estava a lançar e vejo um senhor na varanda a olhar com um ar espantado. Curiosamente ficou lá o tempo todo em que estive a lançar, uma hora. Passado um dia ele perguntou-me o que eu estava a fazer e agora sempre que vou treinar, ele está na varanda, cumprimenta-me, bom dia ou boa tarde, e fica a ver-me. Confesso que não me distrai porque tenho de focar-me muito no treino, até porque não tenho um circulo de lançamento que seja exatamente igual ao da pista e tenho de me concentrar. Medi o diâmetro da base, os 2m13, coloquei uma fita branca a marcar e tem lá ficado, sem ninguém lhe mexer. O treinador está comigo.

O meu treino normalmente é às quatro da tarde, chego um bocadinho mais cedo, aqueço e faço o treino. Claro que não há aquele contacto próximo que era habitual, mas fazemos o nosso treino dentro do que é possível.

Não me posso queixar, porque até tenho muito boas condições, mas esta é uma situação nova que não sei bem como lidar. Nem sei quanto tempo vai durar. Tenho falado com responsáveis do COP que estão a tentar arranjar-nos um local mais apropriado para treinar com melhores condições do que as que temos agora, que são mínimas, mas não havendo provas para as qualificações, não sei como é que os Jogos Olímpicos se podem realizar. Não cancelaram e querem que seja na data prevista, mas não sei quanto tempo podemos continuar a treinar assim.

Sei que tenho boas condições comparativamente com outros atletas, porque consigo fazer ginásio em casa, embora não sejam todos os exercícios que faço no CAR, mas tenho minimizado os danos causados.

Nem faço a menor ideia como e quando vamos conseguir fazer a marca de qualificação para os JO. Ainda há dias falava com o Paulo Reis que é o técnico nacional sobre isso. É que agora com as fronteiras fechadas e voos cancelados vai ser difícil haver provas tão cedo e conseguirmos a qualificação. Desejo uma solução em breve para que as coisas aconteçam para mim e para todos. Se continuar assim não vai haver outra hipótese a não ser o adiamento dos JO.

Reparem: há atletas da marcha que não se podem qualificar porque não há provas; no salto com vara, por exemplo, o Diogo Ferreira não pode treinar na rua, o mesmo é válido para os outros saltos, para os velocistas e por aí fora.

Eu vivo com a Cátia Azevedo, que faz os 400m, ela tem ido para uma quinta perto de casa, que tem boas condições porque está praticamente deserta, e faz lá as suas corridas diárias. Também faz ginásio comigo na garagem.

Por enquanto, a nível psicológico, está a correr tudo bem, há sempre qualquer coisa para entreter e os dias vão passando rápido. Jogamos muito Monopólio e Uno, PlayStation também, estamos a aproveitar para fazer umas pinturas nos quartos, limpamos a casa.

O que está a ser mais difícil de gerir é não podermos sair quando mais nos apetece, e não poder ir à casa dos meus pais porque apesar de não serem velhos são pessoas com algum risco. A minha mãe teve cancro e o meu pai é diabético e para os proteger não queremos ter contacto com eles. Estão todos bem graças a Deus. Que continue assim.