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Scouting: quando a “doença de viajar” encontra o beco da pandemia, o vídeo é o único caminho possível

Agora que o futebol está parado em quase todo o lado, não há como ver ao vivo a postura de um jogador quando é substituído, como reage a assobios, a três passes errados seguidos ou à cobrança dos adeptos, por exemplo. Em tempo de pandemia, os scouts e observadores dos clubes dependem da análise de vídeo. "A maioria dos scouts têm a doença de viajar, estão habituados a isso. Mesmo assim, consegue-se dar um volume de trabalho razoável às pessoas", resume José Boto, diretor de scouting do Shakhtar Donetsk

Diogo Pombo

Laszlo Szirtesi/Getty

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Dois jogadores não reagem da mesma forma se, nos primeiros 10 minutos de uma partida, falharem cada passe e toda a ação com bola que tentem. Há quem encolha os ombros, se tranque na bolha ou até se injete de motivação se for o alvo de uma orquestra de assobios no estádio; outros vão encolher ao tamanho de uma formiga e deixar crescer o receio de cada vez que participarem no jogo, diretamente.

Há, também, os que bufam e refilam se forem substituídos, ou os que nada precisam de dizer, porque a postura, os gestos e o corpo os denunciam no campo e dão pistas sobre as reações que têm na cabeça. Coisas que se despistam ao vivo, presencialmente, desde o aquecimento até ao fim do jogo.

É por isso que os scouts observam jogadores e, por arrasto, que alguns clubes informam os jornalistas quais os clubes representados no estádio, em dia de jogo. Porque é natural, é trabalho, é assim que um scout atesta ideias, confirma perceções, desmente noções ou descobre mais coisas sobre um futebolista já analisado em vídeo.

Que, neste momento, “é o único trabalho possível”.

José Boto é diretor de scouting do Shakhtar Donetsk, na Ucrânia, onde os campeonatos estão parados como em quase toda a Europa. Todos os scouts do clube “têm as suas ligas”, explica à Tribuna Expresso, e, porque “agora têm tempo para isso”, usam-no para “observarem pormenorizadamente” os potenciais ou já identificados jogadores.

José Boto tem 52 anos e trocou o Benfica pelo Shakhtar Donetsk no início da época 2018/19

José Boto tem 52 anos e trocou o Benfica pelo Shakhtar Donetsk no início da época 2018/19

Tiago Miranda

Fazem-no “através do Wyscout”, uma plataforma que junta vídeos de quase todos os campeonatos e permite um detalhe microscópico na análise - é possível escolher todos os remates com um certo pé, de determinada zona do campo, feitos por um jogador, por exemplo. Há outras, como o InStat ou o Hudl. “É um bocado assim que os departamentos estão a funcionar, com este tipo de tarefas”, resume quem, de momento, se encontra em Portugal, onde trabalhou durante 11 anos no Benfica.

Há estados de emergência e governos a imporem que se fique em casa para o bem da saúde de todos. Os scouts que, na sua maioria, “têm a doença de viajar e estão habituados” a irem onde jogam os futebolistas, estão agora “fechados e agarrados ao computador”.

Mas, nesta altura, em que “70% da época estava concluída” quando os campeonatos, no geral, ficaram suspensos, “as observações de um departamento de scouting já estariam em fase final de hierarquização das escolhas, mediante a avaliação realizada”, constata Nuno Almeida, chief sout do Rio Ave. Ou seja, os jogadores a contratar, ou os que só faltava decidir se eram, ou não, para perseguir, já estariam identificados.

Acrescenta que “este período de paragem obrigatória permite que a análise seja feita através das plataformas de vídeo”. Além de aprofundar a avaliação de certos jogadores - “como se comporta quando a equipa está a perder, por exemplo” -, o scout dos vilacondenses explica que este período também é uma hipótese de “explorar mercados alternativos”. Espreitar onde não se costuma e “avaliar potenciais oportunidades”.

Sempre em vídeo, claro.

O Rio Ave não é o Shakhtar Donetsk. Os portugueses não são endinheirados como os ucranianos e fazem por combater a carteira magra com proatividade. Tentam “chegar primeiro” a jogadores tidos como prioritários, ganhando na rapidez e não com os euros. Não podendo viajar, resta as horas a analisar por vídeo, mas o vídeo leva-os, apenas, até certo ponto - “a grande desvantagem está na impossibilidade de realizar observações de torneios internacionais in loco, ou validar oportunidades que surjam no mercado”, condensa Nuno Almeida.

Nuno Almeida integra o departamento de scouting do Rio Ave.

Nuno Almeida integra o departamento de scouting do Rio Ave.

D.R.

Em breve, iriam começar os Europeus de sub-17 (21 de maio a 6 de junho) e sub-19 (19 de julho a 1 de agosto), que seriam sempre fases de “contacto, networking e observação” de muitos e promissores miúdos. A UEFA adiou as duas provas, assim como as competições de clubes. Ninguém sabe quando a Liga dos Campeões e a Liga Europa se irão jogar.

Ligou-se a ventoinha das perguntas, que andam a pairar no ar desde então.

Se não terminarem os campeonatos, o mercado de transferências de verão terá a mesma duração? Haverá, sequer, mercado? Qual é a disponibilidade financeira dos clubes para atacarem o mercado depois de uma paragem longa, em que as receitas vão baixar? Quanto tempo durará esta paragem e, depois, há tempo para terminar os campeonatos?

José Boto desconhece como funcionam outros clubes, mas, deduz, que “todos estarão expectantes no que vai ser o desenrolar disto”. Há sempre os papões, que moram bem lá no topo do arranha-céus dos mais ricos do mundo, visíveis em listas como a da Deloitte, que não dependerão das receitas vindas da Champions para orçamentarem os planos de ataque ao mercado.

Mas, para os restantes, que são a maioria, “há uma série de dúvidas que fazem com que não se tomem decisões, a não ser as que já estejam tomadas”.

Haverá contratos de futebolistas a terminar no final de junho, campeonatos a poderem ser retomados, ou não, por volta dessa altura, e, caso o sejam, os clubes ficarão a saber com que dinheiro será possível contarem para a próxima temporada. Porque o scouting funciona com as intenções do clube, cada um tem uma estratégia de ataque ao mercado, e cada mercado determina se é possível concretizar esse plano.

No início desta cadeia alimentar estão os scouts, a identificar, observar, analisar, reportar e sugerir jogadores. Com o futebol está hibernado até sabe-se lá quando, o vídeo e a fartura de tempo são as únicas ferramentas disponíveis. “Muitas vezes nem ligamos tanto, mas, todas as referências que me são enviadas, principalmente, por agentes, estou a dividi-las todas para os scouts fazerem a observação e darem-me os relatórios”, revela José Boto.

Porque, repetindo, agora há tempo (e vídeo) para tudo.