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O mayor Klitschko já deu murros nos ringues, agora dá porrada à covid-19: "Desde janeiro que estamos a comprar ventiladores para Kiev"

Três vezes campeão mundial de pesos-pesados, Vitali Klitschko tornou-se presidente da câmara de Kiev em 2015. Na capital da Ucrânia morreram, para já, apenas 15 pessoas vítimas da covid-19 e o segredo poderá estar na capacidade de antecipação do antigo pugilista

Lídia Paralta Gomes

CHRISTOF STACHE/Getty

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Nos seus tempos de atleta, Vitali Klitschko tinha uma alcunha: Dr. Ironfist. Doutor porque o ucraniano de 48 anos é doutorado em Ciências do Desporto. E punhos de aço porque era com eles que aviava os adversário nos ringues de boxe. Com três títulos mundiais de pesos-pesados, o mais velho dos irmãos Klitschko foi um dos mais bem-sucedidos pugilistas da década passada, tendo abandonado a competição em 2013 ainda como campeão.

Dois anos depois tornou-se presidente da câmara de Kiev e é agora com os mesmos punhos que luta contra a covid-19, com a sua rápida ação preventiva a ser considerada decisiva para que, até agora, o novo coronavírus só tenha causado a morte a 15 pessoas na capital ucraniana, onde os últimos números oficiais apontam ainda para apenas 892 casos, numa cidade com 2,8 milhões de habitantes.

O segredo parece ser um: antecipação.

"Em finais de janeiro a cidade formou um grupo de trabalho e desde aí que estamos a comprar ventiladores", revelou Klitschko em entrevista ao jornal britânico "Telegraph". "Neste momento temos 14 hospitais dedicados à covid-19, com capacidade para 1700 infectados. Continuamos a ter de prevenção material de proteção, medicação, ventiladores e outros equipamentos", explicou ainda o antigo pugilista, que nos ringues de boxe apenas perdeu por duas vezes em 47 combates. Das 45 vitórias, 41 foram por KO.

Para deixar a covid-19 caída no ringue, Vitali Klitschko contou também com outra importante ajuda: Wuhan, cidade chinesa onde foram detectados os primeiros casos do novo coronavírus, está geminada com a capital ucraniana. E a cooperação foi essencial para o caso de sucesso que é Kiev.

"Contactámos os especialistas de lá e eles amavelmente partilharam as suas experiências e procedimentos, que nos ajudaram a conter a propagação do vírus. Deram-nos também indicações de como os nossos médicos e enfermeiros deveriam proteger-se. Sem dúvida que usámos essas orientações e recomendações na hora de tomar decisões", referiu ainda.

Aí estão os famosos punhos de aço de Vitali Klitschko, com uma mensagem onde pede aos habitantes de Kiev para deixarem as ruas

Aí estão os famosos punhos de aço de Vitali Klitschko, com uma mensagem onde pede aos habitantes de Kiev para deixarem as ruas

SERGEI SUPINSKY/Getty

A Ucrânia está em confinamento obrigatório desde 12 de março, mas dias antes já Kiev se tinha fechado. "Tenho a certeza que as restrições severas feitas de forma precoce deram-nos o tempo que necessitávamos para travar a propagação do vírus. A situação cá está estável e para já escapámos aos cenários que vimos em Itália e Espanha", sublinhou Klitschko que, apesar dos 2 metros de altura, reconhece a pressão de ter nas mãos a responsabilidade que é ter nas mãos "a saúde e a vida de milhões de pessoas".

"A minha prioridade número 1 é que Kiev passe por isto com o mínimo de danos. Podemos levantar a economia, mas ninguém pode ressuscitar pessoas", lembra também na conversa com o jornal britânico.

Vitali Klitschko diz ainda que tem mantido em contacto com presidentes de câmara de outras grandes cidades europeias e que, neste momento, praticamente vive no escritório: "Nunca pensei que pudesse estar tanto tempo a trabalhar sem parar. O meu dia de trabalho tem quase 24 horas, todos os dias da semana e ainda não consigo dizer quando é que isto vai voltar ao normal".

O bom exemplo de Kiev parece ter reflexo no resto do país. A Ucrânia tem oficialmente apenas 6125 casos de covid-19 e 161 óbitos.