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Covid-19. Leila foi nadadora paralímpica, é mãe e é médica: “Com todas as notícias, as pessoas dão mais valor aos profissionais de saúde”

Leila Marques, antiga nadadora paralímpica, aplica no trabalho diário como médica as premissas do treino de alta competição – preparação, concentração máxima e trabalho de equipa - e acredita que é esta a receita para lutar contra a covid-19. Nesta prova difícil e longa, em que a profissão obriga algumas vezes a ficar longe da família, Leila Marques admite que o mais duro é não poder abraçar a filha assim que chega a casa

Lusa

Leila Marques, em primeiro plano, quando competia

LIU JIN

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Leila Marques, antiga nadadora paralímpica, aplica no trabalho diário como médica as premissas do treino de alta competição – preparação, concentração máxima e trabalho de equipa - e acredita que é esta a receita para lutar contra a covid-19.

Nesta prova difícil e longa, em que a profissão obriga algumas vezes a ficar longe da família, Leila Marques admite que o mais duro é não poder abraçar a filha assim que chega a casa.

“É duro, chegar a casa. Vê-la correr direito a mim de braços abertos e não poder abraçá-la logo”, explica, contando que o ritual diário passa por um banho e uma mudança total de roupa, antes de se poder juntar à família.

A trabalhar na Unidade de Saúde Familiar (USF) LoureSaudável, Leila Marques ainda não sentiu necessidade de se isolar da família - o marido e a filha Matilde -, que está em casa a cumprir o isolamento que tem sido pedido a todos.

“Estão os dois em casa, é complicado, mas tem de ser assim. Trabalho todos os dias e, obviamente, quando chego a casa, respeito todas as normas de segurança”, explica a médica de família, que participou nos Jogos Paralímpicos Atlanta1996, Sidney2000, Atenas2004 e Pequim2008.

Leila Marques, chefe da missão paralímpica aos Jogos Tóquio2020, que a pandemia obrigou a adiar para 2021, admite que na USF na qual trabalha ainda ponderaram “estabelecer um plano de resguardo, mas não foi possível, por isso estão todos a trabalhar”.

“Tal como foi pedido pela Direção-Geral da Saúde (DGS), cancelámos as consultas programadas não urgentes, mas há serviços que têm, naturalmente, de se continuar a manter, como as de saúde materna e o acompanhamento aos doentes crónicos”, explica.

A antiga nadadora paralímpica, que não tem o antebraço direito, lembra que “as pessoas confiam muito no seu médico de família” e, por isso, “houve muita procura dos serviços”, numa altura em que a própria linha de Saúde24 “não tinha mãos a medir”.

“Foi preciso criar uma via para doentes suspeitos da covid-19. Onde tentamos perceber muitas coisas, e resolver de imediato” explica, admitindo que é aí que se pode verificar o contacto mais direto com o novo coronavírus, responsável pela pandemia que “parou” o mundo.

A covid-19 adiou para o próximo ano um dos grandes desafios de Leila Marques, escolhida para ser a chefe da missão portuguesa nos Jogos Paralímpicos Tóquio2020.

“O adiamento dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos era uma decisão que tinha que ser tomada. Não havia condições para que se realizassem neste verão”, admite.

Habituada ao trabalho de preparação para as grandes competições, a antiga nadadora considera que o adiamento “tranquilizou os atletas”, que podem, agora, “rever os planos de preparação com as equipas técnicas, para depois, quando for possível começarem a trabalhar, e estarem fortíssimos para o ano”.

Aos 38 anos, Leila Marques acredita que toda esta situação criada pela pandemia, que começou na China e já causou mais de 157 mil mortos e infetou mais de 2,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios, veio fazer com a sociedade em geral dê reconhecimento a várias classes profissionais.

“Com todas as notícias que vamos vendo, as pessoas dão mais valor aos profissionais de saúde e a uma série de gente que está ligada ao sistema de saúde”, refere, lembrando que “há muitas outras profissões e trabalhos que nestas alturas merecem todo o reconhecimento”.

Leila Marques compara mesmo este reconhecimento com o que é dado, muitas vezes, à grande maioria dos atletas e sobretudo aos paralímpicos: "Muitas vezes desconhecemos as realidades e só temos consciência disso quando surgem situações extraordinárias"